por Américo Paim
Wilson não mudou o ritual da manhã naquela segunda-feira por ter perdido dois quilos em uma semana. A porra da dieta funciona, a barriga tá desinchando mermo, menino. Nem comeu os biscoitos de água. As frutas cortadas de véspera e o café amargo resolveram a fome. Chegaria leve à balança do consultório para os elogios.
Em Brotas, perto da Vasco da Gama, onde Wilson vivia, Otoniel perdeu a hora e decidiu por um lanche na rua. Esse despertador deve tá quebrado. Deixei o bicho pronto. A certeza que o médico atrasaria era a desculpa para a dificuldade de sempre de cumprir horários, fora não ter qualquer vontade de estar na consulta, onde ouviria sermões.
A sala era opressiva de tão pequena. Na entrada de porta de vidro, nomes pintados em preto. À direita a atendente, atrás do balcão de madeira em cor clara e bancada revestida, com dois bancos de concreto com almofadas finas e desconfortáveis à sua frente, tendo a própria parede como encosto. Formavam um “L”, de cabeceira minúscula, ornada por escultura de arte moderna feia e inadequada, ladra de espaço, e revistas médicas que ninguém queria ler. Ao lado do balcão, antes da porta do consultório, uma estante com livros, material administrativo e duas garrafas térmicas com água e café sobre uma bandeja metálica, onde se via o açucareiro com formigas, pequenos envelopes de adoçante, colheres e um saco com copos plásticos. A iluminação fria e a pintura branca davam ao recinto um aspecto geral de caixa de isopor de vacina. O único som ambiente era o de uma TV de 14” no suporte surrado acima da cabeça de Sueli, que mandou essa com firmeza e alguma impaciência.
– O atendimento tá atrasado, senhor. Tem previsão não. Pode aguardar.
– Vixe, é mermo?
A boca contraída e o muxoxo de Otoniel processaram a informação. Pensei que ia esperar um pouco, mas me lasquei. Ainda teria que sentar ao lado daquele homem meio gordo no único lugar livre dos quatro possíveis. Era isso ou ficar em pé. Porra, bem que podia ser uma gostosona, cheirosa. O peão aí é grande, viu. Que jeito…
A consulta era de rotina e Otoniel ruminava o que dizer ao Dr. Antenor, pois dos acordos da vez anterior, o único cumprido foi voltar em um ano. Vai me encher os colhões. Nem olhei os exames. Deve tá tudo uma bosta. Seu batucar com os dedos na calça jeans preta e o ajeitar constante da camiseta azul de gola careca revelavam a ansiedade, mas as duas mulheres mais velhas no outro banco o ignoravam, conversando desde que entrou. Que é que essas muié tanto falam? Preciso tirar água do joelho. Quando ia levantar para ir ao banheiro do corredor, Wilson falou baixo, como que para si mesmo.
– E o porreta ainda nem chegou.
– É o que, véi?
– Ela não lhe disse, mermão, mas o sujeito ainda nem tá aí dentro.
– O doutor?
– Tô lhe dizendo.
– Mas rapá, que porra é essa?
– Diz que tá aí cortando gente, na cirurgia.
– Que crocodilagem da disgraça.
– Peguei na manha, quando ela falou no telefone.
Otoniel bem queria uma desculpa para ir embora. Diria na empresa que o médico cancelou e que teria que marcar outro dia. Porra, se eu me picar e o sacana aparecer? Vou ficar mal na fita. Era melhor checar. E se esse gordo tá de migué comigo? A abordagem não foi jeitosa.
– Ô, minha preta, largue o doce aí. O médico num tá aqui ainda?
– Não, senhor. Dr. Antenor está em cirurgia.
– Minha filha, veja só. Eu vim lá da casa da porra pra chegar aqui. O home chega que hora?
– Já disse que não tem previsão.
– E eu fico aqui até o cu fazer bico?
– O senhor se acalme. Não posso fazer nada.
As mulheres olharam horrorizadas. Wilson estava resignado. Os vários picos de pressão alta no último ano atrapalharam sua vida. Fuga de médicos, comida e bebida demais, exercício de menos. A parcial da conta chegou. Com as visitas ao Dr. Antenor e sua disciplina, as coisas foram para os eixos, pelo menos até ali. Otoniel voltou ao lugar, ainda confuso sobre ir embora logo ou esperar.
– Cê viu, véi? Negó da porra. Se tu não fala, morria seco aqui.
– Num lhe disse, papá?
– Se esse doutor for igual ao Engenheiro lá da fábrica, tô lascado.
– Tu é peão?
– Caldeireiro.
– Também sou do trecho. Soldador. Wilson, mas pode chamar de Baleia.
– Óia. Como é que nunca lhe vi?
– Eu trabalho sempre na RLAM.
– Ah, eu fico mais no Polo.
– Tenho uns amigos por lá. Tudo paradeiro. Goto, Perdeganha, Cara de dado.
– Oxe, já trampei com Perdeganha. É um que gosta de jogo, né?
– Ele mermo. Vive apostando.
– E esses outros?
– Cara de dado é pinga-fogo igual a você. Tem umas queimaduras espalhadas na cara que parecem um número cinco do dado. Goto fala cuspindo e o cozinheiro, colega de ônibus, chamou de Perdigoto, mas ficou grande e virou Goto.
– E você é Baleia porque é gordo…
– Foda, né? Peão não perdoa. E tu tem apelido?
– É Tonel. Porque meu nome é Otoniel.
As risadas e as vozes altas chamaram a atenção das mulheres de novo. Elas os olhavam como em um zoológico de animais exóticos. Sueli mal controlava o riso ao atender à ligação do hospital enquanto arrumava os itens sobre a mesa. Agora o bicho vai pegar aqui, espia. Melhor falar logo.
– Gente, a cirurgia complicou e o médico não vem mais hoje.
– Poxa, que zebra. Sueli, nós ligamos depois para marcar outro dia. Até.
– Certo, Dona Marta, até logo. Bom dia, Dona Zilda.
– Oxe, qual é a de mermo, minha santa?
– Ligaram do hospital agora. Às vezes acontece.
– E aí? Como é que vou explicar no gato?
– É, fia, precisa de um papel aí. Porra, essa foi de lenhar.
– Sinto muito. Os senhores querem remarcar?
– Vou ter que falar com meu Supervisor. Pé de Pato vai ficar puto.
– Eita, seu chefe é ele? Conheço muito. Tá fodido, Tonel…
– Nem me fale. Vai beber meu sangue de canudinho, puta que pariu.
– Ali é bruto…
– Aham… Então, o que vai ser?
– Ah, véi, vou ter que ligar depois.
– Eu também.
– Então tá certo. Fico no aguardo.
Conversando até o elevador, os dois descobriram mais coincidências e pessoas conhecidas. Qualquer dia desses se bateriam aí pelo trecho, foi o fechamento. Tonel saiu pensando já ter visto aquela cara redonda, de barba falha e careca encaminhada. Baleia estava convencido que aquele magro de ruim, com cicatriz no queixo lhe era familiar, talvez de alguma festa ou da igreja.
Sujeito boa gente, foi como um avaliou o outro. Nunca mais se encontraram. Dois anos depois, em uma segunda-feira de setembro de 2019, se viram na mesma empresa em uma parada de manutenção na Reduc, no Rio de Janeiro, ambos solteiros, ainda jovens com quase trinta. Estarem juntos na sala de entrevistas para contratação foi outro acaso. Otoniel deu a ideia de dividirem o quarto do hotel, para gastarem menos. Wilson queria economizar e achou que dava para suportar a convivência por pouco mais de um mês.
Até o sábado seguinte, tudo normal. O pedido de Otoniel foi estranho, mas não havia porque negar ou achar que algo daria errado. Era a última noite livre antes de o trabalho apertar. Propôs que quem arrumasse mulher que tinha apartamento liberasse o quarto do hotel para o outro levar quem quisesse. Uma mensagem de Tonel pelo WhatsApp, perto das 22:00h, liberou o hotel para Baleia. Coisas concorreram para que se encontrassem no hotel, duas da madrugada do domingo. Wilson entrando no prédio com cara péssima e Baleia de pé no balcão do hall.
– Véi, que porra cê tá fazendo aqui embaixo?
– Rapaz, deu tudo errado. A criatura passou mal. Teve um chilique aí.
– Tu é fraco assim no babado, é?
– Aonde… Ele teve um negócio de ataque piléstico, o doutor da ambulância falou.
– Vixe, aí é barril. Então ficou no zero, papá?
– Que jeito? Oxe, e tu? Num ia dormir na casa da nêga? Qual foi?
– A mulé é casada!
– Que merda foi essa?
– Pegue a visão. Não me disse foi nada. Tava tudo no bem bom, já nos finalmente, quando ela deu uma travada que quase cortou lá ele. Olhou no olho e disse que o barulho de carro era do galhado. Foi um puta que pariu. Saí de lá corrido, dei uma paletada da zorra até achar um táxi e chegar aqui.
– Home, só você mermo. E que roupa curta é essa? Não me diga que…
– Tudo do corno. Foi o que rolou no sufoco de pular a janela e a cerca. É, pode rir…
– Tô aqui matutando que a noite ainda vai me render…
– Colé a de mermo? – A roupa do abençoado veio com carteira? Vai ter que pagar pra eu não contar no trampo amanhã…
