Seu Lagosta

Seu Lagosta

por Américo Paim

Hoje é só uma memória. Faz tanto tempo. Se foi há alguns anos, mas sempre imagino que vou me bater com ele pelas ruas de Castro Alves. É como a estátua do poeta, na Praça da Liberdade. Sei que está lá. O negro Terêncio, assim o chamavam. Engraçado que nunca soube seu sobrenome. Para mim, Seu Terêncio. Na intimidade, que nunca tivemos, Seu Lagosta, uma brincadeira só minha. Nunca contei do apelido. Para ninguém.

Lembro a primeira vez que o vi, eu ainda menino. Alto, de pele negra em um tom não tão escuro, esguio, camisa branca de botões, mangas longas dobradas com cuidado na metade do antebraço, com um botão livre perto do pescoço, cinto preto e gasto de fivela pequena, a calça em marrom claro, sapato velho e meia escura. Sentado em um banco baixo, que ele mesmo deve ter feito, perna direita cruzada sobre a esquerda, as costas na parede branca da sua marcenaria, que ficava defronte à praça, quase no meio dela. Do outro lado a prefeitura e à esquerda, bem no começo da rua, o monumento a Castro Alves. Ele gostava de ficar ali, vendo o movimento, a contemplar coreto, árvores, bancos e jardins. Creio que tinha entre 65 e 70 anos. Imagino porque me olho no espelho, ainda a caminho de chegar lá, e ele aparentava bem mais velho do que estou hoje.

Sempre o via acenar com prazer genuíno para as pessoas. Se fossem moleques, corriam até ele para ganhar uns queimados. Sua figura me impressionou. Ele me passava sabedoria, serenidade, aquilo que criança percebe em avô, mas não precisa traduzir em palavras. Foi assim quando estivemos frente a frente. O cabelo tipo carapinha, tão curto que era como uma tatuagem com pelos, emoldurando a cabeça simétrica, de rosto fino, um retângulo invertido. Os olhos eram grandes e muito negros, um pouco rasgados, como os orientais, e demonstravam vivo interesse. Sua fala era lenta e em baixo tom de voz, com economia de gestos e trejeitos ao conversar. Havia nele uma melancolia, que escondia no sorriso generoso de dentes alvos que me fazia sentir bem. O nariz era largo, de narinas enormes, como um Nat King Cole, com orelhas grandes sem abano. Quando de pé, costumava colocar as mãos na cintura, como asas de xícara. Tinha um encurvamento na coluna. Visto de longe, caminhando com leveza, mas firme, parecia ter uma carapaça e ser feito de algo macio, tenro, por dentro. Seus longos braços e pernas em movimento lhe aumentavam o corpo, davam uma certa imponência aos meus olhos, como se tivesse vários membros. Então o chamei de Seu Lagosta. Coisa de criança.

Nunca entrei na oficina, lugar perigoso para criança, então não tinha ideia do que era feito lá dentro, assim como ele me era mistério. Onde morava, com quem vivia, de onde vinha. Apenas o via diante do prédio ou pelas ruas. Anos depois eu conheci um pouco de sua história, contada pelo povo. Eu não seria aquela permanente gentileza se tivesse passado por aquilo tudo. Nasceu muito pobre em outra cidade, que nunca revelou e chegou a Castro Alves em boleia de caminhão, com 18 anos. Não tinha nada. Já vinha pingando aqui e ali pelo interior da Bahia. De pouca instrução, aprendeu logo o ofício na marcenaria de mestre Cirino, que o acolheu. Não demorou e mostrou habilidade de artesão. Seus serviços eram requisitados até fora da cidade. Nunca se casou. Diziam que perdera seu amor de juventude para uma rara doença fatal. Muitos anos depois, com a morte de seu protetor, assumiu a oficina, que manteve até seus últimos dias.

Acontece que Cirino era nativo da cidade e muito querido. E era um homem branco. Não tinha herdeiros, apenas um primo que vivia em Barreiras, muito longe portanto, e que abriu mão de qualquer herança. Muitos se incomodaram com o mestre deixar o trabalho de uma vida para aquele negrinho forasteiro. Quando Seu Lagosta virou dono, passou a ser pressionado pela parte rica da sociedade local, interessada em comprar o prédio, de localização perfeita. Essa era a desculpa oficial para o ranço racista. Ser empregado podia, ser dono não. Foram anos difíceis, até que os líderes daquela podridão foram morrendo e ele ficou. Nunca cedeu às ofertas e assédios. Resistiu firme, mesmo quando as coisas passaram dos limites – boicotes e campanhas maldosas, vidros de janela quebrados, pichações que o obrigavam a limpar e pintar a fachada, boatos e mentiras sobre ele, Feijão Branco e Tonho Leso, seus dois aprendizes, então na casa dos vinte e poucos anos. Mesmo ignorante quanto a essas histórias à época, eu o idealizava forte como uma rocha, dentro daquele corpo esquálido enquanto eu mal conseguia lidar com minha cara cheia de espinhas ou me equilibrar nos meus precoces e bem desajeitados quase 1,80m de altura. Ele parecia ter respostas. Tinha vontade de me aproximar, mas nunca veio coragem.

Antes de conhecer essas histórias eu já o admirava por algo de outra natureza, que descobri ainda adolescente e me intrigou desde o começo, nas minhas cada vez mais raras visitas à cidade. Quase todo fim de tarde, após encerrar o expediente na marcenaria, ele tinha um hábito. Saía a caminhar pelas ruas próximas e acabava seu passeio na praça, em um banco mais afastado, na direção da linha do trem. Sempre tinha consigo um livro. Ele ficava lendo e logo chegavam ali algumas crianças, todas mais novas que eu, que sentavam no chão e ficavam a conversar com o velho. De longe podia vê-las sorrindo, com gestos animados. Ele sempre a falar e por muitas vezes eles em silêncio, atentos. Eu nunca me aproximava, mas a cena era certa: ele, o livro e os meninos a seus pés.

Quando acabava aquelas curiosas reuniões, se levantava, mas eles o seguiam em algazarra de gritos e pulos, só contida quando ele metia as mãos nos bolsos e liberava quantidade de queimados, dispensando a garotada, que corria descalça em direção às ruas dos bairros mais pobres, não tão longe dali. Um dia fui a ele, pedi licença e sentei no mesmo banco. Ele tinha o livro nas mãos, mas não havia nada escrito na capa que dura, apenas um forro escuro de cor cinza. Tentei pescar a lombada, sem sucesso. Ia perguntar sobre o conteúdo quando chegaram os meninos, com suas roupas meio rasgadas, os rostos melados e até sujos, sem sapatos, mas com expressões de grande interesse. Seu Lagosta os olhou com carinho, falou com cada um. Sabia-lhes todos os nomes. Perguntou o que andavam fazendo, como estavam seus pais. Depois dessas preliminares, esclareceu-se o que eu só via de longe. Ele começou a contar-lhes histórias. Todo o seu corpo atuava, olhares, caretas, gargalhadas, suas mãos de artista pareciam desenhar no ar, magnetizando aquelas almas infantis, hipnotizando-as com as mais diversas contações. Eram narrativas curtas, sempre aventuras divertidas, com crianças envolvidas. Eu não as reconhecia. Não fazia ideia de onde as tirava. Ele passava as páginas, mas não parecia lê-las.

Findo o ritual, lhe perguntei que livro era aquele, de onde vinham tais histórias. Ele apenas sorriu e se despediu. Voltei outras poucas vezes e tudo se repetiu. Um dia, perto do Natal, meu pai precisou ir à cidade e eu o acompanhei. Fui atrás de Seu Lagosta e o achei no mesmo banco da praça, dessa vez acompanhado de seu aprendiz, Feijão Branco. O cenário estava um pouco diferente. Havia um grande saco entre eles. Ao final das histórias, Seu Lagosta presenteou as crianças, brinquedos simples feitos de madeira, criados por eles na oficina – carrinhos, casinhas, bichos, barcos entre outros. Ganharam também saquinhos com guloseimas. Saíram felizes. Nos despedimos e voltei andando com Feijão, que enfim satisfez minha curiosidade sobre todo o ritual.

Seu Lagosta levava sempre o mesmo livro velho, com histórias para crianças, uma coletânea que ele sempre tivera. Contou a Feijão que foi presente da moça que ele amou e perdeu. Nos seus planos, eles queriam ter muitos filhos. Não foi possível, então ele passou a se dedicar a contar histórias aos filhos que nunca teve. Acontece que era um livro pequeno e logo as histórias acabaram. Ele passou a inventar, se baseando nas coisas que viveu ou que escutou de outras pessoas. As crianças iam crescendo, se desinteressando daquilo, mas chegavam outras e outras. Anos depois soube que perto do fim da vida ele seguiu com seus causos, mesmo depois que perdeu a visão com a idade avançada. Contava as histórias de memória. E na minha ele vive.

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