Beirute, 1957, agora

Por Susy Freitas

Meu avô não tem pernas e possui apenas duas expressões no rosto. Explico: quase tudo que sei sobre ele vem de um par de fotografias antigas num álbum amarelado que fica na casa da minha avó. Quando eu era criança, gostava muito de folhear aquele álbum. Reconhecia nas meninas em preto e branco as tias, admirava a elegância simples de mamãe e seu ex de cachos rebeldes, vestido com nada além de um macacão jeans – motivo pelo qual até hoje meu pai abomina essa peça de vestuário. Eu também brincava de completar a arquitetura da casa nas fotos de bebê. Se tudo que a imagem revelava era um berço comigo dentro, babujando uma pelúcia, eu fechava os olhos e construía o resto do quarto. Às vezes, lembrava de detalhes que não sabia se vinham de um canto empoeirado da mente ou das próprias imagens.

Mas sempre quando a sequência chegava naquelas duas fotos do meu avô, elas suscitavam nada além de dúvidas: que fim ele levou? Por que não temos o sobrenome dele? Por que ninguém fala sobre ele? O que afinal completa esse quadro? Na primeira fotografia, meu avô soa sereno, como que morto. Seus olhos são estáticos, frios, a pele muito branca sobre a mandíbula moldada por uma tensão que já não se expressa. A imagem talvez adquira seu ar mórbido por um detalhe: o fato de uma mulher de feições exóticas segurar o retrato, gerando um mise en abyme acidental.

A mulher de cabelos cacheados olha para mim quando encaro a foto. Eu sei o que você quer saber, ela me diz com o retrato no colo, os dedos roliços como velas cheios de familiaridade sobre a moldura. O rosto dela de certa forma emula o dele, pois ela também parece morta e dura como mármore. É como se o tivesse aprisionado dentro do retrato sob efeito de potente magia, castrando-lhe o sorriso e tudo abaixo do busto no espaço de uma A3. No canto da fotografia, não a dele no colo dela, mas a dela segurando a dele, uma pista: Raiff Chamy. Beirute, 1957.

Na outra fotografia, ele está em um palanque. É uma imagem em primeiro plano, com ele na frente de um microfone, um braço erguido, o indicador interminável apontando para o alto, para a total escuridão. Seu rosto raivoso é um tanto disforme, como que capturado numa tela de Goya.

Há anos tento completar essa foto. Imagino um grupo de trabalhadores gritando palavras indecifráveis logo abaixo do palanque, um comício talvez. Há um sentimento de concordância e comunhão. Quase posso sentir o calor de luzes amarelas sobre suas camisas de botão brancas, a revolta condensando naquela mistura de corpos caboclos e estrangeiros num ódio em comum, compactado no rosto de profundas covas sob as maçãs do rosto. Muito antes de entender a dimensão desse quadro, ele me vinha à mente, como que cifrado das bordas do papel fotográfico ou psicografado de cenas de cinema embotadas na lembrança de uma Sessão da Tarde.

A outra versão da foto no palanque é mais festiva. É meu avô num festival de música. A imagem teria sido captada no momento mais apoteótico da canção. Que canção? Algo romântico e intenso, uma versão peculiar de um hit de sua terra, a alma enfeitada pelos olhos doces da amada, flor aberta entre os pomares. A transfiguração de sua face se dá por emoções que ele há muito ocultara, a nostalgia sem nome por uma Beirute que já não existia mais. Imagine Hitler em Manara. A independência que ele apenas leu nas cartas, seu Líbano imaginário que ele, quando muito, montava a partir de recortes de jornal nas noites tropicais de Manaus, fumando na escada de uma pensão no Centro. O rosto dele entre as rodelas de fumaça do cigarro e a melancolia modificando a química de seu cérebro, desenhando maus genes.

Vovó seria uma peça chave para desvendar o mistério, mas nunca falou sobre o passado. Para ela, a vida foi uma linha contínua coberta de agoras, em que o segundo atual encobria por completo o anterior. O único espaço permitido ao meu avô estava naquelas duas fotos e comentários raros, feitos quase sempre por outras pessoas, à boca pequena, como quem goteja um ingrediente secreto. Foi assim que descobri que o homem das fotos era,de fato, meu avô. Que veio do Líbano para o Amazonas em algum momento da primeira metade do século XX. Que trabalhou em telecomunicações. Que papai tentou incentivar minha mãe a manter contato com ele, mas ela nunca se animou muito.

Dessa forma, certos comentários se tornaram para mim como que peças brilhosas de um quebra-cabeça escasso, e por isso é fácil lembrar suas formas e conteúdo. Por exemplo, mamãe uma vez disse que as mãos do meu avô eram idênticas as do meu irmão. Já vovó deixou escapar que avô e neto de fato se pareciam não só no quesito mãos, mas por inteiro, o que talvez explique sua altura atípica e dedos alienígenas que nada tem a ver com o 1,68m de papai.

É graças ao meu irmão que posso brincar de fechar os olhos e tentar completar seu corpo nas fotografias. Assim, meu avô tem pernas frágeis e extensas, o peito fundo e estreito sob uma penugem rala e um certo jeito de levantar as sobrancelhas traçadas como o voo de uma águia. Beirute, 1957, agora. Nossa identidade secreta.

B. se assustou quando lhe mostrei as fotos do meu avô: “Mas você é igual a ele!”. Eu? Sim, você. E eu, que desenhava imagens completas sobre planos incompletos por anos, de repente me vi como parte dele. Astigmatismo? O problema no nervo ciático? Vitiligo? Das coisas que ninguém tem, o que mais será que aquele homem das fotografias pode ter me deixado? Como se diz Líbano no Líbano?  De repente, essa pergunta pareceu relevante.

Às vezes me pergunto o que telecomunicações tem a ver com um homem num palanque, a morte e um segredo. Penso em fios, nós, a floresta cobrindo tudo que não é revirado pelo homem. Que talvez ele fosse inteligente, ou talvez não, talvez fosse mais um migrante fugido de seu local de origem em busca da chance de enriquecer no Inferno Verde com um folheto na mão, a fartura hipotética de uma Amazônia sem lacunas nos seus sonhos.

Mas não era assim que funcionava para os libaneses: os primeiros a chegarem no Brasil, séculos atrás, criaram redes estruturadas para o suporte dos que viriam depois. Já no pós-guerra, muitos tinham definido para que região iriam e com o que trabalhariam antes mesmo de pisar no país, graças a essa integração. Exploraram os seus? Sim, mas tudo organizado. Em algum lugar do passado, um grupo de homens decidiram como seria a minha cara e os dedos do meu irmão num salão têxtil no Brás. O sangue pelo sangue, silencioso como um álbum de fotografias.

Deixe um comentário