Falei não?

por Américo Paim

– Anões, você quer dizer…

– Véi, que merda é essa? Casinha de boneca?

– Mas o cara falou que já tinha acampado nela com quatro amigos.

– Na primeira infância, caralho, só pode.

Os cinco estavam perplexos diante da barraca – surrada, mas ainda em boas condições – que montaram no quintal da casa de Dona Eulália. Não havia dúvida que não caberiam ali. Todos estavam entre 17 e 18 anos. Agora precisavam de uma solução. Não havia dinheiro para pousada, aliás nem sabiam se existia alguma ali na modesta São Gonçalo, a uma hora e meia de carro de Salvador. Júnior, o mais alto, sempre organizador, foi conversar com a anfitriã para buscar alternativas. Saulo, tão alto quanto ele, porém bem mais magro, foi junto, até porque foi ele quem acabou convencendo a turma toda a viajar para lá naquele São João. Tinha vários amigos na pequena cidade.

Zezito, o mais baixo, Tonho, o tímido e Lino, o todo malhado, ficaram na expectativa, mas só pensavam na famosa festa da praça à noite. No caminho até o local do acampamento viram muitas meninas pelas ruas e havia planos em suas cabeças. Para quase todos era a primeira viagem sem os pais e pensavam que não seria essa história da barraca que iria estragar tudo. No máximo dormiriam na varanda ou em alguma rede. Quando os emissários voltaram, todos ficaram aliviados.

– Tudo certo, véi.

– Tem um quarto que dá pra dois. Vamos tirar no palitinho.

– Não! Vão logo vocês dois. São os maiores.

– Então fechou.

À noite foram todos juntos à festa, sabendo que a volta seria de acordo com o que acontecesse. Por coincidência, Saulo e Júnior voltaram juntos. Entraram direto pelos fundos da casa, evitando ruídos. O quarto, de pé direito bem alto, era pequeno, com duas camas em “L”, um armário bem antigo e móvel de apoio com duas gavetas. Não havia cortinas, estava meio entulhado, mas não dava para reclamar. Tudo pronto para dormir, Júnior descobriu que havia algum defeito no interruptor e a lâmpada, muito alta para alcançarem, não apagava. Pensaram em um subir nas costas do outro, porém um resto de lucidez os salvou do desastre. As condições físicas e etílicas não eram as ideais.

– Ah, lascou em banda. Foda-se. Tô morto. Pode acender um sol aqui dentro, tanto faz.

– Deixa quieto, então. Talvez tenha uma escada lá fora.

– Júnior, véi, por favor! Amanhã, amanhã…

– Beleza.

Cada um ficou de camiseta e cueca, foi para sua cama e se enfiou embaixo das colchas porque estava um pouco frio. Saulo virou-se para a parede e logo roncava. Júnior rolou para lá e para cá e o sono não chegou. Quando estava quase dormindo, o amigo se agitou e ficou de frente para ele, com os olhos abertos. No reflexo, o insone lhe disse que também não conseguia relaxar, muita adrenalina da festa, com certeza. Saulo não respondeu. Insistiu chamando seu nome em voz baixa. Silêncio. Reparou que não interagia e se assustou. Mesmo com a coberta, observou a barriga mexer e ficou aliviado.

– Tá de sacanagem, né? Susto da porra, filho da puta. Para com isso, já deu.

Nada. Júnior sentiu aquela gastura. Levantou e se aproximou devagar. Estava com dúvida se devia acordar o amigo. Não fazia ideia do que estava acontecendo. Chegou perto e passou a mão no ar, perto do rosto dele. Nenhuma alteração. Colocou um dedo sob as narinas e tirou de susto. Ele estava respirando mesmo! Voltou à cama num pulo. Se benzeu, como se aquilo fosse resolver algo. Passou a falar sozinho. O medo era grande. O sono foi embora de vez e até suava, mesmo com o frio.

– Que porra é essa, mermão? Eu, hein? Ele é sonâmbulo? O povo fala que não pode acordar quem tem isso. E agora, caralho?

Tentou ignorar e virou para a parede. Não adiantou. Fez como se pudesse ser um sonho e fechou os olhos, torcendo para abrir e encontrar tudo certo. Esperou um pouco e checou: lá estava ele, roncando e com os olhos abertos. Bateu desespero. Levantou e andou de um lado a outro. Às vezes parava e olhava o amigo, na esperança de uma solução. De repente, tudo ficou silencioso de novo. Saulo não mais roncava, mas só isso havia mudado no cenário. Júnior entendeu que não podia dormir, precisava acompanhar aquilo. Tinha medo de algo ruim acontecer. Então se consultou.

– E se ele levantar, véi? Sair andando por aí e tomar um quedeiro. E se ele me atacar? Vou é me picar. Durmo no chão da varanda, mas aqui eu não fico.

Chegou até a porta e parou. Se acontecesse algo com o amigo ele se sentiria responsável. Voltou à cama e ficou sentado e atento. Reparou uma diferença. Os olhos se moviam de forma discreta e logo veio uma expressão como um sorriso, sem abrir a boca. A respiração mudou um pouco, mas continuava ritmada. Não havia qualquer som e Saulo meteu a mão dentro do short.

– O sacana tá sonhando com putaria! Que onda da porra. Eu tenho que ver isso, véi?

Após alguns minutos, ele pareceu grunhir alguma coisa e o rosto mostrou algo de assustado. O canto dos olhos franziu, apertando a vista, mas eles não fechavam. Júnior, bem aflito, pensou que o amigo estivesse com alguma dor e Saulo virou de volta para a parede, com um movimento muito rápido. Curioso, se aproximou e vieram o estrondo e o cheiro insuportável.

– Filho da puta! Peidou! Que carniça!

Colocou a mão na boca e enfiou a cara no travesseiro para se salvar do ambiente insalubre. Quase acordou o amigo, mas se controlou. Voltou o ronco de Saulo. Júnior não conseguia relaxar. Pouco depois, como o roncador parecia tranquilo na posição contra a parede, ele tentou pegar no sono, esgotado. Dormiu por minutos, até que ouviu um ronco alto. Virou para conferir e lá estava o mesmo olharzão. Respirava normal e de novo aquele risinho sonso.

– Rapaz, se esse cara tiver me esculhambando, isso aqui vai inchar.

Cobriu o rosto para combater a claridade e tentou descansar olhando para a parede. Não conseguia pensar que decisão seria a melhor. Considerou que deveria acordar o amigo e pronto. Tinha que fazer alguma coisa. Foi quando ouviu, baixinho, quase um sussurro, o que lhe fez virar e sentar num pulo.

– Adelaide… Adelaide…

– Acordou, disgraça?

– Adelaide, eu te amo…

– Tá sonhando, mizera? Vá matar o diabo do coração! Que Adelaide?

– Eu te amo, Adelaide…

– Mas que negócio da porra é esse? Eu mereço…

Muito irritado, Júnior se levantou e fez um movimento como se fosse bater na cara do amigo, mas ele, que voltou a calar, nem se mexeu. Sem se conformar, sentou-se no chão e olhou fixo para Saulo, a centímetros de seu rosto. De nada adiantou. O ronco continuava e ele parecia dormir muito bem. Voltou à cama em petição de miséria e em algum momento adormeceu, sentado, todo torto.

Mais tarde, mas não muito depois, acordado pelo calor da manhã, Júnior se viu sozinho no quarto. Com dores pelo corpo pela péssima noite, saiu à procura do amigo. Encontrou a turma reunida em frente à barraca. Falavam sobre as aventuras da festa da noite anterior e riam alto. Quando se aproximou, com um visual de terra arrasada, virou assunto.

– Que cara é essa, véi. Já vi defunto mais animado.

– A festa não foi boa? Vi você se dando bem com Carlinha.

– Pelo visto a coisa pegou…

Ignorando a saraivada de perguntas, Júnior falou a Saulo com irritação:

– Cara, você tá bem, né?

– Ué, tô ótimo. Até falei pro pessoal que a história da lâmpada não atrapalhou. Dona Eulália me disse que tem uma escada. É só folgar a lâmpada na hora de dormir. Hoje a gente faz.

– Eu pensei que você tava tendo um treco, véi. Você ficou de olho aberto a noite toda!

– Ah, a exoftalmia? Já tô tratando isso. Durmo assim quase sempre. Falei não?

Zezito, Tonho e Lino não entenderam porque Júnior partiu para cima de Saulo e tiveram dificuldades para separar os dois, que se atracaram e caíram dentro da barraca. Zezito não compreendeu os gritos de “Adelaide é o caralho”, Lino perguntou três vezes o que era exoftalmia e Tonho falou que estava certo quando achou que os dois eram muito grandes. Não conseguiriam dormir bem naquela barraca.

Deixe um comentário