Susy Freitas
Tu é leso, é? Vai-se à merda! Foi só o que a Ilana conseguiu dizer quando mostraram pra ela lá no hotel. Eu, que já trabalhei naquele inferno, arrumei a vaga lá pra ela, até imagino como é que foi: o manobrista mostrou pro recepcionista, que mostrou pro outro recepcionista, que mostrou pra menina do restaurante que ele come no banco de trás de um Golzinho depois do expediente, que mostrou pra menina dos drinks que é a única que suporta aquela abestada, que calha de ser uma fofoqueira, claro, né, e em questão de horas, tá aquele bando de viado tudo fofocando. O estagiário, coitado, boiando, né?
Mas olhe, é a bicha é parecida mesmo a Ilana, deus que me perdoe. Quando eu abri o vídeo que tava passando de mão em mão naquele hotel, puta-que-me-pariu, eu não sei como que ela não perdeu o emprego, ó. Maninha do céu, a mulher tinha o cabelo assim daquela cor meio um amarelo, assim, como que eu explico, ai, igualzinho o da Ilana, pronto. Aquele amarelo dum ovo meio estragado? Pois é. A cara tava com uma máscara, né, tipo essas de baile antigo de carnaval, sabe? E a mulher era com um pela frente, um por trás, na cara, segurando com as mão, aquele toma-te, toma-te, toma-te, mas era uma se-nho-ra putaria. Só não te mostro agora que meu celular tá cheio de vírus, não consigo mais mexer nada nele. Mas eu te juro, eu nunca tinha visto um negócio daqueles. A mulher esbagaçada. Aquilo ali, depois de aberto, num fecha mais não.
Aí o final tu imagina, né? Aquela melequeira em cima da mulher, bem uns seis macho, tudo ao redor. Tu já imaginou o cheiro disso? Misericórdia! Não, agora me espere pra completar a desgraça. O tal do vídeo não veio do celular de cicrano, beltrano. Tava era na internet já! No tal dos xvideos. Num tem, xvideos? Ih, tu conhece, é? Eu não conhecia isso não, que eu não mexo com essas coisas! Enfim, o vídeo tinha título já, não sei quantas mil visualizações, um monte de comentário. E detalhe, o título: “Casada de Manaus servindo a tropa libera tudo”. E liberou mesmo, que eu vi.
Mana, a Ilana veio desesperada falar comigo do tal do vídeo, jurou de pés juntos que não era ela, que não sabia o que fazer lá no hotel, tava aperreada a bichinha, olha. Eu falei “Minha nora, fale com seu marido logo, converse com ele. Ele que conhece suas intimidades vai saber melhor que ninguém que não é você ali, mesmo porque você nem tem tempo pra essas coisas, minha filha. Passa a madrugada naquele hotel fazendo check in praquele bando de turista chato pra caralho. Ô coisa nojenta é turista! Meu filho vai ver um negócio desses e vai é rir, não fique agoniada, não”.
Ela demorou um tempo ainda, ó. Eu fiquei de bico calado, que eu sabia que ia dar merda. O Ney é brabo pra porra. Eu só ia era assistir o barraco de camarote e pagar de doida depois, que velha serve é pra isso, né? Tô aproveitando minha terceira idade, com licença. Só sei que eu vi uma, vi duas, vi três, vi um monte de vezes aquele vídeo pra tentar descobrir se era a Ilana ou não era. Porque aquela imagem é assim meio ruim, né? Escura. Eu acho que era rodado tudo de noite esses filme. Mas olhe, tu sabe que quando o Ney apareceu lá em casa com aquela menina, eu fiquei meio desconfiada. Sabe quando o santo não bate? Mas depois passou. A Ilana era na dela, nem fedia, nem cheirava, e ele gostava dela mesmo. Daí passou.
Só que depois dessa do vídeo, eu liguei meu radar, que eu não sou lesa. Fui fuçar naquele tal de xvideos atrás da casada de Manaus e pelo amor de Deus, como tem corno nessa cidade. E o que tem de corno, tem de talarico. Tinha vídeo demais, Se-nhor! E eu fui mexendo, mexendo, e não é que tinha um monte de vídeo da mesma casada de Manaus? Era vídeo no motel, no mato, em tudo que é canto. Mulher, até na Avenida André Araújo tinha! Já pensasse nisso? Naquela buraqueira. Aí de novo, sempre de máscara ou com a cara borrada, e a voz mexida, aquela voz de pato Donald falando “Olha aqui, meu corninho, seus amigos, o que tão fazendo? Gosta?”. E eu vendo aquela presepada, só esperando se a mulher ia tirar a máscara ou se iam esquecer de borrar alguma parte com a cara dela. Já tava perita em vídeo pornô, mas nada de desvendar o mistério.
O jeito era reparar nos trejeitos da casada e Manaus pra ver se a coisa ia: o jeito de segurar as trosoba, de fazer coração com a mão depois de levar porrada dos macho. Eu fazia kikão sem picar a salsicha dia sim, dia não, só pra ver como que a Ilana ia segurar as bicha. Fazia com bem molho, pra ver como que ia cair no decote, como ela ia lamber pra limpar. Ela tava cabreira ainda, então o jeito era meio diferente, mas tinha vezes que batia uma dúvida. É tipo assim, quando eu chamei ela pra me ajudar a lavar o pátio lá em casa, ela com aquela mangueira, toda molhada de short de lycra e sutiã do biquíni, bem garota camiseta molhada. Eu olhava aquele rabão pra cima, encarava mesmo, e mana, olha, era a casada de Manaus todinha!
E nisso a mulher nada de contar pro Ney. Eu ficava atiçando, né? “Olha, Ilana, veja logo esse assunto com seu marido, que esse negócio assim na internet, alguém chega e mostra pra ele, é pior!”, “Minha filha, não esconda essas coisas do meu Ney” e num sei o que lá. Ela toda vida “Hoje eu conto, Dona Ceiça”. Só sei que nesse hoje eu conto, hoje eu conto, ela passou bem um mês enrolando. Isso a fofoca correndo solta no hotel. Até promoção ela ganhou, é mole? Praquele bando de corno depositar meu FGTS, foi a maior frescura. Esse mundo tá perdido mesmo! Não, e ainda aparecendo mais vídeo da casada de Manaus nos xvideos, que eu conferia todo dia. A bicha era uma máquina do sexo selvagem!
Quando a Ilana enfim contou pro homem, foi no Domingo lá em casa, que eles vão no final de semana. Eu tava terminando de assar as carne no quintal, vendo o meu Rodrigo Faro, e ela chamou o Ney pra lá. Ela bem pensou que qualquer coisa eu ia acudir, coitada. Os dois sentado nos tijolo que sobraram pra churrasqueira, suando feito porco. Explicou lá pro Ney a bronca, toda azeda a bicha, e tu nem sabe: ele rindo, rindo, rindo. O homem se abria e a menina toda se tremendo ainda. Fiquei pas-sa-da, que o Ney é todo metido a machão, ciumento desses de arrumar briga no forró se falarem saliência pra Ilana. Ele se ajoelhou na frente dela, beijou a mão, parecia um príncipe encantando, quer dizer, mais ou menos, que o menino tava só de bermuda tectel e Kender, né? Mas todo bonitão ainda, meu filho. Claro, foi eu que fiz, né? Parece o Luan Santana com aquele cabelo. Eu contando essa arrumação de vídeo e a reação dele, ninguém acredita. Eu fiquei tipo “Égua?”, mas te juro que foi assim.
Depois da grande revelação, as coisas mudaram. O Ney já tratava a esposa bem, mas passou a tratar como uma rainha. Só faltava carregar nas costas que nem um jegue. E o pior é que ele mostrava o vídeo pra todo mundo! Ficava tirando por piada. “Essa dona aqui que a Ilana ficou com medo de eu achar que era ela? Tu já pensasse? Só na cabeça dela!”. E ele levava o vídeo pro futebol, e mostrava pros colega tudo, e subia pro bar da Dona Helena e dava o play pros bebo verem, era assim. O povo ria aquele sorriso amarelo, ficava com cara de pomba lesa, porque era óbvio que a mulher era igualzinha a ela. Eu ficava só reparando os macho depois tudo educado com ela na frente do Ney quando ela ia atrás dele na Dona Helena. Ofereciam umas calabresinha, um Skarloff, só faltava dar na boquinha, tudo pra ela ficar naquela imundície com eles, mas a Ilana ia embora com a fardinha do trabalho, nem dava bola a casada de Manaus. Toda bonitona, com aquele cabelão de água de salsicha, e o Ney botando o vídeo pra rodar de novo. Começaram a mandar presente aqui pra casa também, pra entregar pro casal, é mole? Pro casal é meu ovo! Uns açaí de Codajás, saco daquela farinha ovinha redondinha, aquela boa mesmo. Até banda de tambaqui eu recebi lá. Fiquei foi com tudo.
Apesar das minhas desconfianças, meu filho nunca esteve tão tranquilo. Até ir menos na Dona Helena ele passou a ir. Quanto mais vídeo da casada de Manaus aparece na internet, mais bonzinho fica. Tá sempre bem humorado, deixa o café pronto pra Ilana quando ela chega do trabalho todo santo dia, tu precisa ver.Semana passada ele apareceu com um monte de Romanel pra Ilana, cada brinquinho mais lindo que o outro. Peguei foi um pra mim, de borboletinha. Tá passando menos lá em casa também. No final de semana, agora ele chama a macharada pra jogar video game, diz que. Quando eu ligo pra eles no domingo, é a coisa mais difícil atenderem. Começaram a chamar ele na rua de Neyzinho Paz e Amor. Vez ou outra eu pergunto, “Meu filho, mas tu tem certeza se essa não é tua mulher?”. Ele só ri.
