por Américo Paim
Quando esse caso se deu eu só tinha dois anos na empresa. Com meu jeito bem-humorado eu já conhecia o povo quase todo por lá. Era encarregado de empacotamento e ia bem. Meus amigos também não iam mal. Edvaldo, do administrativo, um branquinho caniço meio xoxo, com aquele olho de sapo, cabra sério, observador e bom com os números, logo ia ganhar uma promoção. Isso tava na cara. Botei apelido nele: magro. Já Justino, de suprimentos, chamava todo mundo de pessoa. Menino pintoso, cabeludo assim feito galã de novela, agreste que só, ia demorar mais um tanto. Trabalhava duro e certo, mas os mangangões não gostavam de encrenqueiro. Pra meus chapas eu era o Zeca e a gente tava sempre junto.
Nosso supervisor, Seu Walter, era caladão, mas gentil quando conversava. Você contava com ele. Pouco se misturava com a equipe, nem mesmo em hora de almoço. Tinha uns quinze anos no gato. Vivia sempre arrumado, limpo, com três canetas de cores diferentes no bolso da camisa de botões bem passada. Reparamos que quando ficava sem paciência, alisava o bigode espesso. Por causa das sobrancelhas quase emendadas passava a impressão de estar sempre com a cara fechada, mas os olhos claros quebravam um pouco isso. Nunca tinha notado nada de estranho nele, até aquilo em 1994, vinte e sete anos atrás. Foi Edvaldo quem viu primeiro um dia no refeitório e ficou me atentando o juízo:
– E a chefia, véi? Olhe ali na mesa.
– Colé a de mermo, rapaz?
– Tá com uma cara enfezada da mulesta.
– Oxe, e daí? Só você eu já vi assim umas mil vezes.
– Não, é outra coisa. Parece que nem tá aqui.
– Deixa o home… Vai ver brigou com a mulher e dormiu na sala. Ela é braba?
– Que eu saiba ele é sozinho, tem ninguém não.
– Deve ser nada. Termina seu almoço, peão.
– Sei não. Ali tem coisa.
Não dei muita trela na hora. Só que outros comentaram depois, então fui atrás. No cafezinho, na oficina, no vestiário, catei daqui e dali e juntei as peças. Ele tava era muito retado com o gerente dele, Dr. Armando, homem mais grosso que parede de cadeia, que tratava todo mundo muito mal e ninguém dava testa.
Em uma sexta-feira de junho, Seu Walter me chamou na sala dele. Lembro bem porque naquele dia eu ia comprar o presente de aniversário pra minha mulher depois do horário. A entrega que a empresa fez em Alagoinhas tinha virado problema grande. Ele precisava de mais detalhes sobre o que aconteceu e eu lhe falei tudo que sabia. Me disse que eu iria com ele em uma reunião com o chefão. Chegamos na recepção da sala e a secretária pediu para esperar. Não demorou e entramos.
– É esse aí o encarregado?
– Sim, senhor, é o José Silva.
– Já vi por aí.
– A gente se falou uma vez, Seu Arman…
– O assunto é grave e está se repetindo. Mais da metade da carga chegou com danos nos pacotes e alguns estavam abertos. O cliente registrou queixa formal. O que têm a me dizer? Quando isso vai acabar?
– Nós estamos investigando e…
– Chega de desculpas!
– Senhor, já lhe expliquei. A linha automática de fechamento tem problemas sérios. Precisamos resol…
– Não quero mais ouvir! Acha que vou dizer aos Diretores que um sistema que entrou em operação outro dia e custou milhões não funciona? Quero resultados e cabeças! Cansei da incompetência de seu setor! Você mal sabe fazer “O” com copo, assinar nome com “X”! Não tem é pulso com seu pessoal! Coloque sua equipe no eixo ou eu vou fazer isso! É só!
Me deu medo, não vou mentir. Quando saímos da sala, ele tava pra explodir, vermelho, puto, mas silencioso. Me mandou reunir o pessoal. Achei que eu ia morder a boca. Passou o recado com uma frieza que vou lhe dizer. Mal mexia os braços e nem tocou no bigode. A turma tava assustada, ouviu quieta e dispersou logo, sem muita conversa.
Acontece que os problemas continuaram. Fui em outra reunião daquela e a coisa foi ainda mais pesada e humilhante. O ignorante convocou todos nós encarregados, que ficamos na sala de espera, de frente para a sala dele, que ficou com a porta aberta. Só Seu Walter entrou. Os berros eram ouvidos no prédio todo. A secretária com uma cara de vergonha que dava até pena. Foi rápido, mais ou menos assim:
– Sabe ler? Veja aqui o e-mail do diretor! Acha que vou aguentar muito mais essa merda? Resolva, porra!
– Se o senhor pudesse ir na expedi…
– Eu vou é pra rua se isso não parar! Mas vai todo mundo antes, caralho! Não fica um aqui!
– É que o senhor preci…
– Não quero mais ouvir! Quero um relatório completo até o fim do dia! E com soluções! É só!
Ele sabia que sua equipe inteira estava ouvindo aquela baixaria toda, porém saiu de lá com uma calma estranha. Ficamos de cabeça baixa. Reuniu todos de novo e decidimos tentar usar o mínimo da máquina. Ia dar mais trabalho, mas os problemas diminuiriam.
A situação melhorou um pouco, mas ainda em junho teve o troço esquisito no refeitório. Seu Walter fez um bolo de comida no centro do prato e moldou feito um tijolo bem pequeno. Com o resto da comida fez quatro montinhos em volta, nas quinas do retângulo. Sua cara não mostrava emoção. Bebeu água e olhou o prato. Aí desmanchou o que fez, levantou e foi embora. O ritual se repetiu quase todo dia em junho e julho. Sempre o mesmo padrão. Às vezes, parecia que tava rindo enquanto derramava molho ou ketchup no montinho do meio. Outras vezes meio que rezava ou falava sozinho. Eu não conseguia enxergar tudo que ele futucava no prato, mas no fim sempre desfazia e ia embora. Fui conversar sobre aquilo com meus amigos. Estava cismado.
– Você viu, magro, eu sei que viu.
– Falei que ele tava meio besta das ideia.
– Tá demais isso. Será que é o jegão do chefe dele enchendo os colhões?
– Acho isso, Zeca. Ele é problema puro, pessoa, problema.
– Eu queria saber se tá tudo bem com ele. Nosso chefe é legal.
– Pra que? Fica na sua. Ainda vai sair de puxa-saco. Tô dizendo.
– Rapaz, essa coisa da comida não tem pé nem cabeça…
– Velho, saia dessa lama aí. Deixa quieto.
Na última sexta-feira de julho, Dr. Armando saiu de férias e fiquei aliviado que não rolou demissão. Na segunda-feira, já no limite de curiosidade e preocupação, convidei Seu Walter para almoçar no refeitório, mas ele recusou de forma educada. Tentei ao longo da semana, sem sucesso. Ele ficava sozinho, sempre.
Uma semana depois, uma coisa mudou. Depois de derramar o molho, sorriu mostrando os dentes e comeu tudo! Na terça, ele repetiu. Decidi perguntar no outro dia, sem falta.
Quarta-feira de manhã, quando passava na rua do prédio administrativo, vi um carro da polícia em frente à Diretoria. Corri e me juntei ao grupinho que já tava ali. Mal cheguei e saíram pela porta principal dois homens, jeitão de meganha com… Seu Walter! Um susto! Devia ser algum engano. Ninguém sabia ou não queria falar. Quinta-feira cedo, na hora do café, Justino entrou no refeitório, corrido.
– E aí, pessoas, viram o jornal? Viram?
– O que foi, véi?
– Dr. Armando! Mataram o home.
– Como assim? Dá aqui essa porra!
– Olha aí na primeira página! Tem até foto. É ele!
A manchete era bem clara: “Executivo da Transportadora Passos Dias Aguiar encontrado morto no Parque dos Flamboyants!”. Na reportagem dizia que a polícia já tava com um suspeito na delegacia.
– Olha na policial, olha, pessoa!
No topo da página uma fotografia grande, muito boa, daquelas tiradas do alto, dizendo que era o lugar que encontraram o corpo. Outra foto tinha o nome do detido: Walter Cardoso Pinheiro. Era ele mesmo. Ainda meio besta, voltei para a outra foto. Minha boca nem fechou quando percebi que era uma praça, com um flamboyant em cada canto, como um retângulo. No centro, um monte alto de folhas secas, com quatro fileiras do que pareciam gravetos saindo dele na direção de cada uma das quatro árvores, como que formando um “X”. De acordo com o texto, embaixo daquela pilha, em uma embalagem com a logomarca da empresa, tão bem fechada que deu muito trabalho para abrirem, estava o corpo. Perdi a fome.
