Psicopompo

(Susy Freitas)

Farejo a menina, basicamente. Faço o trabalho orientando pela Senhora, que me acompanha com curiosidade. Na vila, as buscas eram mais simples, mas na medida que nos distanciamos e a mata se torna menos bosqueada, começo a me preocupar. Foco, ela diz, pressentindo meus medos. As tochas que carrega tremulam na escuridão cada vez mais sufocante, gerando faces dentro de sua face enquanto o fogo dança sobre nós.

A mãe dera falta da menina um dia. Outros se seguiram e a ausência apenas aumentava. Da filha, restara um lenço de flores no chão, caídos ao lado de uma pequena vala que mais parecia uma cicatriz no descampado. É virgem, é virgem, a mulher repetia quando a Senhora a viu numa encruzilhada, entregue a prantos e à frustração. Outros tentaram ajudá-la antes, e nada. Mas a Senhora não era os outros. Compadeceu-se, e apesar do olhar frio como névoa, tomou-lhe das mãos o lenço e a foto. Era recente. No verso, uma letra cursiva, perfeita, dizia: “Ofereço esta foto a minha queria mãe Demétria, com muito amor. Tefé, 17/4/1983. Com essas pistas, farejo-a.

O brilho do fogo contorna os braceletes da Senhora, que junto a mim se embrenha na relva densa. Pouco lhe importa o vestido que se danifica mata adentro. Diz para seguir, siga, é para cá, como se já soubesse. Munida com a adaga, ela teme muito pouco, e eu mesmo tenho meus recursos além do terçado que abre caminho, cortando as sombras. Sinto-me entrando em outro mundo, onde a Senhora transita com a segurança de sua indiferença.

Num movimento das tochas, uma clareira surge, como se o sobe e desce do fogo conduzisse a um portal. Aqui, formas indistintas se movimentam. Troco o terçado pela pistola, que corre da bainha em questão de segundos. A senhora, por sua vez, mantém a adaga na cintura. Chegamos, ela diz, com seus três rostos que parecem bruxulear nas chamas. Um deles sorri, acho.

Procuramos Cora, ela diz, sem que eu consiga ver exatamente a quem se dirige. Ela não tem esse nome aqui, responde uma voz grave de homem, que se aproxima a cada sílaba. Eu sei, suspira a Senhora, repousando as tochas. A escuridão nos engole de vez. Apenas pelo barulho dos braceletes, tenho certeza que ela liberta os longos cabelos da trança de fios meio castanhos, ruivos e loiros. Venha, deite-se comigo, ela me solicita, Cora nos encontrará pela manhã. Mas Senhora, e os animais? Cobras? Onças?, retruco, dando-me conta que soo como um menino perante a mãe. Nada disso importa aqui, ela responde.

Ao lado da Senhora, descubro que repousa um corte de tecido. Sob o manto grosso e quente, fazemos amor por horas, apesar do cansaço. Nossos corpos parecem energizados, e as formas dela nunca foram tão macias e delgadas. Ela geme, descobre-se e a Lua Crescente ilumina-nos pela primeira vez. Há pelo menos uma dúzia de pessoas ao nosso redor, dormindo profundamente.

Pela manhã, todos se foram, exceto o homem da voz grave. Seu rosto espumante se contorce perante o espelho pendurado num galho, enquanto a navalha escorre e cava sulcos na barba farta. Ele caminha até a beira de um uma cascata cujas águas eu não ouvira antes. Venham, companheiros, venham. A Senhora, que acordara nesse meio tempo, levanta-se completamente nua e banha-se despreocupadamente. Sei que não devo acompanhá-la. O homem une-se a ela, e ali conversam demoradamente, entre pedras e a água cor de chá.

Sinto fome e decido explorar o local. A clareira ao lado da cascata era apenas uma parte do acampamento. Andando pela única trilha possível, chega-se a um ponto mais bem equipado, com três barracões de barro e palha e uma cozinha coletiva. Crianças correm despidas, enquanto que os adultos vestem, em sua maioria, roupas de banho. Uma tocador de fita ecoa uma canção hipnotizante, com guitarras, sinos e piano emergidos em uma voz agressiva e anasalada. Reconheço a menina entre os corpos e os sons. Ela admira a rotação do K-7 no aparelho à pilha enquanto ignora o calor absurdo que recobre seu corpo de suor e lhe cola os cabelos de brilho avermelhado na pele. Morde uma fruta branca de casca carmim, com cerdas que lembram pelos, balançando os pés no compasso da música.

Cora?

Não tenho esse nome aqui.

Perdão. Sua mãe pediu para procurá-la.

Eu sei. Você e a Senhora.

Você a conhece?

Eu a aguardava. Ela abrirá caminhos com sua chave, iluminará segredos com suas tochas e sua adaga será justa, como foi no passado.

Por que a menina diz isso? Como sabe da chave que a Senhora carrega no cordão, de cuja porta desconheço? E quanto a adaga, o segredo que me unia à Senhora? Ela me estende um dos frutos e a capa vazia da fita K-7. Nela, lê-se: The Stooges. Quatro rostos amarelos e intimidadores me encaram enquanto a menina ri copiosamente, limpando as mãos na enorme camiseta preta. Parece maligna, em nada virginal como na foto que lhe entrego em seguida. Rasga-a.

A cada dia que passo no acampamento dos Ctônicos, penso que consigo entender sua rotina, até o momento em que tudo muda. Dormimos na clareira, eu e a Senhora, às vezes cercados pelos demais, dependendo da Lua. Há noites em que fazemos amor, outras não, e em todas ela parece ter vários rostos através da luz do fogo. Não consigo distinguir quantos dias se passaram.

Nem bem o sol nasce, o grupo dedica-se à meditação. Depois, entregam-se a afazeres cotidianos, como reparar e limpar barracas e áreas comuns, preparar a comida, cuidar da plantação de ervas e alimentos básicos e cuidar das crianças, nunca na mesma ordem ou executados pelas mesmas pessoas. Também produzem mel, incomparável em cuidado e sabor, o qual consumimos em todas as refeições. Não há divisão entre homens e mulheres em nenhuma das atividades, assim como não parecem haver qualquer tipo de discriminação. Escutam Stooges diariamente, na maioria álbuns de rock, em horários aleatórios. Numa madrugada, ouvi berros vindos da área comum, mas eram apenas as crianças cantando as músicas da fita K-7.

Quaisquer dúvidas de ordem prática são dirigidas ao homem que conversara com a Senhora no igarapé. Por sua vez, ele consulta a Menina, cujo nome nunca é pronunciado. Apesar da aparente liderança, os dois dedicam-se às mesmas atividades diárias e repassam decisões mais complexas à votação dos Ctônicos. Apenas a pele do casal, muito clara, diferencia-os dos demais. Não fossem os blocos de manchas vermelhas de queimaduras de sol, seriam brancos como cadáveres. Os dois gerem o grupo entre sussurros, e por vezes, dá-me a impressão que o homem de semblante severo é, na verdade, mais benevolente do que a parceira.

A Senhora não se direciona nunca a ela. É a Menina que a procura. Na trilha entre a clareiras, seus caminhos se cruzam e, nas águas da cascata, nuas, acariciam-se com a familiaridade de irmãs. Conversam no que chega a soar como outro idioma, tamanha a mistura entre as palavras e a correnteza. A Menina mais ouve que fala. Séria, abre a boca com o que parecem ser perguntas ocasionais. Aprende com ela o cultivo de ervas especiais, que rapidamente crescem com o trabalho de mãos hábeis. Emula os jeitos da Senhora, passa a usar braceletes de fibras douradas, trançadas com uma palha de brilho incomum. O cordão de ouro com a chave passa do pescoço de uma ao da outra.

Cão, Cão!, a voz da Menina me chama na madrugada. O sono da Senhora ao meu lado é inabalável e ouço apenas os braceletes de fibra correndo nos braços da visitante. Ela cobre as crianças que dormem profundamente, um em cada braço da Senhora. Em breve estarei longe daqui. Você deve retribuir o que ela fez por você, e aponta para a adaga estendida ao lado da coberta, agora iluminada pela luz de uma lua incomum. Troca, tudo é troca. Lembre-se.

Ver a Menina levantando-se dali me confunde. Os corpos dela e da Senhora tornaram-se muito semelhantes, ou talvez seja o resultado da alimentação precária e alto consumo de chás que desconheço. Sinto como se a própria alma da mulher saísse de seu corpo através do movimento da moça, que segue para a trilha. Uma música atordoante começa a tocar, e não me recordo do alcance do som do toca-fitas ser tão alto como agora. A mata parece enlouquecer numa explosão de raias, que faíscam e se dissolvem diante de meus olhos.

Sigo-a. Os Ctônicos dançam em êxtase na segunda clareira, sob a Lua Cheia. Os movimentos logo revelam-se mais que uma coreografia, e sim, uma celebração orgástica. Meu amor, o ciclo se completa, a Menina diz ao homem, tocando-lhe os fios da barba com doçura e domínio, enquanto toma de suas mãos uma taça cheia do que acredito ser vinho. Juntam-se aos demais no sexo, uma massa indescritível de fluidos e gemidos.

Em pé, ao largo daquele organismo, tenho uma série de visões. Penso achar um animal decomposto, vermes moventes sob a carcaça, nutrientes descendo à terra, renovando-a, um ciclo interminável de vida e morte. A chave da Senhora toca o solo e abre uma explosão de flores e frutos cujas sementes reiniciam o ciclo inúmeras vezes perante minha cara embasbacada. Durante toda a revelação, a Menina flutua sobre nós com seu véu e coroa de flores brancas cobrindo os cabelos acobreados. O homem repousa os frutos vermelhos excedentes das explosões sobre os olhos dela, que se transformam na própria substância. Ela colhe o alimento dos globos oculares e os leva a boca enquanto sorri. Ainda assim, sinto que me enxerga perfeitamente, enquanto ele descansa em um trono de carne e ossos, protegido por um cão de três cabeças que baba e rosna estrelas. De súbito, eu sou o cão que entra e sai de dentro dos seis olhos que assistem ao fim e recomeço do mundo.

Acordo e a Senhora já está devidamente recomposta, sentada em sua confortável poltrona no casarão. O vestido vinho cai-lhe com dignidade. Apesar da luz do sol entrar impiedosamente pela janela, revelando-lhe rugas e alguns fios prateados, parece descansada, ao contrário de mim, que sinto o peso das olheiras no rosto e uma enxaqueca incomum. Levanto-me do chão da sala de estar e sento numa cadeira. Cora, estendida no divã, ignora minha presença, limitando-se apenas a admirar o cordão com a chave pendurado no pescoço ao som da tevê que ninguém assiste. A blusa de botões florida, com ombreiras e um tom rosa suave, dá-lhe um ar saudável ao refletir a cor na pele translúcida e contrasta com a lavagem do short jeans e os sapatos de couro.

Como chegamos aqui?

Silêncio, ela se aproxima.

Os tamancos de Demétria ressoam nos degraus que levam à entrada da casa e confirmam sua chegada. Agarra-se à filha, chorando, sem emitir palavras inteligíveis além de obrigada. Mas o alívio dá lugar à revolta rapidamente.

Onde diabos você estava, menina?!, pergunta, com a mão já estendida para o tapa, que não se concretiza graças ao olhar firme de Cora, que parece hipnotizá-la ou convencê-la da inutilidade do gesto. A Senhora lhe estende uma xícara de chá, a qual ela toma em goles nervosos.

Demétria, a menina precisa de orientação, a Senhora sentencia. O fardo é pesado, então por que não o dividimos? Ela deve ficar sob minha guarda por alguns meses.

A oferta é absurda, claro. Apesar de toda a gratidão, por que uma mulher aceitaria deixar a filha sob responsabilidade de uma desconhecida? Além disso, Cora não era mais criança, tinha 18 anos ou quase, e não havia sentido em deixá-la sob tutela de outra pessoa. Demétria, porém, acenou com a cabeça sem questionamentos, entregue às vontades das duas mulheres. Olho para a Senhora, e ela brinca com a chave de seu cordão entre os dedos.

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