Às vezes, um mísero detalhe que você precisa para desvendar uma história ou uma fofoca sobre pessoas públicas é a única coisa que o Google não te dá. Quando o verdadeiro e velho Lutz Chafrin faleceu foi que se fez necessário qualquer notícia, uma notazinha que fosse na coluna social, que mostrasse a família: a esposa, dois filhos, quatro netos e seis bisnetos. Mas já tinha se passando muito tempo para você voltar ao velho bairro do Catete e ver se o outro velho doidinho ainda andava por lá e conferir: ele era da família?
Isso porque você resolveu jantar no Big Bro um dia depois do expediente, arrasada com o cansaço, a poluição da cidade e o seu apartamento infernal, em que todos os vizinhos gritavam ou brigavam a qualquer hora do dia. Para o lixo de comida que o Big Bro servia, não era barato, apenas vinha em grande quantidade. Das opções no quarteirão de casa, era a menos pior. E você só queria comer até a fome se tornar prazer, o prazer se tornar excesso e o excesso ser o peso que te afunda no sofá cheio de pelo de gato e mesmo assim te faz dormir. Naquele dia você teve a brilhante ideia de pedir uma lasanha numa casa de suco & lanches. Estava na sua cara que era uma derrotada, até que um senhor, provavelmente aposentado, daqueles que vão todo dia ali fazer as refeições mais elementares porque nunca deve ir ao mercado, muito menos cozinhar, parou na sua frente e desatou a falar. Você sempre tentou desviar desses tipos, inclusive evitando ouvir o que dizem, porque são daqueles que mesmo sabendo o nome de todos os atendentes os chamam de “psiu” e perguntam se o bauru é novo, de que horas é a coxinha e se a fritura do pastel já está velha. Como se o estabelecimento não seguisse nenhuma demanda por horário.
O velho, então, perguntou sobre o estado da lasanha. “Tá boa?”, “Veio quente?” e qualquer merda que não fazia a menor diferença saber, era apenas um amontoado de macarrão de lasanha com molho de tomate Elefante ou Olé, muito queijo muçarela e carne moída – que, se fosse de cachorro, já era lucro. Você deu uns grunhidos como resposta. Ele continuou: “como você chama?”, “você mora por aqui?”, “o que você faz?”. E continuou comendo pensando na hora em que abriria a porta de casa mandando a sapatilha apertada pelos ares para ver a novela das 19h e comer o resto do pacote de MMs de ontem. Mas o velho insistiu, te entregou um guardanapo com o nome dele escrito “Lutz Chafrin” e nada mais. “Eu sou músico”, ele completou.
Do mesmo jeito que ele começou a conversa, ele foi embora. Você até que ficou curiosa para saber se ele era músico mesmo. Esse nome, estranhão assim, é interessante. Mas não deu bola. Até ver ele de novo dali uns dias.
Seu humor e o clima tinham melhorado. Era um dia chuvoso, você estava de folga. A vizinha de cima brigava de novo com a mãe surda e com o filho adolescente cujo único traço de doçura no vocabulário cantar Los Hermanos no violão quando estava sozinho. A feira da Glória ainda seria só no dia seguinte e na geladeira restavam umas cenouras murchas. “Não quero comer mal hoje. Vou no Nova República e tento colocar só uns 300g no prato”. O Nova República era o restaurante da esquina oposta à do Big Bro. Você estava concentrada no buffet, escolhendo meticulosamente cada grama que colocaria de almoço, e de repente sente uma sombra se aproximando, ao seu lado. É o velho. Você dispara, vai para o balcão de churrasco e finge que não foi com você. O velho dá o bote em outro cliente, jorrando perguntas pastéis sobre o provolone ou o strogonoff.
Depois de muito tempo rodando os pratos, ele pesa e vai comer. Sozinho. Concentrado. Parece que conversa com a comida e recebe resposta. Ele trata o prato como se o brócolis, o arroz e o feijão formassem uma roda de amigos com a qual ele interage. De vez em quando, arruma os óculos de massa preta com a falange do dedo indicador. O velho está sempre igual, camiseta sobre a barriga de melancia, bermuda de brim e um chinelo de tiras grossas que não é de plástico, mas acho que também não é de couro. Parece ser o sapato oficial dele.
Você passou uns anos fugindo do velho no balcão do Big Bro ou nas esparsas vezes que ia ao Nova República. Toda vez a mesma coisa: “tem graviola hoje?”. O papel com o nome escrito foi parar dentro de um livro e você esqueceu o assunto. Às vezes o papel caía, se você voltava àquele exemplar, aí voce jogava dentro de outro livro para marcar a página, mas nunca jogou fora. É engraçado como, às vezes, a curiosidade existe, mas não precisa ser sanada. Vez ou outra passava um pensamento que não era levado para frente na sua cabeça: e se o velho tivesse, sei lá, um belo piano em casa, composições geniais, fosse um grande músico no ostracismo? Não valeria o risco. Além de chato e uma provável companhia irritante, poderia também ser um abusador. Você nunca teve isso claro na mente, eram quase ideias que flutuavam. Até o fatídico dia em que a capa do jornal anunciou a morte de Lutz Chafrin com a foto de um velhinho bem mais velho do que o desamparado do Catete. Aí é que você quis saber quem eles eram, de fato. O esquecido e o que foi para a eternidade.
O que foi para a eternidade nasceu no Rio de Janeiro em 1921, formou-se em música no conservatório nacional e em direito na universidade do Brasil. Virou diplomata. Tem livros sobre relações internacionais e sobre a história de nossos compositores modernos. Serviu na América do Sul, na União Soviética e na Berlim Oriental. Aqueles casos de pessoas que viram as grandes mudanças da humanidade e atravessou dois séculos distintos. E ainda fizeram fama. Tipos de respeito, que frequentaram como protagonistas os prédios históricos à sua volta e você, ignorante, nunca nem tinha ouvido falar.
Mas e o velho não tão velho Chafrin do Catete? Seria um senhor com distúrbio de personalidade? Se você tivesse falado com ele de novo, será que ele continuaria sendo Chafrin, ou seria algum dia Villa-Lobos, Vinícius de Moraes ou Manuel Bandeira? Mas e se ele de fato se chamasse Lutz Chafrin e fosse um homônimo, com semelhanças na carreira, no caso, da música? Que aflição que te dá digitar o nome no Google, ler todos os obituários e não achar sequer uma foto ou nota com o nome dos filhos do ilustre. Ele poderia ser um dos filhos. Será que vai, ainda, todo dia ao Big Bro da Silveira Martins? Quem sabe. Hoje a Tijuca está mais distante do Catete do que a Moldávia.
