O cambaleante

Silvia Argenta

Nunca soube como ele carregava suas tralhas de casa para a rua e da rua para a casa. Era longe. Não devia ser uma missão fácil, ainda mais tendo de usá-las todos os dias. A última vez que o vi, ele contava sobre o sonho de construir um pequeno teatro dentro da própria casa. Assim, não precisaria mais ter tanto trabalho. Apesar de nunca termos conversado, quando ele estava no mesmo nível que o meu, vi um Sérgio com muitos planos aterrados para desistir. Definitivamente, ele não era nada do que eu imaginava.

De longe, os desenhos indefinidos na pele branca eram apenas rabiscos verdes. As tatuagens pintavam todo o corpo magro, das mãos até os pés. Elas me indicavam que era um homem seguro de si. Ao olhar mais atentamente, dava para identificar duas cruzes pretas desenhadas em cima de cada sobrancelha e um rabisco que parecia um sorriso abaixo de cada olho, acentuando as bolsas de olheiras. Nas duas orelhas, os alargadores de madeira faziam os lóbulos ficarem pendurados, balançando o pedaço de pele toda vez que ele mexia a cabeça. Acho que três dedos meus entrariam facilmente por aquele buraco, mas nunca cheguei tão perto a ponto de poder medir.

Sempre o encontrava no Itacorubi. Eu dentro do meu carro. Ele dentro do seu personagem. Eu era uma mera transeunte que pouco prestava atenção no que acontecia fora da minha cápsula motorizada e do meu trajeto mecanizado a caminho do trabalho. Sérgio, ao contrário, via o mundo de cima. Enxergava tudo do alto das suas pernas de pau. Lá o tempo das coisas era outro. Não aproveitava a areia da praia ou a grama do parque. Vivia na quentura do asfalto, de onde abria o sorriso para as pessoas paradas no sinal. Visto de baixo, as olheiras não impediam que fizesse contato. Primeiro, encarava os potenciais espectadores. Se havia interesse, continuava. Tirava do bolso duas claves e as fazia voar, quase atingindo o semáforo. Caso o interesse permanecesse, pegava mais claves guardadas nos outros bolsos e executava os movimentos rápidos com a sincronia de um balé coreografado e cronometrado. Nunca deixava cair. E também nunca perdia o tempo de executar a manobra mais ousada, ouvir os aplausos, recolher as claves e buscar o dinheiro nos carros antes do verde acender.

O entretenimento ambulante e temporário liberava a rua indo para o canteiro central, onde aproveitava para beber água de uma garrafa de plástico pendurada no mastro do semáforo por uma corda. Enquanto os veículos ocupavam seu local de trabalho, ele se hidratava, com tempo estipulado. Já os motoristas deviam se esquecer da existência dele cinco segundos depois de passar pelo sinal. Acredito que a única exceção foi uma criança que estava dentro de um carro à minha frente numa das vezes que passei por ali. “Tiooooo, faz bolinha de sabão pra mim!”, gritou o menino vestido com o uniforme da escola ajoelhado no banco de trás. Do alto de seu meio século de vida, Sérgio saiu de cima da faixa de pedestres, se aproximou, se abaixou e encheu o carro de círculos efêmeros de felicidade. O garoto deu uns cinco pinotes tentando destruir todas as bolinhas antes que elas desaparecessem por vontade própria. O pai virou para trás e acompanhou a cena. Deu para ver que a doação para o Sérgio foi generosa.

Apesar de tê-lo visto todos os dias no último ano, raramente dei dinheiro para ele. Na verdade, só lembro que uma vez entreguei uma nota de dez reais a ele, num final de tarde. E foi mais por dó do que como um apoio para um artista de rua. Deve ser o meu hábito de economizar. Estava quase noite quando o vi bem na minha frente fazendo seus malabarismos em cima do capô do meu carro. Mesmo sem sol, fazia um calor de rachar e ele, que deve ter passado o dia na labuta, se mantinha forte e sorridente. Em vez das claves, usava um origami de pássaro, equilibrando nas mãos e nos braços o pedaço de papel das formas mais improváveis. Parecia que havia um ímã que mantinha o papel próximo da sua pele. O pássaro ficava de ponta cabeça e depois voltava ao normal, girando pelas tatuagens indecifráveis. Sérgio ficava o dia todo provocando a gravidade de um outro degrau, mas confesso que me comovi mais pelo suor da camisa do que pelo pássaro livre que dava cambalhotas.

Minha mania de controle e de apego me fez mudar de rota para poder frequentar as aulas de yoga. Deixei de passar pela esquina do homem da perna de pau. Fazia uns três meses que não via o Sérgio, até que um dia, no final da meditação, acabei escutando uma voz na sala ao lado, na escola. Espiei pela janela e era ele contando a um professor sobre seu incômodo com barulho. Ele sempre estava em silêncio no sinal e por isso eu achava até que fosse mudo. O rosto pintado de branco deu a dica de que naquele dia havia trabalhado como palhaço nas alturas. A voz doce, baixa e pausada não combinava com a pele desenhada que gritava rebeldia. Assim mais de perto, a pele rabiscada dava mais a impressão de cicatrizes mal curadas, jogando por terra minha impressão de homem seguro. As palmas das mãos unidas enquanto falava revelavam uma serenidade inexistente no meio dos carros e suas buzinas, que lhe exigiam precisão e rapidez.

Ele disse que quando não estava trabalhando se trancava em casa para não ouvir os vizinhos. Não aguentava choro do bebê, conversa da comadre, latido do cachorro. Mesmo se isolando, o esforço era inútil porque não conseguia calar o silêncio. No chão, os estrondos de sua cabeça eram mais altos do que qualquer som. Talvez a meditação o ajudasse a ficar calmo.

As pernas de pau estavam deitadas no chão logo atrás de um banco embaixo da janela. Me sentei nele para colocar o tênis e ouvir mais. O professor questionou sobre a possibilidade de ele mudar de casa. Sérgio então disse que não podia abandonar o abacateiro que plantou havia oito anos. Além de colorir o muro cinza do fundo do quintal, a árvore o fincava na terra. Não podia passar um dia sem regá-la. O tronco lhe dava a mesma estruturação das pernas de pau, as folhas se moviam como seus balangandãs de cartilagem nas orelhas e os pássaros reais e de origami voavam à sua volta.

Sérgio passava os dias no alto tentando buscar o abacate que não sabia onde encontrar. As pernas de pau o elevavam e talvez o barulho lá de cima não o incomodasse. Sabia o que fazer para conseguir dinheiro e sobreviver, só que isso já não era mais suficiente. Não por desejo de conforto ou de construir um patrimônio. Naquele dia, ao mexer a cabeça para trabalhar, os lóbulos das orelhas pareciam mais pesados, quase como um lastro para ajudá-lo a se equilibrar. Seus ouvidos estavam sedentos por outros tipos de aplausos, não mais aqueles que vinham das ruas. Depois de fazer pela última vez a sua manobra mais ousada, revezando e jogando seis claves que se equilibravam nas duas mãos, na nuca e na testa, ele disse que olhou fixamente para baixo. Longe do chão, se deu conta de que, sem pés, ficava sem sustentação. Em sua vida cambaleante, nunca havia sentido as raízes crescerem e compreendeu que a dor pela distância da terra lhe fazia mal.

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