(Bruno Vicentini)
O taxista apontou pro luminoso do Realeza Hotel. Chegamos, disse.
Antes que o carro parasse de todo, joguei no banco do carona duas notas de dez mil cruzeiros e fui abrindo a porta, puxei a mala, botei em cima da cabeça porque chovia, fechei a porta com um empurrão de pé e corri. Me abriguei embaixo de um toldo azul furado. O hotel ficava na Rua Piratininga, quase na esquina da Avenida Brasil.
Era meu primeiro fim de tarde em Maringá. Nunca tinha andado de táxi, de intermunicipal também não. Uma senhora de vestido longo, que estava sentada sozinha na frente do hotel, assim que me viu saindo do táxi de mala na mão tacou longe o cigarro com um peteleco e correu pra dentro. De seu colo, pulou um gato de três cores. Entrei atrás dela. Disse que precisava de um quarto pra passar a noite. Ela se apresentou, seu nome era Mara, a gerente. Pedi o quarto mais barato que tivesse. Ela pegou a chave de um painel na parede, uma tábua de madeira com pregos batidos pela metade. Vem comigo, disse.
Foi o taxista quem me sugeriu aquele hotel, quando eu expliquei que tinha vindo pra cidade atrás de emprego. Um tipo de boina xadrez e bigodes compridos, que pareciam pintados de preto. Você vai gostar, disse, sempre indico esse hotel, o Realeza, pra rapazes como você. Fiquei curioso pra saber o que ele queria dizer com aquilo, mas não perguntei. No caminho me deu seu cartão: Reginaldo Faixa-Preta.
O quarto tinha o chão forrado de carpê verde-musgo e cheiro de mijo de gato. Calculei que o dinheiro que o padrinho tinha me dado ia chegar pra cinco ou seis diárias, se eu não gastasse com mais nada. Precisava arranjar logo um trabalho. Antes de dormir, busquei na mala o meu pandeiro. Não toquei. Fiquei deitado com ele sobre o peito, sentindo nas mãos a textura do couro e ouvindo a chuva bater descompassada na lata da janela.
Passei três dias percorrendo a Brasil, de loja em loja, atrás de uma vaga de emprego que não existia. Subi até os lados do Maringá Velho. Eu acordava cedo e me entupia da comida do café da manhã. Sem que ninguém visse, fazia um sanduíche de salame ou presunto e embrulhava com guardanapos, metia no bolso da calça.
As lojas todas pediam alguém com experiência e eu não tinha nenhuma. No terceiro dia, na Praça do Peladão, um bêbado mencionou uma ótica que tava contratando, na Avenida Rio Branco. Eu não sabia onde ficava a Rio Branco e resolvi ligar pro Faixa-Preta de um orelhão. Ele chegou em menos de um minuto.
E aí, gostou do hotel?
O que tem pra gostar?
Bom, se você ainda não sabe.
Olhava mais pra mim, pelo retrovisor, do que pra rua na sua frente.
O dono da ótica era um velho sem as duas pernas do joelho pra baixo. Parado no batente da porta da loja, apoiado pelos cotovelos nas muletas, era como se me esperasse. Lembrei de Vô Romalho, lá na roça, que passava o dia tomando cerveja e chupando laranja. Quando soube o que eu queria, o velho me dispensou logo. Disse que ali naquela cidade ninguém chegava de táxi pra pedir emprego, não.
Faixa-Preta me esperava na frente da loja. De certo sabia que eu não conseguiria nada. Voltamos ao Realeza. Na frente do hotel, assim que estacionou, assoviou pra uma moça que tava sentada na mesma cadeira de fios onde encontrei Dona Mara no dia em que cheguei. Ela sorriu. Mais uma vez atirei uma nota grande demais no banco do passageiro e saí sem esperar o troco. A moça me olhou quando passei quase correndo ao seu lado, disse algo que não parei pra ouvir.
Ao lado da mala, achei o pandeiro destruído. O couro rasgado, cortes curtos que pareciam feitos por garras de animal. Conferi as janelas, trancadas. Gato maldito.
Me atirei na cama pensando em desistir de tudo. O dinheiro ainda chegava pra uma passagem de volta. Deitado, fiquei escutando os ruídos que vinham dos outros quartos, cujo volume alguém parecia agora ter aumentado, barulhos que preferia não ter ouvido. Não consegui dormir.
No dia seguinte, perdi o café.
Quando desci, encontrei Dona Mara atrás do balcão, rabiscando papéis. Coloquei o pandeiro na sua frente, com cerimônia. Ela olhou pro instrumento e depois pra mim, só por um momento, sem parar de fazer o que estava fazendo. Em seguida ergueu o pandeiro pelas platinelas, usando o polegar e o indicador, os outros dedos muito esticados, como se segurasse as cuecas de um inimigo.
Não foi o Mel, disse.
Como você sabe, Dona Mara?
O Mel não sobe as escadas. Não entra nos quartos.
Eu ia dizer que Mel Gibson era um nome imbecil pra um gato. Em vez disso, mandei ela passar a régua.
Dona Mara quis saber o que tinha acontecido. Contei que nada tinha dado certo. Ia voltar pra casa, pra velha vida. Não podia ficar ali sem trabalho.
Por que você não me disse antes, garoto? Talvez eu tenha algo pra você aqui mesmo. Preciso de alguém pra arrumar as camas, ajudar na limpeza. Um faz-tudo. O salário é pouco, eu sei, mas tem um quartinho no térreo onde você pode dormir. É um começo.
Era, sim, um começo.
Faz assim, eu te explico tudo amanhã, tá bem? Tira hoje o dia pra você.
Eu não sabia o que fazer com um dia pra mim. Fiquei andando pelo Centro. Depois parei numa banca de jornal e fiquei ouvindo o que as pessoas contavam pro jornaleiro. No fim da tarde achei um orelhão e liguei pro Faixa-Preta, disse que ia ficar na cidade.
Na primeira noite que passei no quartinho, sonhei com um corcunda que tocava pandeiro na feira, sem saber que o sonho era outra coisa e que o corcunda era eu.
