A Doida do Apito

(B. V.)


É na esquina das Lojas Pernambucanas, em frente à Praça Raposo Tavares, onde a zoada do Centro se faz ainda mais forte e confusa – buzinas, pedestres, ônibus que passam lotados, vendedores de passe, ambulantes de toda sorte, pastores que anunciam o fim dos tempos pra depois de amanhã –, que Joel vende ervas numa carrocinha – ervas pra tempero, pra banho e chá. Joel para pra ouvir, todos os dias, geralmente logo no começo da tarde, um som que se destaca no meio da barulheira indiscriminada, um som diferente de todos os outros. São duas da tarde, Joel emudece e escuta. Um apito curto e ritmado vem vindo, de longe, como alguém que se aproxima devagar. Cada silvo é mais forte que o anterior. É a Doida do Apito. No meio do caos, seu apito chama a atenção por sinalizar uma estranha ordem. Isso porque o intervalo de tempo entre um apito e o seguinte é, invariavelmente, rigorosamente, o mesmo. A Doida passa. Joel observa, quieto, como um devoto que cumprisse parte num ritual. Cada silvo agora é mais fraco, mais distante. Em um minuto ela se foi e Joel volta a anunciar suas ervas – ervas pra tempero, pra banho e chá.


***


Seu nome é Ivone ou Dulcelina ou Cleide. Desce a Avenida Brasil todos os dias, sem falta, soprando um apito. Deve ter trinta anos ou mais, talvez quarenta anos ou quase. Veste calça jeans e um blusão grande demais pro seu corpo mirrado, mesmo quando o dia é quente; também não deixa de vestir o capuz do blusão, que lhe cobre os ralos cabelos cor de palha e lhe esconde a maior parte do rosto. Sempre carrega uma sacola ou um saco ou uma bolsa. Vem lá do Jardim Aeroporto em direção ao Maringá Velho, mas ninguém sabe muito bem de onde nem pra onde nem pra quê. Dizem que ela usa o apito pra se proteger dos carros, pra chamar a atenção dos motoristas, a fim de que não a atropelem. Talvez se Ivone ou Idalina ou Cleide não descesse a Avenida Brasil pelo meio do asfalto, exatamente pelo meio, onde deveria haver uma faixa amarela, uma faixa que o tempo apagou, onde a pista que vai e a pista que vem se encontram, se ela em vez disso usasse a calçada, como fazem todas as outras pessoas que descem a Avenida Brasil todos os dias, talvez então ela não precisasse do apito pra se proteger dos carros, pra chamar a atenção dos motoristas. Mas aí ela seria apenas Ivone ou Dulcelina ou Cleide, não seria a Doida do Apito.


***


Seo Mário sabe que Ivone está prestes a aparecer no umbral da loja, porque ouve o barulho de seu apito, que se aproxima. Ele também sabe que Ivone vai parar na Fantasy Videolocadora pra tomar um café, um café da garrafa que Seo Mário deixa pros clientes. Mas clientes já não há. Não faz mal que Ivone resolva tomar a garrafa toda, caso queira. Seo Mário não se levanta nem sai de trás do balcão antes que ela apareça e aponte pra garrafa, com um discreto sorriso.

– Oi, Ivone. Cê tá bem?

– Tô.

O silêncio substitui o barulho do apito depois que Ivone entra na locadora, e Seo Mário sente uma espécie de alívio. Serve um café pra moça, num copo minúsculo. Como será que ela aguenta esse escarcéu nos ouvidos o dia inteirinho? Deve ser isso que bagunça a cabeça da pobre, só pode.

– Você gosta de tomar café, né, Ivone?

– Eu gosto, gosto de café.

Ou então, Seo Mário pensa, vai ver que na cabeça da Ivone acontece justamente o contrário, que o alívio vem de ouvir aquele apito constante. Por isso ela nunca se demora onde para e volta logo pro caminho e pro apito.

– Você sabia que você é famosa, Ivone?

– Famosa?

– Famosa, sim. Na internet. No Orkut. Tem foto sua, tem vídeo. Tem gente do Brasil todo lá, até do Mundo.

– Você me mostra?

Seo Mário sorri, enternecido. Ivone termina o café, vira com gosto o copinho. Ignora completamente todas as caixas que abarrotam os corredores da videolocadora, todas as prateleiras vazias.

– Mostro. Outro dia eu mostro.

– Tá.

Ivone sai. Seo Mário volta a ouvir o apito. Amanhã não vai ter café, nem pra Ivone nem pra mais ninguém.


***


– Alá a Doida do Apito!

O Gaiato deixa o taco sobre o pano da mesa de sinuca do Bar Copa 98 e sai pra rua, segurando um copo de cerveja. Seu adversário olha feio, se incomoda com a partida interrompida.

– Fala, Ivone! Vem cá!

– Sai, vagabundo! Vai trabaiá, vagabundo!

– Vem cá! Te mostrá uma coisa.

A Doida do Apito sai correndo e o bar explode em risadas. Gaiato aproveita pra dispensar a cerveja quente no meio-fio; depois volta e deposita o copo vazio na beirada da mesa de jogo. Seu adversário não ri. O velho de boné e óculos fundo de garrafa conhecido como Professor também não.

Um outro dispara:

– Sabia que se bater palma pra ela ela mostra os peito?

– Ué, como assim?

– Mostra. É sério. Ela é doida, ué. Te juro. Amanhã, quando ela passar de novo você tenta.

O Professor pede a palavra. Diz em voz baixa, quase pra si mesmo:

– Sabe, uma vez eu ouvi uma história… mas acho que isso não foi aqui, foi em outra cidade.

Alguém manda ele continuar:

– Dá logo a história, Professor.

Ele segue:

– Uma vez um Burro encontrou um Apito jogado no mato. O Burro resolveu soprar o Apito, e o que se ouviu foi o som mais doce do mundo, quer dizer, daquele mundo do Burro e do Apito.

– E daí?

– Daí que eles não conseguiram entender muito bem o que tinha acontecido. Inteligência ali não era bem o forte. Então eles deixaram um ao outro, envergonhados do que tinham feito, daquilo que melhor tinham feito naquela existência desgraçada.

Todos no bar gostavam muito do Professor e estavam acostumados com suas esquisitices. Mesmo assim, após o fim da história, deu-se ali dentro um silêncio, que só foi quebrado pelo som das bolas de sinuca batendo umas nas outras quando o Gaiato retomou o jogo.

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