ACONTECE O DESERTO

Kitty, Little Cindy, Angel Deville e Courtney Squirt sobem na cama king size. As rochas do deserto californiano despontam do reflexo na janela e são as últimas guardiãs do meu sono. Sigo a pan com os olhos sobre suas pernas entrelaçadas na confusão de rendas e tiras de couro. É um toque de poesia, apesar das lentes purificarem suas formas brancas de qualquer imperfeição e humanidade. Empurro as pílulas goela abaixo com um copo d’água e as goladas parecem cimento.

Ao escolher esse vídeo nos Xvideos, sinto como se tocasse a campainha de velhas amigas. A velocidade do vibrador regulada eternamente no oito, o infinito de um pôr do sol alienígena ao fundo, enquanto o clitóris automatiza uma resposta. Atravesso os cômodos da casa de linhas arrojadas graças ao fluxo daquela orgia: suíte principal, quarto de hóspedes, cozinha, sala de estar. Courtney Squirt lava as portas de correr de vidro que dão para a varanda com seus squirts. Os cabelos de Kitty têm o mesmo verde pálido dos olhos e dos arbustos lá fora. 

A trilha goteja batidas sombrias que ficam entre ondas bineurais ou um álbum com as melhores do Portishead. Vem-me à cabeça a imagem de um martelo que bate no joelho do paciente e o salto do nervo. Depois, a selfie de Martha sem calcinha sob o uniforme de recepcionista no saguão do hotel, seus pentelhos pixelados pela baixa qualidade da câmera frontal e um tipo de escuridão esverdeada ao redor dos cabelos cacheados. Às vezes cometemos os maiores erros assim, seguindo o fluxo de uma Batida Muito Maior Do Que Nós. Você me prometeu que não ia ser assim, sua escrota do caralho. Você me prometeu. Um ano de puro delírio. Martha e suas mil maneiras de me surpreender, seja com o silêncio do café da manhã ou com as declarações de amor alimentadas por cogumelos e pela adrenalina de seu exibicionismo nas vans de traslado. Já houve um amor assim. Mas não há certeza de que tenha sido nosso.

Salve-me, Kitty, salve-me, Little Cindy. Mas elas apenas mastigam chicletes e arrumam os cabelos uma da outra até o super close em suas virilhas próximas demais sob os lençóis de seda. Em seguida, Angel Deville encara a câmera com uma tristeza infinita, ou seria um olhar sensual? Ela sabe como é, tenho certeza. Ela tem o olhar de quem se deparou com a sua própria Martha algumas vezes no passado. Meu detalhe favorito é o fiapo da peruca rosa e pálida pregado no excesso de gloss nos lábios. Kitty se aproxima, cospe neles  e a cena se desfaz em bolhas e dissolvências. É genial, angelical. Tudo está em ordem novamente. Minha glândula pituitária decerto começa a liberar endorfinas, ocitocina e vasopressina. Em breve, Martha se reunirá com os outros elementos de um quadro intangível e irrelevante ao qual chamam realidade.

Quando olho para o lado, a pequena Little Cindy segura minha mão, uma que eu não sabia que tinha. Suas pupilas dentro de rasgos nipônicos, duas não-pálpebras, ocupam os globos oculares inteiros, e toda a sua pele virou um filme plástico sob o qual se movem as raízes de uma estranha vegetação. A única coisa que prende a forma humana ao corpo de Little Cindy são as faixas pretas de couro que envolvem suas coxas, cobrem seus mamilos e separam seus grandes lábios com as argolas metálicas, tantas que é impossível contar. É como sei que está dando certo.

Little Cindy sussurra, mas o quê? Preciso me aproximar de suas unhas postiças para ouvir, pois é dali que vem o cântico vermelho: “não seja póstumo. Permita-se um interesse vivo. Não abuse da morte”. Ao qual eu respondo um mantra mudo: “mesmo numa ampulheta fechada acontece o deserto”. E a cada vez que repito a frase, minha cabeça se recosta mais no tórax reto e úmido de Little Cindy, tanto que, a ponto de destroçá-lo, percebo que, na verdade, minha cabeça se enterra nele como se eu ofertasse à terra em sacrifício, e sua mão na minha segue o mesmo fluxo. Atravessa-me a Little Cindy, e caibo nela como num caixão, pois ela, diminuta, expande-se, alargando as ancas para alocar as minhas. Seu ângulos se tornam retos, seu interior, forrado de seda, e por trás da tampa aberta do caixão desfilam as mesmas pessoas, de novo e de novo e de novo: Kitty, Angel Deville e Courtney Squirt, que com seus squirts rega as flores do meu túmulo.

A cena perde o brilho e apita. Bateria: 5%. A diferença que isso faz na tela revela o bigode chinês de Courtney Squirt e finas linhas de estrias nas coxas de Kitty. Ligo o interruptor da luminária com dificuldade e sou atingida pelo brilho de 40 mil sóis direto nas lentes dos óculos, ou assim me parece. Consigo discernir apenas cacos do entorno: o lençol de microfibras têm tantas bolinhas ásperas e farelos de nuggets que me sinto deitada numa cama de faquir. Um bicho me pica o braço, mas ao passar a mão para espantá-lo, descubro ser o plástico de alguma das várias latas de pringles enfileiradas ao lado da cama. Meia garrafa de Merlot segura as páginas de beiradinhas amarelas da xerox com Selected Poems of Ewa Lipska. Recosto-me, encaro o dossel. Não, não é um dossel, são teias e mais teias de aranha que se estendem do armário ao varão da cortina. Alguém mais cuidadoso com esses pequenos detalhes costumava viver aqui, mas não consigo me lembrar muito bem quem era. Busco a resposta, mas o espelhinho ao lado da porta mostra apenas meu rosto de poucos amigos. A franja azul pastosa sobre minha testa esconde os olhos sulcados e uma improvável ausência de ousadia. Com o tempo, a gente encontra formas de fazer com que decorem seu nome, mas elas sempre se esquecem.

Ao conectar o carregador no aparelho, o celular vibra em minhas mãos na frequência do dildo que, a essa altura, já está quase nos joelhos. Apago as luzes, a Terra volta ao eixo original. Sinto, no entanto, certo enjoo, como se partisse para o terceiro prato de um jantar dançante num navio engolido por uma tempestade. Só o brilho da tela é meu farol, um amparo débil que roda e geme. “Mais, mais!”, e acho que vou vomitar. Agora é Angel quem vem ao meu socorro.

Angel Deville enfia os dedos fundo na minha garganta. Sei porque sinto as marcas da base de seu anelar e indicador roçando meus lábios por dentro. Fixo os olhos no vídeo, é minha única chance. Nele, as outras três se enroscam, formando um tríscele com pontas balançando entre os fios da cortina de cabelos rosa. Elementos improváveis se misturam à seda e a noite iminente engole o deserto enquanto sufoco sob espasmos e espuma. “Há em ti cada vez menos leucócitos de luz”, diz Angel, limpando os dedos na fronha que cobre metade do travesseiro. 

É quanto Courtney Squirt entra em cena. Seu bronze atlético me carrega do quarto às pressas. Despe-me com vigor, coloca-me em meu colo maternal repleto de rendas e laços, e as outras três apenas assistem com a curiosidade de crianças, meu transporte para uma maca. Com seus squirts, Courtney me lava dos pés à cabeça, prende-me a eletrodos, e juntas entoamos o Velho Mantra por noites e noites: “mesmo numa ampulheta fechada…”. Com o passar do tempo, o resto dele vira uma batida compassada e minimalista, um simples beep que atravessa vozes indiscerníveis. 

Abro os olhos entre o rascunho de murmúrios num corredor. Ainda me sinto um pouco grogue com os remédios, mas lúcida o suficiente para reconhecer, no borrão que me envolve a ausência dos óculos, a forma fofa e cheia dos cachos de Martha, dormindo na poltrona do acompanhante. Ela baba no forro de plástico, o rosto encostado no sofá e a bunda descomunal virada para cima. Nenhum sinal da marca da calcinha. A Terra volta ao eixo original, mas sinto apenas muito sono.

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