A modelo do scarpin

Silvia Argenta

Ari Gasparetto passava o dedo na tela do celular quando viu uma foto de uma jovem calçando um scarpin. “É ela!”, pensou animado. Eles não se conheciam. Mesmo assim, comentou a publicação no impulso:

– Oi, @pattycavalcante. Quero te contratar. Pago 200 reais.

Meia hora depois, ela respondeu no privado:

– Que tu quer, cara? Se vacilar, é block.

– Não, calma. Tudo bem? Preciso de uma mulher bonita como você pra promover meu negócio. Quero fazer um vídeo para uma propaganda.

– Que tipo de vídeo, Ari?

– Vídeo institucional de uns quinze segundos para divulgar meu trabalho. É bem rapidinho.

– Você não vai me falar qual é teu trabalho?

– Sou do ramo calçadista. O scarpin me passou a impressão de que você é uma pessoa fina e elegante. É disso que preciso. Não aguento mais sapatos masculinos. Quero mudar o público-alvo.

– Tá certo. Deposita metade na minha conta que a gente pode começar a conversar.

Ela duvidou da proposta, afinal todos os dias recebia mensagens de homens pela internet. Devia ser só mais um podólatra babão. No entanto, Ari fez a transferência e logo depois combinaram o dia e local para gravar a propaganda. Era pouco dinheiro, mas a ajudaria a pagar as contas e poderia ser uma oportunidade de aparecer para, quem sabe, conseguir outros trabalhos depois. Checou o perfil dele e descobriu que ele era de meia-idade. Só tinham duas fotos: uma da comemoração do dia que saiu de uma cirurgia e outra da festa de aniversário. Não tinha nenhum post sobre a empresa dele. Fez um print, mandou para Aline e informou o endereço onde seria o trabalho. Caso ela sumisse, a amiga teria pistas para encontrá-la.

Quando chegou o dia combinado, Patty e Ari se conheceram pessoalmente. Sem experiência na carreira de modelo, ela não fez todas as perguntas necessárias antes de fechar o negócio. Na garagem da casa dele, um celular estava apoiado em cima da mesa de plástico, voltado para a parede onde tinha uma cadeira de madeira sem estofamento algum. Não tem equipe de produção? Ele olhou os pés dela, supôs que um 36 caberia e deu a ela um sapato preto com rachaduras no couro e cheiro de usado. Não chegava a ser chulé, mas exalava um odor de suor seco. Além disso, não tinha nada a ver com a elegância do scarpin. Nem bonito era. Cadê o figurinista? Ela calçou e se sentou. Sentiu o joanete espremido no calçado cafona de fivela dourada. Devia ser peça de brechó de quinta. Não havia luzes especiais. A iluminação era natural e o cenário se restringia apenas à parede branca e à cadeira. Também não teve ensaio. Sem explicar nada, ele apertou o botão de gravar, puxou uma caixa, abriu uma gaveta de onde tirou um pano, apoiou o pé dela num suporte e começou a engraxar.

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A novata auxiliar de enfermagem mal sabia que trataria de um assunto delicado naquela manhã. Apesar da pouca experiência, Patrícia Cavalcante conseguia distinguir os procedimentos de rotina dos excepcionais. Assim que recebeu a ordem do chefe para dar suporte ao paciente do quarto 03, terminou de fazer a trança no cabelo preto longo e a deixou pendurada para o lado esquerdo.

Ao entrar no cômodo, ficou surpresa ao presenciar um caso que só tinha visto na teoria até então. O homem dormia na maca, enquanto ela conferia as anotações reunidas na prancheta pendurada no pé da cama. Ele beirava os sessenta anos e foi internado às pressas com fortes dores. Logo entrou no centro cirúrgico, de onde saiu duas horas depois com um corte na barriga.

No prontuário, constava que, apesar de tomar os remédios indicados pelo médico, ia aos pés sem controle algum nos últimos dias. Perdeu peso rápido demais e a pelanca agora era o escudo que delimitava o espaço do seu corpo. A operação foi delicada, então ela precisaria ter mãos suaves para lidar com o paciente. O trabalho de Patrícia era limpar tudo que o homem excretava. A bolsa de plástico descartável onde as fezes ficavam armazenadas estava pendurada em sua barriga.

Abriu a janela e vestiu luvas e máscara para fazer a limpeza. Com os dois ali sozinhos no quarto, percebeu que vazamentos acontecem e escorrem para o chão, como a pasta de graxa para lustrar sapatos quando usada em excesso. O armário de órgãos por vezes não dá conta de segurar todo o sangue, urina, fezes, água e saliva que ficam em constante ebulição dando voltas pelo organismo. Funciona quase como um vulcão. É tanto movimento interno que uma hora algo transborda num esguicho, num ferimento ou num choro, abrindo portas e gavetas antes bem ajustadas. A alteração em toda essa dinâmica acaba nos exigindo um outro tipo de movimento, o externo para curar. Pode ser uma cirurgia para pendurar uma bolsa de ostomia no intestino ou pode ser um simples algodão para conter o sangue que jorra da cutícula depois do bife da manicure. Impossível passar uma vida com o corpo intacto. Nele não há inércia.

Ela terminou o trabalho e jogou as luvas e a máscara fora. Quando ele acordou, Patrícia reconheceu o único homem que a reconheceu como modelo. O vídeo promocional do engraxate Ari Gasparetto não fez o sucesso que gostariam e, nesse jogo de espelhos, as duas carreiras ficaram inertes. Depois disso, tiveram de transbordar para outros caminhos. ”Você prefere ficar com a janela fechada?”, ela perguntou. E ele disse: “deixa a luz entrar”. O melhor nesse momento era manter o assunto da propaganda pendente para não abrir a ferida. Só lhe restou sair do quarto e chamar a faxineira para limpar o chão.

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Era madrugada quando Patrícia Cavalcante ligou para a melhor amiga. Sentia muita dor e não podia esperar. Precisava de ajuda porque achava que podia desmaiar a qualquer momento. As duas se conheceram no colégio e passaram a infância e a adolescência grudadas. Uma amizade normal com uma esquentadinha e a outra calminha, falando sobre bonecas, escola, namoradinhos e por aí vai. Patty sabia que podia contar com ela, mesmo depois de tudo que aconteceu.

Aos vinte e poucos anos, a amiga já era uma dentista famosa na cidade. Por conta dos vídeos engraçadinhos que posta na internet ensinando as crianças a escovarem os dentes, tem conseguido conquistar novos clientes todos os dias. Os pais abandonam os antigos profissionais para levar seus filhos ao consultório colorido no centro. A recepção não tem nada daquela aparência asséptica com tudo branco e bege. Ao contrário, as cadeiras azuis e o balcão verde contrastam com a parede rosa. Já viu criança pedindo para ir ao dentista? Sim, é o fenômeno Aline Fonseca.

A amiga atendeu a ligação e combinaram de se encontrar em uma hora no consultório. Enquanto Patty chorava de tanta dor, Aline, que sempre foi morena e agora estava loira, ia abrindo as portas até chegar na sua sala bem equipada, que parecia uma estação espacial tamanha a quantidade de aparelhos enormes e cheios de articulações. A amiga chorosa se sentou numa das cadeiras estofadas e quase foi tragada pelo móvel de tão macio que era. Ficou encaixada entre os encostos das laterais e mal conseguia se mexer. A dentista acionou um botão e a cadeira começou a massagear as costas de Patty, que logo amoleceu.

– Amiga, não bastasse essa minha dor crônica no joanete, agora me aparece essa porcaria no dente. Foi logo depois que comi um pé-de-moleque. Me ajuda, por favor!

– Claro que vou te ajudar. Abre a boca, chuchu, disse Aline, já equipada com a máscara, as luvas e o óculos protetor.

– Ahhhh!

– Querida, tô vendo aqui uma cárie imensa no molar. Preciso arrumar isso agora. Não dá para esperar.

– Ahhhh!

– Não vou aplicar a anestesia porque vai ser rápido. Assim, você não fica com a boca mole pelo resto do dia.

– Nãããã!

– Vou ligar o motorzinho. Não se assusta!

– Nãããã!

Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

– Amiga, você sabe que foi uma cretina comigo, né?

Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

– Já são cinco anos que tô remoendo tudo, mas agora você me paga. Cansei! Nunca falei nada para gente não se estressar.

Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

– Mas achei bem feito que você não conseguiu deslanchar na carreira de modelo, sua vaca. Usou a minha foto calçando o meu scarpin no teu perfil!

Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

– Onde já se viu? Vou meter o scarpin na tua bunda, Patty. Depois dessa, não te ajudo mais.

Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

– Pronto, pronto, amore. Agora acabou. Pode cuspir.

Após cinco minutos de saliva, sangue e água voando pelo consultório, Patty abriu os olhos e deu de cara com a lâmpada da dentista, que a cegou por uns segundos. Depois concentrou tudo que ainda tinha na boca, abriu uma das portas do seu armário de órgãos e despejou de uma vez no recipiente de alumínio. Aline tirou a máscara, abriu seu sorriso com os dentes mais brancos que poderiam existir e, nos mesmos caminhos que percorrem o sorvete que se derrete na boca, esfregou com o indicador uma pasta em todos os espaços entre os dentes da amiga, por menores que fossem. Nenhum buraquinho ficou sem preenchimento.

– É isso, honey. Tua boca tá lustradíssima.

– Hmmm, tá renovada mesmo. Agora tô sentindo um outro tipo de dor. Será que se você tivesse aplicado a anestesia eu estaria assim também?, perguntou Patty esfregando a mão bem de leve na bochecha.

– Logo passa, meu amor. Confia em mim.

– Brigada, minha dentista favorita. Nem sei o que faria sem você.

– De nada, baby. Depois me conta se tá tudo bem. Beijo!, se despediu Aline enquanto fechava a porta e pensava: tomara que esse joanete nunca pare de doer.

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