(B. V.)
Acho que a coisa complicou pro meu lado quando ela disse, sem qualquer tipo de aviso, sem tampouco hesitar nem por um momento, ela apenas parou de caminhar, parou assim com os dois pés em paralelo, como se tivéssemos enfim chegado, como se o nosso destino fosse aquele mesmo, um canto escuro próximo à esquina das avenidas Paraná e Tiradentes, perto ali do Centro Comercial, onde tem uma escadaria, e com as duas mãos ela me puxou pelo braço, Vamos deitar aqui um minutinho, foi o que ela disse, como se nós tivéssemos nos deparado com um local perfeito pra deitar, com uma cama numa loja de departamentos cuja qualidade ela quisesse conferir pra decidir se comprava, em seguida ela explicou, Eu não posso chegar em casa assim, Tô bêbada demais. Eram duas horas da manhã de sábado. Susana me botou sentado na calçada, com as costas apoiadas no granito escuro da parede, e deitou no chão, com a cabeça no meu joelho direito. Lembro de ouvir ao longe o barulho de uma garrafa estilhaçando no asfalto. Depois ela dormiu e me deixou ali, sozinho.
Fiquei olhando Susana dormir. O sono dela era tão pesado e calmo que depois de um tempo eu cheguei a pensar que a garota tinha morrido. Claro que eu também tava muito bêbado. De quando em quando eu colocava um dedo bem embaixo do nariz dela, pra ver se ainda respirava, e algumas vezes eu recolhia o dedo ainda em dúvida, então tentava prestar atenção no cabelo dela pra ver se ele se mexia quando ela expirava, porque ela usava uma franja comprida no cabelo castanho e a franja tinha lhe caído por sobre o rosto. Olhando de cima eu não conseguia ver a caixa torácica de Susana se enchendo de ar, ou sua barriga se movimentando, ou qualquer outro sinal de respiração, por conta do escuro da noite, da camiseta larga que ela usava e da posição em que dormia – as palmas das mãos coladas uma na outra e enfiadas embaixo do rosto, os joelhos dobrados em direção aos cotovelos, como um feto. Eu tava morrendo de medo de que acabássemos sendo assaltados ali, que a sorte que tivéramos na nossa perambulação noturna finalmente chegasse ao fim, porque a região era erma e meio perigosa, mas também não era o caso de acordar Susana, isso eu não podia fazer, eu não devia ter deixado ela deitar no meio da rua pra começo de conversa, teria sido fácil, Cê tá maluca?, Não, Vem, Vamos continuar, Vou te deixar em casa, Nós já estamos bem perto, mas eu não disse nada disso, deixei ela deitar e sacudir o meu temperamento, depois não tinha nada que eu pudesse fazer a não ser esperar então foi o que eu fiz.
Tudo isso no nosso primeiro encontro. Antes a gente ficou dias conversando pelo mIRC, trocando pequenas provocações, indiretas, inebriados de uma leve safadeza, o que de certa forma dificultou tudo, porque no mIRC, por escrito, eu conseguia ser uma pessoa muito diferente de quem eu era na verdade, eu fazia parecer que sabia sempre a coisa certa pra falar, dava ótimas respostas, muito rápidas e sacaninhas, mas pessoalmente nós dois ficamos totalmente travados, as coisas que tínhamos dito um pro outro na internet eram fantasmas que depois nos assombraram. Como não tínhamos trocado fotos, eu fiquei sentado na esquina do McDonald’s, perto de onde ela disse que morava, sem saber direito o que esperar, Eduardo?, Sou eu, Susana, Desculpa, Eu demorei um pouco, Né, É que eu perdi minha chave de casa, Acredita, Tive que procurar, E aí, Vamos, não consegui disfarçar uma certa frustração, achei ela feia e claro que ela percebeu.
Nós seguimos andando pros lados dos bares da Universidade, eu com as mãos nos bolsos e Susana meio saltitando, parecia alegre, tranquila, de vez em quando ela pulava e batia os calcanhares do coturno no ar, uma coisa estranha, mas a conversa não engrenava, por mais banal que fosse o assunto, por mais que nós dois nos esforçássemos, O que você vai prestar no vestibular, eu tentava, Não sei, Ainda não decidi, depois era ela quem tentava, Você ouviu a música que eu te mandei, quando será que foi isso, Não ouvi, Deu erro no download, até chegar num ponto em que ninguém dizia mais nada, nós só continuamos andando e acabamos no Don Juan, aquele bar que tem uma única mesa de sinuca, toda estourada, o pior de todos os bares da Zona 7, que tem cheiro de ônibus no fim da viagem e onde Susana era a única pessoa com uma camiseta de cor clara. Começamos a beber e acho que fomos jogar sinuca como quem desiste de tentar conversar, já que aquilo não tava mesmo funcionando, então Susana começou a propor desafios, ela gostava de apostas e pelo jeito não se importava em perdê-las, porque jogava muito mal, até pior do que eu, Quem perder passa embaixo da mesa, Edu, Quem perder vira um conhaque, Quem perder tem que quebrar o copo na parede.
Mais tarde, enquanto Susana dormia e algo mudava dentro de mim, comecei a puxar pela memória todas as cenas que tinham acontecido no bar e algumas pareciam improváveis, pareciam mentira, tentei me lembrar de todas as apostas que tínhamos feito, uma por uma, e foi impossível me lembrar de todas, e só aí que me dei conta, devia ter apostado um beijo, teria sido fácil, teria sido o certo, mas isso a gente não apostou. Alguém veio reclamar, Vocês tão achando que são os donos da mesa, Porra, A gente também quer jogar, Vão arrumar um quarto pra se lamber, Caralho, quando eu vi Susana partiu pra cima do magrão, xingou o cara e tentou cuspir na cara dele, puxei ela pra fora, Deixa isso pra lá, Vamos, Vamos pra outro lugar, quando ela pisou fora do bar já tava dando risada muito alto, como se a briga não fosse nada, fosse um show de comédia, ela esperou a risada passar e depois disse que tava tarde e que tinha que ir pra casa, ela me ofereceu o braço e pegamos o caminho de volta, subimos a Paraná como um casal aristocrático de novela de época, mas um que estivesse totalmente bêbado e tropeçando um no outro. Àquela altura a proximidade do corpo dela me causava estranheza e até uma leve repulsa, como um parente perto demais numa cama de hotel, e foi com essa sensação no corpo que eu cheguei naquela malfadada esquina.
Quando a viatura apareceu eu tava de pau duro olhando pras pernas da Susana, cheio de arrependimento e de má intenção, a saia dela tinha subido um bom tanto quando ela deitou e se alguém chegasse por aquele lado da rua iria ver a bunda dela, mas é claro que não ia chegar ninguém àquela hora, nem por aquele lado da rua nem por qualquer outro, era o que eu pensava quando chegou a viatura da PM, dois policiais na frente e um no banco de trás. Eu demorei pra entender o que era aquilo, eles chegaram devagar com as luzes apagadas, mas bem na nossa frente ligaram o sinalizador, eu nem respirava, Que que vocês tão fazendo aí, era o carona que falava, o motorista tava sorrindo, tranquilo, o do banco de trás me olhava como se quisesse me afogar no meu próprio sangue, o sangue que inundava meu pau, Nada, Não, parecia que eu tinha xingado a corporação inteira, Como assim nada não, Tá de sacanagem, Essa guria aí, Tá bem, Tá drogada, eu cutuquei e chamei Susana mas ela não acordava, eu não podia levantar, o policial abriu a porta e ficou com um pé pra fora, meio agachado, metade do corpo pra fora do carro, Que que ela é tua, É tua namorada, eu respondi que sim, que era, Sim. Só depois disso Susana acordou, esfregou os olhos, Cê tá bem, Guria, Que que te aconteceu, eu quis falar qualquer coisa, Não tô falando com você, Seu merda, Fica quieto aí, Cê tá bem, Vou perguntar de novo, Olha pra mim, Cê tá bem, Guria, Esse merda aí do seu lado, É seu namorado, e só então Susana balançou a cabeça meio assustada, ainda meio dormindo, Sim, É, Sim, É meu namorado, aquilo parece que deixou o policial mais puto porque ele deu um tapa na lataria e falou ainda mais alto, Crianças, Vou falar uma vez só, Vão pra casa, Porra, Que que cês tão fazendo aqui, Leva ela embora, Seu imbecil, Vai, Rala, Vai logo, então a gente se levantou, salvos enfim um do outro, e foi.
