
Helô Mello
Traição na vida
Norma e Raul juntos há 7 anos, casamento morno. Sabe como é? Não brigam, tocam a vida como dá. Não falta grana, só sexo. Não discutem mais a relação, negociam providências do dia a dia, como quem vai ao mercado essa semana, se Norma sabe onde ele guardou seus óculos escuros e de quem é a vez de lavar a louça. Norma está na dúvida se a blusa nova combina com a saia para irem jantar com Paulo e Flavia. Raul sempre diz que Norma está linda, mesmo sem reparar, só não tem paciência para esperar ela se trocar de novo e de novo, como acontece quando entra na maré da indecisão. Já que vai para o sacrifício, melhor enfrentar logo. Sim, sacrifício mesmo. Essa é o sábado da Norma decidir onde e com quem vão jantar. Alternam para equilibrar: cada final de semana um define o programa da noite de sábado, um dos poucos combinados que funciona ainda. Foi por causa de Paulo e Flavia que se estabeleceu essa regra. Raul detesta esse programa: Paulo só fala do mercado financeiro e vinho. Duas pautas que não estão no seu radar. Flavia, amiga de infância de Norma, magrinha, miúda, de óculos, tímida, blusa sempre fechada até o pescoço, fala baixo e pouco. Mas para aplacar maiores desentendimentos ficou acertado que se revezam na decisão de como preencher o sábado. Não se sabe se fica bom para os dois ou ruim para todos. Hoje era o dia da Norma definir, paciência, pensou Raul.
Estavam no elevador, prontos para sair, quando toca o celular de Norma. Era Flávia, aos prantos. Paulo saiu de casa, deixou um bilhete na mesa pedindo a separação. Sem aviso prévio. Norma, indignada, pergunta como assim? Vocês se davam super bem?! Casal modelo das amigas! Raul tenta ouvir a conversa, faz sinal para Norma pôr no viva voz, mas ela olha feio e vai direto para o quarto. Estranho, ele pensa, um cara tão sem graça como Raul largando a mulher desse jeito? Quem diria.
Norma entra na sala de volta acabada, abraça Raul com força, com os olhos vermelhos, de quem chorou pela amiga. Que cara sacana, né? Ela pede a aprovação dele, que concorda, sem concordar. Ele deve estar em outra há tempos. Ninguém larga essa vidinha, à toa, sem um destino mais promissor, ele avalia.
Esse episódio mudou a relação de Norma e Raul. Estranho porque Raul, que não gostava do Paulo, passou a ser seu melhor amigo e confidente. Tinha curiosidade de saber de sua nova vida e como ele iria se organizar agora, com a Sofia, 10 anos mais nova, sua assistente no escritório. Uma gata, Paulo dizia. Norma, solidária a amiga, nem podia ouvir falar de Paulo. Esse nome estava vetado em casa.
Agora, aos sábados, Norma saía com as amigas, iam a um bar, escutavam um jazz enquanto Raul tomava chope com o pessoal, entre eles, Paulo. Alguma coisa mudou depois da súbita separação do casal tão chegado.
Norma parecia ter despertado para a vida. A maioria das amigas estavam em outros relacionamentos ou sozinhas, mas bem melhor que antes. Só Norma se mantinha na mesma relação xoxa, sem distração extra. As amigas riam dela. Está perdendo tempo,
né? Deixando a vida escorrer, diziam. Quando ficar velha não vai ficar com ninguém. Flavinha cada dia mais linda, cabelo novo, blusa agora decotada e feliz, que dava gosto. Ainda tinha ódio do Paulo, reservavam uma boa parte da noite para detonar os exs e as mocinhas que estavam com eles no momento.
Foi assim que Norma descobriu o Tinder, a ferramenta de relacionamento recém lançada que suas amigas estavam usando. Riam juntas das fotos de poses mais grotescas, gordos sem camisa, garotos lindos e sarados, outros bregas na praia ou quase pelados em camas de motel. Resistiu por muitos sábados, até que resolveu que iria se aventurar no Tinder, só de brincadeira.
Para começar, precisava de uma foto. Como fazer sem se dedurar para os amigos do marido? Se produziu, na casa de Flavinha: descolou de peruca ruiva, batom vermelho e brincos enormes que não combinavam com o estilo Norma, morena e de franja. Abriu a conta no Tinder com a personagem que acabava de criar. Se chamaria Carmen. Achou o aplicativo viciante. Para alguns dava match, para ver o que rolava e, quando o papo esquentava, sumia.
Parece que tinha aberto um portal em sua vida. Por algumas semanas a relação deles até esquentou, transavam mais, riam juntos, Paulo pareceu mudado. Mais carinhoso e menos distraído. Não que agora estivessem morrendo de amores um pelo outro, por que a vida não é um conto de fadas, né? Mas deu uma melhorada, isso é verdade.
Começou a malhar, Paulo começou a correr. Ela sempre dizia que ele precisava fazer algum esporte, se cuidar, e agora parece que ele tinha escutado seus conselhos. Emagreceu. Norma cortou o cabelo, e Paulo ficou surpreso, pois nesses 7 anos ela nunca tinha tirado a franja do rosto! Ele até reparou, incrível. As semanas passaram e Norma viciou na brincadeira do Tinder. O que era para ser uma breve distração, virou passatempo. A Carmen do aplicativo, era 5 anos mais nova (pode-se mentir a idade), separada e sem filhos, livre para novos relacionamentos sinceros, engatou uma conversa on line, com um tal de Guto. Dois anos mais novo, nadador e gostava de ler. Quesitos que avaliava como de um cara sensível. E o que mais gostava é que tinha muita paciência para escutá-la. Só não via muito bem seu rosto na foto, tirada numa praia, de perfil, num contra luz, a silhueta do corpo sarado já era suficiente, não precisava se exibir, estilo brega como tantos. Carmen Tinder, contava que teve relacionamentos pontuais, não queria nada sério, praticava yoga e meditação. Carmen e Guto descobriram que frequentavam os mesmos bares, gostavam das mesmas músicas. Jazz era a preferência de ambos e esse ponto ela não inventou. Estava desconfiada de quem estava ficando apaixonada, Carmen ou Norma?
Depois de 3 meses nesse sexo virtual Guto começou a insistir para se encontrarem, Carmen, quer dizer, Norma, resistia. E se Guto se desapontasse com a revelação de Carmen ser Norma, morena, que nunca fez meditação, 5 anos mais velha? Enrolou até não conseguir mais sustentar a pressão. Ia perder Guto. Suas amigas das saídas de sábado pressionavam: vai, e o pior que pode acontecer é uma transa rápida ou nada. Volta para casa e a vida segue.
Um dia Raul avisou que precisaria viajar. Era só um final de semana, voltava rápido. Um evento do trabalho, uma chatice, mas não tinha como recusar. Foi assim que Norma topou levar Carmen para conhecer Guto. Combinaram no sábado, final da tarde, no bar Balcão. Achou que era um lugar aberto, com bastante gente (conhecida e não) e se funcionasse poderiam sair para emendar o programa ou ela ficar por lá e encontrar conhecidos. O caju-amigo era uma de suas bebidas preferidas.
Raul se despediu, mais carinhoso que costume, uma mala pequena, mesmo para um final de semana, e Norma começou o ensaio de que roupa vestir, trocava mensagens com as amigas. Resolveu ir sem a peruca. Se não achasse que Guto valeria a pena, Carmen não teria aparecido e pronto. Voltava para casa e esperaria Raul no domingo à tarde. Combinou com as amigas um código: elas deveriam ligar as 19:30h. Se ela atendesse e falasse “Como está”? É porque não rolou. O cara era um mala, precisava de ajuda, que corressem para lá. Se falasse “OIE”! Estava tudo bem encaminhado, seria a noite de Carmen. Planejou se sentar longe da rua, olhando para fora, e chegar mais cedo para ver ele entrar. Ou chegaria atrasada para deixá-lo na expectativa?
Chegou logo depois do Balcão abrir. Tomou 2 caju-amigos e um canapé de rosbife que ela adorava, para não queimar a largada. O nervoso era tanto que o garçom, seu amigo, perguntou se estava tudo bem. Até que chegou a hora. Seus olhos escaneavam todas as entradas possíveis do bar que não parava de encher. Que ideia, sábado a noite era óbvio que aquele lugar iria bombar!, pensou Norma.
Deu uma olhada 360 e qual não é sua surpresa de dar de cara com …. não, devia estar vendo coisas, sim! RAUL?! O que ele estava fazendo lá com aquela camisa ridícula, justa no corpo, mangas dobradas acima do cotovelo, como ela nunca tinha visto ele usar. E gel no cabelo? Não era possível! Era Guto. Por conta dos dois caju-amigos, seu raciocínio parecia não acompanhar a cena. Raul entrando, seu sorriso amarelando quando deu de cara com Norma, isto é, Carmen, com quem Raul, isto é, Guto, tinha combinado o encontro. O casal que deu tão certo no Tinder, era na verdade a dupla sem graça Norma e Raul, que de casal mesmo não restava nada, além do convívio na mesma casa. Meses investidos no Tinder, sonhando com o encontro e surpreendida em flagrante, no bar Balcão, por Norma e Raul ou seria possível serem ainda Carmen e Guto?
