Tranque a porta ao sair

por Américo Paim

Sete pedras de porcelanato branco entre mim e a mesa da secretária. Uma para cada ano de delito da empresa. Só associei números, mas não foi a primeira vez que aquilo me incomodou. Em uma conversa à toa com um colega no refeitório, dois anos antes, fiquei com dor de cabeça o dia todo porque ele disse que cada criminoso devia apodrecer na cadeia para sempre. Achei que estava prejudicando alguém de alguma forma e me perguntei se devia continuar. Ali no sofá da recepção, porém, eu não pensava mais em parar, aliás, não poderia e muito menos conseguiria. Devia muito ao Júlio, que me deu emprego quando eu afundava na merda. Gostava da ideia que ele tinha me ensinado tudo. Bem, tudo mesmo. O esperava há quase duas horas. Poderia ser mais, não importava. Ao vê-lo sair da sala do gerente, ninguém saberia dizer se apanhou ou bateu. Era o mestre das mil faces. O segui de pronto, ao passar por mim falando quase inaudível: “Robson…”.

Dois andares de escadas, cinquenta metros caminhados para a esquerda, uma rua atravessada e estávamos na oficina de manutenção. O barulho das ferramentas e máquinas falava mais alto lá fora quando nos acomodamos na pequena sala de reunião, no piso térreo do prédio. Trancou a porta e seu gesto de silêncio com o dedo me orientou. Sobre a mesa à minha frente, no post-it amarelo colado, em letras pequenas, li: obra grana segredo. A mera leitura da mensagem cifrada já me deixou em agonia. Um olhar duro e sem paciência fuzilou minha tentativa de abrir a boca para perguntas. A sua frieza sempre contornou minha precipitação.

Aquela cena me trouxe uma coceira no corpo o dia todo, até o fim da tarde, quando vi o plano em sua sala. Por ouvir a porta trancando atrás de mim, entendi ser grave. Ele ser responsável por contratar todos os materiais e serviços para a tal obra foi notícia digna de sigilo mesmo. Desejo antigo de controle total. Oito meses de trabalho, no canteiro da empresa vizinha. Coisa grande, de milhões. O olhar cínico e o sorriso curto e maligno saboreavam ter sido ele mesmo quem aprovou o orçamento, que dava para mais meia obra pelo menos. Não fazia ideia como conseguiu tal proeza, mas estava longe de surpreso. Eu falar ser um passo de grande risco, estar em dúvida por ser muito dinheiro, ter medo por tanta gente de olho, de nada serviu. Eu me sentia um pouco menos culpado lhe mostrando minhas inquietações que ele parecia não ter. Aquele levantar e caminhar lento pela sala significavam que ele já planejava o que vinha e me ignorou. Afinal, ele era o chefe e eu não tinha ou jamais teria todas as informações.

Poucos dias e o mundo já rodava. Era eu a andar aflito na minha sala. O post-it rosa com os códigos queimava em minhas mãos: coisas bid trinta churrasco terça; tools bid quinze bar feriado; clean nota vinte vestiário sexta. Pagador documento quinhão local quando – era claro para mim, só não aparecia meu medo de sempre, não apenas pelo ilícito, mas por tudo ser em dinheiro vivo. Ao lhe devolver os post-it, rotina de sempre, a prestação de contas. Nada em meio eletrônico. Eu ria calado e nervoso vendo a empresa elogiando seu mérito de negociador, por economizar o orçamento. Ele memorizava tudo e confiava que nunca seria descoberto. Aqueles valores altos e inéditos foram meus pesadelos por semanas.

***

Não tive como ignorar a conversa na mesa ao lado. Era a primeira vez naquele restaurante de frutos do mar, fora do meu círculo de frequência. Me pareceram empresários. Pesquei uns números altos, mas meu garfo com o risoto parou no ar com umas palavras: esquema Júlio facilitado padrão bolada. A mão molhada do garçom pouco me acrescentou. Calado, o chefe apenas me ouviu, ao final disse para eu esquecer e achei que minha pressa em lhe contar de nada valeu.

Menos de uma semana e os caras estavam na recepção da sala de Júlio. Era importante, senão eu estaria junto. O big money era sempre resolvido com ele sozinho. Tentei pista com a secretária, Dona Salete, mas ela não fazia ideia. Era fornecedor novo, só sabia isso. Estranhei não ter sido chamado assim que saíram e minha cabeça esquentou com teorias inúteis.

Tanto tempo depois, eu mal me lembrava, mas o assunto voltou. Na minha sala, um post-it azul veio de seu bolso da camisa para minha mesa: contrato independência breve. Mudo, recolheu e colou outro: aguarde silêncio complicado. Saiu e nada foi dito por vários dias, mas era claro seu novo comportamento, com tensão e evasivas.

Então veio o convite diferente que me causou surpresa. Uma reunião, mas na casa dele, local desconhecido para mim. Assunto de privacidade total. No dia combinado, eu não fechava a boca diante do luxo e ostentação do apartamento. Móveis, adornos, equipamentos, piso e paredes, tudo era impressionante, em fino acabamento. Foi um choque. Entendi porque era tão discreto e mal se sabia onde morava. Seu salário de chefe de setor não pagaria um terço daquilo. Ali, em imagens reais, o abismo entre minha vida e a dele. A balança revelou-se. Migrei da admiração para o incômodo. Me deixou deslumbrar por instantes e fui conduzido até seu amplo escritório.

O uísque escocês dezoito anos adornou a conversa. A joia da coroa era um contrato exclusivo de longo prazo, preços ótimos, vantagens comerciais idem e exclusividade. Além, claro, do teatro de uma concorrência. Tive que lhe encarar para acreditar no valor da comissão que me mostrou. Parecia uma obra inteira. Dinheiro que nem sabia se faria em dez anos, sem contar os riscos. O seu lento e calado recostar na cadeira me avisou que tinha mais coisa. A grana viria, mas era a última. Os caras queriam alguém deles lá. Júlio teria que assinar uns papeis isentando a empresa e sair de cena. Era garantido e sem retaliações. A avenida se abria para ele, mas o beco sem saída era meu: não havia verba para mim. Não conseguiria seguir sem ele, concluí. Fim de linha. Recebi o mesmo olhar de fuzil ao gaguejar mais detalhes e um pedido por uma parte daquilo. Aviso para não me meter. O show era dele. Ouvi a porta trancar de novo atrás de mim, mas eu não estava mais na sala. 

***

Fim de tarde de sexta-feira e a imagem no espelho do banheiro do corredor não era fiel à intensidade da derrota que sentia, após duas semanas passadas do último encontro com Júlio. Foram dias de rei, sob xeque em tabuleiro de xadrez, fugindo dos ataques. O cerco fechava. Não o via ou ouvia, apesar de ele ainda estar na empresa. Eu seguia impressionado pelo volume de dinheiro e com raiva e indignação porque não receberia nada. Um frio estranho correu o corpo de volta à minha sala. Havia um post-it amarelo na frente da gaveta inferior da minha mesa, com caligrafia conhecida: abra. Pensei pouco antes de cumprir o comando. Dentro havia um envelope pardo e grande com outro adesivo: prudência. Era grande e volumoso. Entendi que deveria abrir em casa ou longe dali. Dividindo olhares entre o trânsito e o pacote no banco do carona, cheguei e entrei no apartamento.

Uma bolada de dinheiro, que não consegui me concentrar para contar logo, e uma folha A4 em vários post-it colados, de uma cor só, no fundo do envelope, que tomou minha atenção de imediato. Para minha surpresa, mensagem direta, sem códigos: “A conversa que me ouviu naquele jantar foi forjada por mim. Precisava testar sua lealdade para avançarmos. Sua recompensa”. A sensação de desconforto me acompanhou enquanto andei pela sala a ruminar o que fazer.

Com mais uma latinha aberta e contemplando da minha modesta varanda o cenário de luzes e edifícios, reordenei os acontecimentos. O jantar, o padrão de vida dele, o novo contrato milionário e a grana absurda que ganhou, ele saindo na boa e eu sozinho dentro da empresa com a herança das jogadas ilegais e o medo de ser apanhado a qualquer momento. Eu e minha preocupação com os riscos. Foi coerente então ter feito a denúncia anônima à Diretoria há dois dias. Faltou calma, sobrou medo. Como eu perderia menos? Com o mesmo sorriso filho da puta na cara, aprendido com ele, resolvi não desperdiçar o que recebi e agir rápido. Bastava sair e trancar a porta, sem precisar voltar mais àquela sala. Ou a qualquer outra.

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