
Wislawa Szymborska disse, em seu discurso ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1996:
“Ao que parece, a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Pois bem, essa já ficou para trás… Por isso valorizo tanto estas duas pequenas palavras: NÃO SEI. São pequenas, mas têm asas poderosas que expandem nossa vida até os espaços no interior de nós mesmos e os espaços nos quais está suspensa nossa minúscula Terra. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo ‘NÃO SEI’, as maçãs do pomar poderiam ter caído como granizo diante dos seus olhos e ele, na melhor das hipóteses, teria se abaixado para pegar uma e comer com apetite. Se minha conterrânea Marie Skłodowska Curie não tivesse dito a si mesma ‘NÃO SEI’, provavelmente teria se tornado professora de química em alguma escola para moças de boa família e, nesse emprego – aliás, perfeitamente respeitável –, teria passado sua vida […]
“Imagino, por exemplo, em minha audácia, que posso ter uma conversa com Eclesiastes, o autor daquele lamento tão comovente sobre a vaidade de todas as ações humanas. Eu lhe faria uma profunda reverência, pois se trata de um dos poetas mais importantes – pelo menos para mim. Mas, depois, tomaria sua mão e diria: ‘Nada de novo sob o sol’, escreveste, Eclesiastes. No entanto tu mesmo nasceste novo sob o sol. E o poema que criaste também é novo sob o sol, já que ninguém o escreveu antes de ti. E novos sob o sol também são todos os teus leitores […] E, além disso, Eclesiastes, queria te perguntar o que pretendes escrever agora que seja novo sob o sol […] Não dirás decerto: ‘Escrevi tudo que tinha para escrever, nada tenho a acrescentar.’ Nenhum poeta no mundo pode dizer tal coisa […] O que quer que pensemos sobre este mundo – ele é espantoso. Porém, no termo ‘espantoso’ se esconde uma armadilha lógica. Espantamo-nos, afinal, com o que diverge de alguma norma conhecida e comumente aceita, de alguma obviedade à qual nos acostumamos. Mas a questão é que não existe esse mundo óbvio. Nosso espanto existe por si só e não resulta de comparação com coisa nenhuma.”
O resto da sua deliciosa aventura com o Nobel segue aqui, na piauí, e na biografia lançada pela Ayiné.
Acaba de sair no Brasil sua nova antologia de poemas, Para o Meu Coração Num Domingo (Cia das Letras). Não estão aí seus poemas mais famosos, presentes nas duas antologias anteriores (Poemas e Um Amor Feliz) e que fizeram da polaca querida a poeta gringa mais vendida no país. Mas comparecem aqui suas marcas desde sempre: a ironia corrosiva, a melancolia existencial, o tom contemplativo sobre as infinitas possibilidades da vida. A maior parte de sua poesia não é melopeica, ou seja, não se funda em rimas, aliterações ou metrificação exímia (a não ser seus limeriques, que aparecem numa bela edição da Ayiné chamada Riminhas Para Crianças Grandes). Ela também não escreveu muitos livros – quando perguntada sobre sua parca produção, dizia “tenho uma cesta lixo em casa”. Menos é mais.
Szymborska é a grande poeta da dúvida – e por isso tem sido tão comparada a Drummond, por aqui, em especial àquele Drummond de Claro Enigma. Por exemplo, ela não parece acreditar no destino, mas, por outro lado, não deixa claro que não acredita. Seus poemas são discursivos, investigativos, ensaísticos: ela costuma chegar a uma ideia, ao fim do poema, depois de um passeio por várias hipóteses – é quase matemática, neste sentido. Porém, seu discurso não se pauta, quase nunca, em abstrações. Seu léxico acessível embute ideias complexas. Sua poesia é substantiva, procura buscar na vida e em objetos animados ou inanimados, ou mesmo em personagens, parábolas, alegorias ou metáforas de estados mentais. Sua filosofia parte do concreto para chegar ao abstrato. É uma poesia que também flerta com a narrativa: muitos poemas seus são cenas (como o célebre “O terrorista, ele observa”, uma lição de suspense) ou perfis históricos (como o retrato de Hitler quando criança). E é por isso que estamos falando de uma poeta para escrever prosa.
PROPOSTA
Bem, isto é o que você não vai fazer: um poema. É pra escrever um conto, ok?
Comecemos por um encontro aleatório, inusual, surpreendente, casual, extraordinário, entre duas pessoas que não se conheciam antes.
Um conto brincando com possibilidades e probabilidades.
Pegue um elemento qualquer dos poemas da Szymborska e agregue a dois personagens.
Que pessoas são essas?
- pessoas que terão um romance
- que terão uma rivalidade
- que terão uma amizade
- que terão um problema
- que terão um filho
- que terão um negócio
- que terão um treco
Sim, mas como chegaram a este encontro?
Digamos que outros acasos também se sucederam para que o encontro tenha se sucedido. Mas como foram estes acasos? O que aconteceu antes do encontro? Houve alguma conjunção entre desejos, ou puramente equívocos? Os personagens acreditam em destino, na astrologia, em vidas passadas, em Deus? Ou não acreditam em nada? Ou um acredita e outro desacredita? Ou isso não é necessário para a sua história?
E o que significa este encontro?
- um sentido profundo
- uma coincidência bizarra
- um desastre triste
- uma felicidade peculiar
- não significa nada
E como você vai contar isso?
PROIBIDO CONTAR.
Você vai descrever este encontro.
Em uma cena, vai descrever as ações anteriores de cada personagem em cenas (não precisa mostrar todas);
Em uma outra cena, vai descrever um segundo encontro entre os personagens (um dia, uma semana, um ano, dez anos depois).
Narre usando o indireto livre.
Em até 8 mil toques.




