Guaiá

Guaiá

Helô Mello

ATO 1

Em Paris, ela adora se hospedar no Ritz. Costuma dizer às amigas, com ar blasé, que lá ela tem todo o conforto e quase nenhum incômodo. Sentada na recepção, Sania espera Jean Marc que vai levá-la ao desfile da nova coleção Dior. Mexe o pé para aliviar um pouco a dor, o salto já está incomodando.

Jean Marc, que nasceu Gladison em Goiás, é seu motorista e velho conhecido. Está sempre tão ou mais elegante do que alguns hóspedes, pensa Sania. Ele a segue até o carro e abre a porta para ela. Sania não fala, não esboça sequer um sorriso. Mas ele já está acostumado.

Viram à direita na avenida dos Champs Elyseés e ela lembra que um dia se emocionou ao ver o Arco do Triunfo no final, seu falecido marido a levava pela mão para conhecer a cidade das luzes. Agora só dá graças a Deus por não haver trânsito; nessa hora os moradores costumam sair para o teatro na sexta feira. Fica aliviada, pois deve chegar a tempo para o desfile, só para marcar presença, sem ter que ficar horas em pé. Depois terá que jantar com uma amiga de seu falecido no L’Avenue, restaurante bem na frente da Dior, na Avenue Montaigne. Basta atravessar a rua e concluir o social da noite.

Depois que o garçon passa pela segunda vez oferecendo champanhe, não resiste. Em geral, não toma mais álcool, só Diet Coke; se pudesse seria seu café da manhã. Lembra que almoçou no bar do hotel uma salada verde sem azeite e um cappuccino sem lactose, sempre protegida por seus óculos escuros. Será bom beber para a noite passar logo. Há anos não bebe, tenta evitar todo tipo de excessos.

As cadeiras do desfile são apertadas, lugares marcados e disputados. A seu lado senta um homem grande, roupa justa de couro, falando alto (pior, em português). Quase senta na sua perna. Tenta se afastar para descolarem as coxas espremidas entre as cadeiras. Evita falar para não dar conversa. Ele parece não saber uma palavra de francês, como se nota ao tentar pedir uma bebida ao garçom.

Chega sua “amiga” francesa, a que a convidou para o desfile e com quem terá que jantar. Esse programa faz parte de suas obrigações. Saniá, mon amour, que bom que chegou! Já conhece Miguel? É brasileiro e vai jantar conosco essa noite. Acaba de chegar de Berlim.

Uma das qualidades que Sania adquiriu com o tempo foi o mau humor, que exerce com maestria.

ATO 2

O L’Avenue está lotado, mas a amiga poderosa tem mesa cativa no restaurante onde se come pouco e paga muito. Importante é ser visto, no caso ser vista, esse o grande, talvez único, atrativo do lugar. Quando Miguel chega, já estão instaladas. O brasileiro exala uísque e tabaco. Não deve sentir frio, pensa Salete. Chega e bate com força na sua perna, como se fossem íntimos. O sangue sobe, o rosto esquenta, mas a amiga não parece perceber. Miguel, fazendeiro de gado, veio à Europa a negócio, pretende ficar mais dois dias. A francesa tinha combinado de ir conhecer sua vinícola, perto de Paris.

Saniá, chérie, surgiu um imprevisto, impossível cancelar, diz ela. Deve estar mentindo, pensa Sania. Foi tudo planejado. Terá que entretê-lo, sem escapatória. Sua mudez não é notada por Miguel, que fala por todos. Do gado, da fazenda, piadas idiotas em que sua amiga finge achar graça. No fim do jantar, exausta de tanto falatório ao qual não se deu ao trabalho de prestar atenção, Sania procura Jean Marc, que os leva embora.

Precisa estar pronta para o weekend, amanhã às 10 horas. Sania odeia conversar antes do meio-dia. Desde que ficou viúva, liberou-se de diversas obrigações, mas nem todas. Para se manter, tem que seguir algumas prescrições, como seguir os comandos da “amiga” francesa.

ATO 3

Miguel e Jean Marc já são quase íntimos quando chegam ao Ritz para buscar Sania. Ambos são de Goiás e isso foi o suficiente para Jean Marc, em geral discreto, quase mudo, afrouxar o botão da camisa branca sob o paletó marinho e até esboçar um sorriso. A conexão do mal foi estabelecida.

Sania se senta sozinha no banco de trás e deixa os dois conversando na língua de boiadeiros que atrapalha seu sono. Lembra-se do falecido marido, nem vamos falar disso. Sania detesta o passado.

Chegam para o almoço. Há horas sem café, a enxaqueca ameaça a se instalar na lateral de sua testa. Miguel já está abastecido do uisque que trouxe na garrafinha, quase um acessório da calça cor safari cheia de bolsos. O colete acompanha o traje para formar um conjuntinho estilo caçador.

Durante o almoço, Miguel come e fala pelos dois. Desconsidera o fato de que Sania não abre a boca, seja para falar ou comer. Nenhum mau humor vai atrapalhar sua viagem ou apetite.

Depois do almoço, Sania vê Miguel e Gladison saindo para caminhar nas videiras. Já são melhores amigos, riem alto e se abraçam na virada da estrada. Pensa que agora sim, terá sossego. Ao vê-los caminhando, entretanto, repara nas pernas arqueadas de Gladison e surgem vultos da antiga vida que enterrou nas fazendas de Goiás. São lembranças afogadas no mesmo bar em que conheceu o falecido, ao tempo em que Gladison o acompanhava nas noitadas.

ATO 4

Com a desculpa da dor de cabeça, evita descer para jantar. Escuta os dois entre berros, risadas e cantorias na sala de estar. A essa altura devem ter desabastecido a adega. Não precisa presenciar a cena. Mas cumpre o trato. Sempre que a “amiga” a chama, Sania vem a Paris e atende a todas as suas orientações. Não conseguiu se livrar dessas obrigações porque gosta do luxo e da mordomia, saldo desse encontro no bar com o falecido.

Não consegue dormir. O barulho, a música, a remetem a outros tempos. Anda de camisola pelo quarto, com fome e fantasmas difíceis de manter no porão. Abre uma garrafa de vinho como quem abre a garrafa do gênio salvador. Os dois em baixo, ela em cima. Ou seria o inverso?

ATO 5

Voltam os três para Paris no final da tarde de domingo. Gladison assume o papel de motorista, voltando a ser Jean Marc. Impressionante, depois de tudo ele consegue se reconfigurar como se nada tivesse acontecido, pensa Sania. Camisa branca, paletó e todos os fios de cabelo seguindo o mesmo curso. Miguel se espalhou no banco de trás, como gado abatido, dorme entre roncos, agora mais espaçados do que aqueles que ela presenciou à noite em sua cama.

Sania preferiu estabelecer distância. Viaja no banco da frente, a roupa um pouco amassada, o rosto sem brilho, nem a maquiagem pesada consegue disfarçar. Tenta ver se encontra nas linhas pontilhadas da estrada algum resquício do blazé que tinha incorporado com tanta convicção.

Lembra-se então das palavras da tia, quando estava para partir do bar, ensaiando empinar o nariz: – Sania, por que tudo isso? Você nasceu em “Guaiá”, forma composta de “Gua” e “iá”, que em Tupi significa “indivíduo igual”, “pessoa de mesma origem”. Desista, Goiás não vai abandonar você. Sania agradece, acha que a tia tinha razão.

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