Helô Mello
Catador(a)
Conheci JB no terreno de uma casa recém demolida. Nós dois procurando tesouros. Já encontrei joias, relógios e até dinheiro dentro de roupas velhas descartadas, ele me disse. Sou um caçador de fortuna. Ajudei meu filho a comprar uma casa. Consigo ter uma renda, mas escolhi essa vida e ter minha liberdade, uma vida sem horários.
Foi assim que tudo começou.
JB, mesmo com a barba grande que mal dava para definir a idade, juntava de tudo sem perder a expectativa de encontrar uma fortuna. Ele fazia parte de uma turma de catadores que trabalhava em um centro de reciclagem que recebia papeis e metais. W, drogado, era o único que tinha celular e uma gíria diferente, difícil de entender. Diziam que ele era da periferia estrangeira, por isso esse jeito de falar. Estava sempre pálido, com olheiras apesar de bem disposto. Galo, o mais quieto deles, magro e alto, era casado com Silmara de cabelos vermelho combinando com as unhas. Eles gostavam de procurar material para revender só nas caçambas.
Eu era apaixonada por fotos de famílias, imagens órfãs, abandonadas, que ninguém mais se interessavam e jogavam no lixo. Buscava em todos os lugares. Nas vendas do tipo “família muda-se” podia encontrar alguma coisa, mas em lugares como os lixos e caçambas encontrava melhores materiais. Minha vida era como de uma catadora, nunca saía de um lugar sem carregar alguma coisa.
Não foi difícil compreender que poderíamos fazer uma parceria. Eles eram diferentes de morador de rua, tinham um trabalho e uma outra visão de mundo, que de alguma maneira, compartilhávamos. Quando encontravam fotos ou álbuns deixavam na minha portaria. Sabiam o que me interessava. Devolvia no dia seguinte um envelope com o dinheiro. O porteiro, que já os conhecia, me avisava quando chegava alguma novidade. A partir da parceria começaram a valorizar mais a fotografia como arte que antes seriam misturadas aos papeis para serem recicladas.
As semanas se seguiram e JB, W., Galo e Silmara entregavam na portaria seus tesouros e em troca deixava os envelopes com o dinheiro que eles passavam para retirar. Se estabeleceu uma rede segura para ambos de trabalho e benefícios mútuos. A essa altura já tínhamos uma tabela de preço mais lucrativa do que o kilo de papelão: $ 10,00 por foto em estado razoável.
No verão passado JB me aguardava no banco da praça na frente do meu prédio. Levei um susto. Gostava de caminhar e só uso o carro quando a distância é muito longe ou tenho pressa. Lá estava JB, com a mesmo conjunto calça e camiseta preta de sempre, surrado mas charmoso, e um álbum de fotos de casamento nas mãos. Quando termina o casamento isso é primeira coisa que vai para o lixo, ele disse. E o álbum estava mesmo em excelente estado. Fiquei encantada. Ele estava empolgado, e me disse que me esperava havia dois dias para me entregar pessoalmente o seu achado. Desconfiei que ele havia dormido na praça essa noite, mas não perguntei. Só agradeci.
Passaram se alguns dias e lá estava JB no banco a minha espera: Estou há dias esperando você sair! Parou de caminhar, aconteceu alguma coisa? Estranhei a pergunta. Tinha ficado gripada e não saí por uns dias. Ele trazia outra surpresa. Um lote de 22 álbuns de fotografias de uma florista com seus arranjos florais. E na semana seguinte, JB me esperava com outro lote de fotografia de escritórios, devia ser de um decorador ou arquiteto, que fotografava os lugares vazios. Fotos frias, sem pessoas, um álbum profissional, imaginei.
O hábito de me cercar foi ficando mais intenso, ele ficava nervoso quando não aparecia e seu cabelo mais assentado, reparei. Comecei a mudar os horários de saída, pedi para ele deixar na portaria seus tesouros, mas não havia jeito, ele sempre estava a minha espera. Comecei a evitar sair a pé. As vezes pegava o carro e via pelo retrovisor ele no mesmo banco. Não contei para ninguém. Quem ia entender que JB apenas estava apaixonado? Meus amigos não compreendiam tão bem meu interesse por esse “lixo”, como diziam quando me amolavam e eu desisti de argumentar. JB me vendia presentes que nenhum dos meus namorados jamais conseguiria me oferecer. Mas a minha liberdade estava tolhida e me sentia ameaçada.
Nessa época me mudei de casa. Perdi o contato com todos e seus tesouros. Não consegui avisar Cesar, ele já não devia ter mais o celular, ou talvez tivesse trocado por alguma mercadoria.
Passei a frequentar a feirinha do Bexiga, agora bem próxima da minha nova casa, porque desse hábito não abri mão. Preciso das histórias dessas memórias abandonadas para criar as minhas próprias fantasias. Encontrei em algumas barracas material interessante, mas quase sem alma. Sentia falta de meus amigos, de suas histórias e especialmente de JB e seus achados.
Semana passada me aproximei de uma barraca que me pareceu nova ou nunca tinha dado conta de sua existência na feirinha. Era JB que estava a frente das vendas. Agora sem barba, menos catador e mais comerciante, matinha seu charme, um pouco misterioso. A arte não tem barreiras, ele me disse. Aprendi com você, por isso estou aqui. Sabia que iria te encontrar algum dia.
