Até as minhocas sobem para respirar

Silvia Argenta

“Esse menino não bate bem da cabeça, doutor. Sério, tá impossível de segurar”, disse Alex ofegante pelo telefone, implorando para o médico dar algum remédio potente sem que a mãe da criança soubesse. Talvez assim o garoto de dez anos ficasse mais calmo. Talvez assim ele não precisasse contar nada para a esposa. Talvez assim eles pudessem ser uma família normal. Para seu desespero, nada disso aconteceu.

Com apenas três anos, Thiago já tinha a mania de catar minhoca por tudo. Estava sempre chafurdando a terra. Todos os dias atravessava a porta da cozinha e se sentava no quintal, onde começava a cavar com as mãos pequenas, arrancando tufos de grama e afastando as folhas que caíam do mamoeiro. Percebendo o movimento, os bichos se agitavam e iam cada um para um lado diferente, o que não impedia que o garoto conseguisse capturá-los. Nas primeiras vezes que Alex viu Thiago desse jeito no chão, ele espremia o corpo de cada minhoca, explodindo as entranhas dos animais para o deleite do menino. Dava para perceber que havia prazer em espalhar pedaços de minhoca pelo jardim. Por vezes colocava os bichos na boca, mas logo cuspia. Quando Alex não o deixava sair de casa, era choro na certa. Não se sentia confortável em dar uma bronca, afinal não era o pai. Ao mesmo tempo, não queria contar para a esposa as travessuras do enteado, já que isso poderia estragar a relação dos dois. Evitava ter de discutir sobre uma criança que não era dele. E assim os homens da casa acabaram criando um pacto de silêncio. Alex ajudava Thiago com as minhocas, e Eliane, uma enfermeira aficionada por limpeza e rainha dos plantões intermináveis, ficava sem saber de nada.

Um pouco mais velho, Thiago parou de matar as minhocas com as mãos, mas continuava a cavar o quintal. Assim como elas, esfregava o corpo no chão para poder pegá-las. Às vezes, ficava sem ar com tanta minhoca que aparecia na terra revolvida porque ele precisava fazer um esforço rápido para juntar o maior número possível numa tacada só. Sem um motivo aparente, o garoto passou a guardar os animais num pote de vidro. Na hora de dormir, colocava o recipiente na mesa de cabeceira com os bichos coletados durante o dia. A luminária ao lado, que ficava acesa a noite toda, projetava luas e estrelas no vidro das minhocas inquietas. Fechadas sem ar, amanheciam mortas. O garoto não se importava. No dia seguinte, despejava os cadáveres no fundo do quintal e iniciava uma nova coleta. Se a mãe estivesse em casa, o pote não podia entrar no quarto. Era o combinado. Para ela, o quintal revirado era obra dos gambás que circulavam pelo bairro.

Alex propôs de criar uma composteira para que o menino mexesse nas minhocas. Assim, eles não precisariam esconder mais nada de Eliane. O padrasto leu as instruções na internet, montou a caixa e colocou terra, cascas de ovo, cebola e mamão. Ensinou o garoto a mexer a mistura, explicando que era importante arear todos os dias para que as minhocas pudessem respirar. Como trabalhava em casa como TI, conseguia monitorar o garoto. Já no primeiro dia da experiência, viu o menino pela janela revirando todo o conteúdo da caixa com uma pá. Em vez de mexer para ajudar as minhocas, estava catando os bichos e jogando para fora. “Elas que se virem”, gritou o garoto. O padrasto tentou argumentar, mas não teve jeito. Pegou o menino pelo braço e o trancou no quarto de castigo. Depois disso, ligou para o médico, que não receitou remédio nenhum e recomendou que procurassem um psicólogo. Revoltado com seu fracasso, não foi atrás de terapia nenhuma, desmontou a composteira e abriu o quarto.

Thiago só mexia nas minhocas do próprio quintal. Não fazia isso na casa dos amigos nem no colégio. Além dos bichos, tinha uma fixação fora do comum pelo jogo da cobrinha no celular. Passava horas grudado na pequena tela, aumentando o tamanho do bichinho verde a cada fase que conquistava. A mãe não se importava. Achava até engraçada essa fissura por uma coisa tão sem propósito. Só se preocupava quando o garoto ficava transtornado por perder alguma partida. Fora isso, parecia uma criança como qualquer outra e assim foi até a adolescência, quando pediu ajuda para o padrasto para comprar uma guitarra, sendo prontamente atendido na esperança de que a fase das minhocas tivesse passado.

Aos quinze anos, montou com dois amigos uma banda de rock chamada “Worms come up to breathe”. Na letra da música principal, ele cantava que as minhocas do cemitério eram melhores. Já era estranho ver um marmanjo acocorado na grama de casa catando minhoca e agora o cara estava indo em cemitério e trazendo os bichos para casa para dormir? “Thiago, você anda revirando outras terras por aí?”, perguntou Alex. O enteado riu e, com os mesmos 1,75m do padrasto, colocou a mão no ombro dele e disse: “Para de noia, pa-pai. Descola mais uma grana aí. Tô a fim de um novo brinquedinho”. Terminou a frase dando uma piscadinha para o padrasto, que, mais uma vez, o atendeu. Nem perguntou quanto o jovem precisava. Abriu a carteira e entregou tudo que tinha.

Depois das fases da minhoca e da guitarra, agora o quarto do enteado passou a ser frequentado também por ratos. Tinha branco, marrom, mesclado. Se movimentavam rápido e dormiam embaixo do travesseiro ou na gaveta de meias e cuecas de Thiago. Alex não suportou a ideia de que algum deles escapasse e corresse pela casa. Por isso, comprou gaiolas que foram colocadas em cima do armário, cobertas por um lençol. Começou a trancar a porta e esconder a chave para que Eliane não entrasse. Queria evitar a todo custo que a mãe visse as esquisitices do filho. Nunca teve uma discussão sequer com a esposa em mais de uma década de relacionamento. Não havia briga dentro da casa, e ele tentava manter assim. Se fosse necessário, rastejaria pedindo para o enteado ficar quieto.

Thiago chegou aos 18 anos com mais de 1,80m, barba espessa e algumas tatuagens de diabo nos braços. Ele dormia no quarto quando a campainha tocou na manhã do seu aniversário. Eliane estava em seu dia de folga e preparava a mesa do café. Atendeu o carteiro que lhe entregou um pacote endereçado ao filho. Ficou intrigada que o remetente era um tal de Juan Pablo, do México. Deixou a caixa na ponta da mesa e continuou a colocar pratos, talheres e xícaras, além do bolo de chocolate, o preferido do filho. Já tinha batido duas vezes na porta do quarto de Thiago, mas ele não acordou. Curiosa e impaciente, decidiu abrir a caixa. Assim que passou a tesoura na fita crepe bege, alguma coisa saltou e se enganchou em seu pescoço. Foi tão rápido que nem deu tempo de ela gritar. Alex via televisão na sala e, ao ouvir o barulho da tesoura batendo no chão, correu para a cozinha. Era tarde demais. A cobra preta assustada, faminta e sem ar atacou Eliane, que morreu sufocada dentro da própria casa.

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