Silvia Argenta
Em condições extremas, qualquer movimento exige muito mais empenho do que o habitual. Dona Maria sabe disso. Deitada na cama com lençóis rosas estampados com pequenas flores vermelhas, sente a letargia do próprio corpo, enquanto escuta as folhas das árvores do quintal se batendo, quase como um sussurro de aviso: “estamos aqui”. No entanto, ela se concentra apenas nas veias áridas, no cérebro sedento e no coração seco. O corpo já esgotado por ter parido e criado três crianças age apenas para se preservar. Respira e pisca os olhos. Bem lentamente. Tenta se concentrar para reagir e fazer brotar algo da semente dura, a única que consegue sobreviver em terreno tão hostil. Tenta, mas não consegue.
Quando seu corpo era mais permeável, deu frutos que não demoraram a crescer. Agora, a angústia da lentidão dos dias piora ainda mais a tarefa de busca pela água porque não sabe onde está armazenada. Pode ser na copa, na casca, nas raízes. Na cabeça, no estômago, nas panturrilhas. Enquanto não encontra a fonte, dona Maria fica estática ou calcula seus movimentos para que depreendam a menor quantidade de energia possível. Não que ela goste de ser assim. É questão de sobrevivência mesmo.
Ouve o marido a chamando. É o sinal de que não dá mais para ficar assim. Dona Maria se levanta, coloca um vestido, passa o batom vermelho e se vê no espelho. Roça o indicador nos cantos da boca para tirar o borrado. Se olha com mais atenção e não se reconhece. A luz fria e branca do teto ilumina bem o banheiro e realça as sombras. Os lábios vistosos não refletem o semblante sisudo nem combinam com a falta de sorriso. Ela então puxa um pedaço de papel higiênico, amassa e esfrega várias vezes até a boca ficar pálida de novo. Agora sim está pronta para a festa.
O convite para almoçar na fazenda dos novos vizinhos veio em boa hora. Dona Maria tem uma curiosidade bastante peculiar. Gosta de especular como os outros fazendeiros da região lidam com as crias de seus animais. Faz de tudo pelos seus, mas sempre acha que pode melhorar. Na verdade, usa de subterfúgios e de comparações um tanto inusitadas. Espera poder entrar no curral para observar animais que não os seus e tentar entender o que deveria ter feito para que seus filhos ainda estivessem com ela. Os três foram embora morar na cidade já faz mais de dez anos. Se sente sozinha dividindo a casa de quatro quartos apenas com João, seu marido há quarenta e cinco anos.
Apesar do corpo perfeito, os passos são lentos. Parece pensar em cada movimento e demora para descer os degraus de madeira da escada de casa. O marido já está dentro do carro, esperando por ela e gritando seu nome. O seu mundo vagaroso não conflita com a pressa dele. Depois de se sentar no banco do passageiro, os dois se olham e se entendem. Nenhuma palavra. Nenhuma cobrança. Ele dá a partida e ela gira a manivela para abrir a janela, bagunçando o cabelo curto e encaracolado na viagem de cinco minutos.
O casal de vizinhos fazendeiros, de meia idade, os recebe na porta da casa com teto enxaimel e de pintura nova, que dona Maria nem repara, mesmo com o cheiro forte da tinta. Após os cumprimentos, ela logo sugere uma caminhada pela propriedade. Primeiro quer saciar a vontade de ver os animais. Depois gasta o resto da energia para se socializar com os humanos. Avista o curral e faz seu caminho, enquanto o marido e os anfitriões a seguem, falando dos motivos por terem escolhido a cor azul para pintar a casa. Ela nem toma conhecimento.
Ao entrar no curral de madeira, dona Maria caminha pelo corredor central e observa as vacas e os cavalos nas baias até se deparar com o menor bezerro da fazenda. Mirradinho, o bicho branco com manchas pretas está deitado no canto. Apesar de ser meio-dia, o ambiente é escuro e ela se aproxima do animal. As patas traseiras estão ensanguentadas, pintando de vermelho o capim seco espalhado pelo chão de terra batida. O sangue dele não encontra outro caminho senão sair pelas feridas causadas por arranhões e mordidas de Átila, o fila da propriedade. O corpo exausto do bezerro tenta reagir ao ferimento, mas a pouca energia não o permite nem abrir os olhos. Até mesmo o rabo está parado, sem movimento, mesmo com a grande quantidade de moscas pousadas em suas ancas.
Pergunta onde está a mãe do pequeno bezerro. A anfitriã responde que está solta no pasto. Sem entender o motivo da distância, dona Maria vê o pobre animal sucumbir, enquanto os três discutem sobre eutanásia. Depois de agonizar a manhã toda, o bezerro morre ouvindo que não teve a proteção materna adequada, que a vaca não defendeu a própria cria, que a lei da natureza é assim mesmo. Para Dona Maria, não há ofensa maior do que culpar uma mãe seja por qual motivo for.
Ela tenta comentar alguma coisa, mas logo é interrompida pelo anfitrião, que pouco se importa com o bezerro e acha o cachorro um caçador implacável e muito útil para os serviços da fazenda. Ninguém fala em educar o Átila. Nenhum pio sobre separar os animais. Dona Maria entende que eles querem a selvageria mesmo que às custas de uma vida tão inocente. Para ela, isso não foi uma fatalidade. Sacode as mãos para espantar as moscas que voam perto do seu rosto, se vira para a porta do curral e enxerga um machado pendurado na parede.
O coração de dona Maria dispara sangue para todo o corpo e as veias latejam. Percebe todos os seus órgãos vivos, mesmo que fora do ritmo habitual. O corpo trabalha mais rápido sentindo a seiva nos pés. Está na hora de a semente brotar. Sem dizer nada, pega o machado, vai até o canil e o crava na cabeça de Átila. A cadência peculiar do seu organismo não lhe causa constrangimento nem intimidação. Não quer entender o que aconteceu. Não se importa se matou o cachorro com tanta violência. Se seus filhos estivessem por perto, os defenderia assim. Com as mãos pintadas de vermelho, dona Maria se sente mais forte do que nunca.
