Monumento ao desconhecido

Paulo Mendes Campos é um dos “quatro cavaleiros do íntimo apocalipse”, ao lado de Fernando SabinoOtto Lara Resende e Hélio Pellegrino, os mineiros que mudaram a feição da literatura brasileira nos anos 60, introduzindo uma variada temática urbana, que conseguia combinar o provinciano e o cosmopolita, um jeito de viver entre o existencialista e o hedonista, e uma prosa de dicção ligeira, direta e cristalina. Sobre as aventuras do quarteto entre BH e Rio, sugere-se ler O Desatino da Rapaziada, de Humberto Werneck.

Ler PMC é revisitar o sonho brasileiro dos anos 50/60, em que o país era o melhor do mundo na música, na bola, na arquitetura e em um certo jeito de viver bem. Dos cronistas dessa época de ouro, é o mais próximo à poesia – publicou dois livros de poemas – , o mais desencantado e ao mesmo tempo mais lírico. É talvez o nosso prosador que mais escreveu sobre o álcool, em dezenas de crônicas deliciosas, como a clássica “Por que bebemos tanto?”. PMC também foi o grande muso de Clarice Lispector – mas era casado e irredutivelmente fiel. Trocaram dezenas de cartas belíssimas (pelo menos as que eu li). PMC também segue sendo até hoje um dos raros escritores brasileiros a escrever sobre o LSD.

Elegante até o último fio de cabelo – e ele não tinha muitos e vivia despenteado, tema da famosa “Meu reino por um pente” – , muitas vezes a escrita de PMC se aproxima do ensaio, naquilo que ele tem de mais livre e afeito à livre associação de ideias. Foi também um grande perfileiro, como se vê abaixo, neste perfil de um ilustre desconhecido. O texto está na obrigatória antologia O Amor Acaba (Cia das Letras).

PROPOSTA

Bem, é isso o que você vai fazer: vai escrever um perfil de algum personagem que você já viu muitas vezes, ou algumas, e que te chamou a atenção por algum aspecto, algum motivo, ou alguma história particular. Vai contar seus encontros ou suas impressões sobre a pessoa, o que ela te levava a pensar sobre ela (e sobre você também; este personagem anônimo o levará a fazer questionamentos sobre sua própria vida).

Procure eleger características comportamentais a partir de características físicas. Não economize em detalhes, nem físicos nem psicológicos. Pode ser um personagem de qualquer tempo, seja um de agora, seja alguém de sua infância, ou alguém que você viu na rua, ou um colega distante. Só não pode ser uma personagem sobre a qual você tenha intimidade: importante aqui é imaginar como seria este tal personagem. 

Você pode, se quiser, se aproximar da forma ensaio, fazendo sucessivas tentativas de definir este personagem, de lembrar suas histórias, e de entender por que ele seria uma pesoa importante para você, ainda que seja um personagem lateral, coadjuvante, ou até mesmo figurante em determinada história.

Lembre-se de compor uma descrição física e psicológica meticulosa, incluindo a maneira como o personagem falava e agia.

O seu ponto de partida será a expressão: que fim levou?

Em no máximo 9 mil toques.

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