O buraco

por Américo Paim

O efeito agressivo do sol do meio da manhã sobre a pele jovem e muito branca dos braços magros de Ernesto Sálvio o levou a mudar para a cadeira mais escondida possível. Se chamasse seu nome, conseguiria ouvir a voz da secretária e até vê-la com uma inclinação para a esquerda, desviando do pilar. Essa sala foi adaptação, com certeza. Prédio antigo. O que será que funcionava aqui antes? Sua figura imóvel, roupa clara, pernas e braços cruzados, era como estar diante de um exercício de camuflagem, por causa de parede e cadeira brancas. Pra variar, ninguém cumpre horário. Quinze minutos de atraso, absurdo. Abriu e fechou os olhos e soltou bem baixo um “claro, sempre tem um…”, interagindo com a cena do copo derrubado, a poucos metros dele.

Algumas toalhas de papel do lavabo do pequeno sanitário da Secretaria resolveram o problema. Claro que eu ia melar a roupa. Olha aí, empresa, chegou o desastre ambulante. Os movimentos ágeis de Amarildo Crispim destoavam do sobrepeso e mostravam que a cena não era rara. Um pedaço do lenço de pano menos úmido e se foi o suor da sua testa. Só eu mesmo. Ninguém mais usa isso. Os dois tão me achando um ET. Foda-se. Lhe pareceu que o tamanho reduzido do aparelho de ar condicionado explicava o calor reinante. Eu e esse aparelho estamos no mesmo barco: aproveitamento de coisas antigas. Mas estamos rodando, não é, companheiro? Olhou em volta no reflexo, sem ter certeza se havia verbalizado ou apenas pensou a fala.

Como é possível a empresa contratar um traste desses? Em pleno 2005, século XXI? Disfarçou o riso com mais uma caminhada pela sala. Dionísio Rodolfo se servia desses expedientes. Sentou e ficou a ouvir as vozes na cabeça. As fotos de celebridades e futilidades nas páginas da revista já lhes eram quase íntimas de tão manuseadas. A ansiedade no balanço das pernas curtas, nas caretas e tiques de seu rosto quadrado. Passava as mãos nos cabelos lisos por minuto e aquele botão do celular poderia quebrar de tão acionado só para checar as horas. O atraso não lhe incomodava, mas a imobilidade. A reunião com o novo Coordenador Administrativo, o chefe, serviria para que os três ali presentes se conhecessem melhor. Uma hora ele tem que aparecer. Essa reunião vai ser chata.

***

Sem prestar atenção à TV da sala de espera, que mostrava mais um jogo ao vivo da Copa do Mundo da África do Sul, refletiu que seu raciocínio não era um exagero. Nem mesmo a expressão hesitante na face suada de Crispim ao ouvir seu relato dissipou a ideia que o evento poderia não ter sido um acidente. Ela já vem sofrendo tanto. Viu como oportunidade. Estava dirigindo. A curva, o penhasco. Não sei. De volta da limpeza da mancha de molho de tomate na camisa, Crispim defendeu que faltaria coragem a Mércia para tal extremismo, mas como Ernesto lhe lembrou que não havia marcas de frenagem no asfalto, ficou a coçar a cabeça de ralos e quase todos brancos cabelos, melando-os com a mão engordurada. Ambos concordavam que o carro ter parado em uma árvore era uma grande ironia. Aquele relacionamento de Dionísio e Mércia não tinha raiz alguma.

Tal e qual os incompletos e quebrados que ali adentravam, a placa metálica à porta estava sem um parafuso e um “r”: “Enferma ia”. As piadas sem graça de Crispim deixavam Dionísio mais agoniado do que já era. Aquela cama não era o local mais interessante para se aguardar resultados dos exames. Não conseguia parar quieto, movendo braços, pernas e cabeça e mesmo naquela condição seus piores pensamentos não o abandonavam. As vozes lhe diziam: era para essa figura velha e gorda aí estar deitada aqui e você de pé. Ainda fica aí se gabando do socorro que prestou. Só me faltava essa. Cadê esse doutor pra me dar alta? Alheio à agitação do amigo deitado, Crispim buscava conectar as teorias de Ernesto e não deixou de notar a ausência de qualquer pergunta do paciente sobre a saúde da própria mulher, que estava em outro ponto do hospital.

A sensação de limpeza e controle quando Ernesto entrava sempre foi marcante. Com voz firme e os gestos suaves habituais, em meros cinco minutos, para estupefação nos rostos dos dois amigos, trouxe em detalhes o relatório sobre o atendimento de Dionísio e sua esposa. Ninguém estranhou ele vir do quarto onde estava Mércia, tampouco a sua demora, mas o choque foi com uma informação que cinco anos de amizade desconheciam. A revelação foi mais rápida que o intervalo do gotejar no saco de soro no suporte: ele tinha o coração transplantado. Esse cara continua um mistério para mim. É por isso que é magro desse jeito? Ao som já distante das vozes dos amigos pelo corredor, Dionísio refletiu sobre tudo que aconteceu e as vozes na cabeça moldaram preocupação no seu rosto. O médico entrou e ele soube estar tudo bem pela forma como lhe sorriu.

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Poderia até ter visto aconteceu no dia na Olimpíada de Londres naqueles quinze minutos passados. Aquele silêncio pesado já incomodava. Crispim nem entendia o que estava à sua frente. A magreza do amigo não surpreendia, mas a tristeza, o vazio. O quadro de natureza morta na parede do restaurante quase respirava perto de como ele estava. O esfregar aflito das mãos e as manchas de suor sob os braços na camisa social apresentavam outra pessoa. Que é isso que ele está fazendo com a boca? E esse tique com o pescoço? Quando os olhos do amigo encheram d’água sem que uma palavra fosse proferida, a sua paciência virou preocupação e interferiu. Ernesto precisava explicar o que era aquilo.

O oscilar do pêndulo do relógio antigo em frente ao caixa parecia mais rápido que as palavras que lhe saíam da boca e paralisavam o rosto de Crispim diante dos fatos e sentimentos relatados. Cacete, o que dizer? Apaixonado pela mulher do cara? Não sabia se retrucava, enxugava as lágrimas de Ernesto ou lhe dava mais bebida. Escolheu escutar e balançar a cabeça. Não aprovava nada, mas quem era ele para se colocar acima daquilo? Concordo que é mesmo um absurdo a forma como Mércia é maltratada há tanto tempo. Ela está definhando sim. O desnorteio em Crispim aumentou com a angústia revelada a seguir. Ter no peito o coração de outra pessoa deu um nó na cabeça de Ernesto. Seria aquele sentimento seu? Ou de alguém que conheceu a mulher de Dionísio antes e se apaixonou por ela? Era um castigo, uma maldição? O amor seguia após a morte? Nem todas as garrafas entornadas trouxeram alguma luz.

***

O martelar de notícias sobre a tragédia da barragem de Mariana era o assunto, realidade batendo à porta, mas Ernesto sentia cheiros, ouvia sons e lhe vinham lugares e situações do que nunca foi real. Quanto desperdício. Só em minha cabeça. Não foi boa ideia ter vindo. Apareceu porque depois de tanto choro noite adentro, pensou que conseguiria atravessar o ritual sem desabar, olhar para todos e manter o equilíbrio. Incrível Dionísio estar aqui passando por sofrido. Desgraçado. Aquela agonia de mexer o corpo todo pode parecer nervosismo, mas eu sei que é culpa! Precisava de Crispim por perto para não perder de vez a cabeça. O velho saberia lhe sustentar. Chegou a minutos de começar a cerimônia e onde sentou sumiu entre outras pessoas nos bancos da frente. Mãos e pernas se moviam sem controle. O salão ressoava alto o ruído das conversas de caras desconhecidas, mas Crispim, ao longe, falava com familiares dela. O som da voz da irmã de Mércia no discurso de despedida parecia repetir o timbre de sua amada. Ali acabou a fortaleza. Quis o manjado lenço do amigo por perto. As lágrimas desceram junto com o baixar do caixão, ao som de “Estrada do sol”. Não haveria mais a quem dar as mãos.

Nas ruas de pedra do cemitério, passos tortos pelo chão irregular. Diante daquele buraco, uma cova vazia, Ernesto reviveu as dores no peito pelo que não fez. Ele nem parece ter coração, mas como seria se o maldito Dionísio tivesse, como eu, um transplantado? De alguém do bem? Teria sido diferente? Crispim ouviu essas palavras ao abraçar o amigo, retomando a caminhada. Na varanda do apartamento, Ernesto nem foi capaz de lembrar como chegou até ali. Só imagens de ruas, pessoas e prédios e o ronco do motor do carro. Eram borrões, incertos como os pensamentos que lhe povoavam. Refletiu mudo sobre o que o faria ir em frente, se não havia mais razão para qualquer coisa, se nada mais voltaria. Então é assim? Ela decide pelo fim da vida e eu fico aqui esperando que a minha acabe?

***

O país em polvorosa poucos dias após o desfecho do impeachment, mas Crispim vivia outro tipo de golpe. Seu corpo parecia mais pesado que o normal. Só sentiu o chão de novo depois que o carro da polícia desapareceu na curva, ao fim da rua. Foi gentil terem oferecido carona. Voltou seus pensamentos para o destino de Ernesto e como foi uma tarde difícil. Entre o telefonema com a notícia do crime medonho, a convocação para o reconhecimento do corpo, o depoimento tenso e estar agora de volta à porta do seu prédio, foram muitas horas. Suando como sempre, sacou o lenço ensopado pelo estresse do dia, mas sentiu uma ponta de orgulho por manter a frieza, como Ernesto faria, sem os trejeitos nervosos clássicos de Dionísio. A vida vai seguir e um dia vou esquecer.

Sim, talvez apagasse o susto pela ligação na madrugada, ou o som da voz fria do policial do outro lado da linha, ou mesmo o ar condicionado gelado no necrotério e o calor absurdo na delegacia na pressão do interrogatório. Sabia, porém, que nunca lhe sumiria a imagem terrível do corpo inerte de Dionísio naquela gaveta, o mesmo rosto quadrado, mas aquele buraco redondo no tórax, onde antes esteve seu coração.

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