Canibais

Silvia Argenta

Foi o som do assobio. Eliane preparava a mesa do café da manhã quando ouviu o barulho dentro do pacote, endereçado ao filho Thiago. Entregue pelo carteiro um pouco mais cedo, estava fechado porque o rapaz ainda dormia. A mãe já tinha batido duas vezes na porta do seu quarto para acordá-lo e nada. Havia terminado de arrumar pratos, talheres, xícaras e um bolo de chocolate para o aniversário do jovem que chegava aos dezoito. Estava pronta para passar o dia comemorando com o filho, ainda mais depois da sessão no salão de beleza que a deixou com cabelos, unhas e sobrancelhas impecáveis. Incomodada com o som que atravessava o papelão, ela decidiu abrir a caixa com uma tesoura. Assim que rompeu a fita crepe, uma cobra de cabeça preta pulou em seu pescoço. O marido Alex estava na sala e, ao escutar algo diferente, correu até a cozinha, onde encontrou a esposa deitada no chão com o animal enrolado nela.

Ela estava estirada com os olhos pretos arregalados, destacando as sobrancelhas bem arqueadas, que pareciam duas minhocas acima dos olhos. As mãos pequenas e arredondadas espremiam a pele rosa da cobra que deslizava como sabonete pelo pescoço branco. Quando o bicho deu uma volta em seu próprio corpo, Eliane cravou as unhas vermelhas nas escamas, o que fez com que ele apenas levantasse a cabeça, mais para verificar o que estava ocorrendo do que uma reação de dor ou algo do tipo. A cobra abriu a boca e assobiou, quase encostando a língua bifurcada no nariz da mulher prestes a desmaiar.

Nesse momento, foi bem aquela sensação que só quem passou por algo parecido sabe como é. Num infarto, ataque epiléptico ou trauma na cabeça, os sentidos se confundem, o oxigênio não chega e o estômago embrulha. Eliane vivia tudo isso. As minhocas acima dos olhos quase se encontravam tamanha a retração do rosto, agora mais enrugado do que o habitual para uma mulher de cinquenta anos. A pele branca passou a ficar rosada e depois vermelha, um indicativo de que a explosão era questão de tempo. Aliás, muito pouco tempo.

A cobra se preparava para contrair ainda mais o corpo liso no pescoço enrugado para impedir a circulação de sangue de Eliane quando Alex pegou a tesoura do chão e apunhalou o animal diversas vezes. Com a mesma rapidez com que se enrolou na mulher, a cobra se desvencilhou dos dois e saiu rastejando pela porta. Alguns golpes atingiram de raspão o rosto da esposa, não provocando grandes ferimentos. Porém, o sangue de Eliane e da cobra se misturou no chão, manchando o piso de porcelanato bege. Enquanto ele telefonava para chamar o socorro médico, viu a cobra de quase um metro subindo em espiral pelo tronco do mamoeiro no jardim.

Após toda essa movimentação, Thiago se levantou e foi até a cozinha. Num primeiro momento, não entendeu o que havia acontecido com a mãe, ainda deitada ofegante no chão, inspirando forte. Alex desligou o telefone, pegou o enteado pelo braço e perguntou quem era Juan Pablo, do México, o remetente do pacote. O rapaz tentou responder algo, gaguejou e, por fim, disse que não sabia de nada. O padrasto o empurrou com as mãos e se ajoelhou para ajudar a esposa, cheia de hematomas no pescoço e cortes no rosto.

Poucos minutos depois, a ambulância chegou à casa da família. O socorrista perguntou o que havia acontecido e Thiago se prontificou a explicar. “Foi ele!”, apontando para o padrasto. “Esse verme maldito atacou minha mãe, que quase morreu sufocada. Por sorte, acordei e deu tempo de ajudar”, completou o rapaz quando se deu conta de que havia chegado à maioridade. Como iria explicar uma encomenda em seu nome com uma cobra importada ilegalmente? Alex sempre o protegeu. Desde a infância, escondia suas manias e hábitos estranhos da mãe. Não seria dessa vez que teria problemas com isso, ainda mais agora que poderia ser preso. O padrasto não reagiu nem falou nada. De que adiantaria? Ficou de pé observando o socorrista colocar um respirador e aplicar uma injeção com um remédio para a mulher parar de sentir dor. Enquanto isso, sem que ninguém percebesse, Thiago pegou a caixa de papelão onde estava escrito seu nome e a jogou no terreno vizinho por cima do muro.

O socorrista estava agachado monitorando a pressão e os batimentos cardíacos para avaliar se era necessário levar a paciente ao hospital ou não. Na dúvida, acionou o rádio preso no colete e falou de forma cifrada com o assistente, dentro da ambulância, para que chamasse a polícia, afinal parecia um caso de violência doméstica. “Atenção, 021”. Como enfermeira de pronto socorro, Eliane sabia o que significava o código, mas não conseguia falar. Sua glote estava estreita e não tinha nem forças para tirar o equipamento do rosto, que embaçava a cada respiração sibilante. Além dos olhos esbugalhados, só esboçava alguma expressão com as sobrancelhas que subiam e desciam sem algum sentido aparente. Em pouco tempo devia apagar por conta do medicamento forte.

O assistente fez o chamado à polícia e na sequência entrou pela porta da cozinha, que estava aberta. Disse que havia recebido a orientação para averiguar um suposto estrangulamento por ofídio. Alex balançou a cabeça para cima e para baixo. Para ganhar tempo, o assistente então pediu que o padrasto e o enteado se sentassem à mesa para que explicassem o que tinha acontecido.

Thiago não se sentou nem esperou pergunta nenhuma. Partiu logo para o ataque. Queria dar um bote no padrasto antes que ele falasse alguma coisa. “Não tem nada de ofídio não. Ele usou essa desculpa esfarrapada porque não é a primeira vez que minha mãe sofre nas mãos desse infeliz. Acordei assustado com os berros e quando entrei na cozinha vi ele sentado em cima dela, com as mãos apertando o pescoço. Ela já estava roxa e foi por pouco que não desmaiou. Veja aqui a tesoura e o chão ensopados de sangue”, gritou apontando para o piso.

O socorrista, que vestia luvas nas mãos, passou os dedos pelo pescoço da paciente e identificou alguns pontos arroxeados que indicavam que a agressão foi feita por alguém muito forte. Olhou para o marido mirradinho e desconfiou do relato. Nisso, o assistente se abaixou, pegou a tesoura e colocou num saco plástico. “Confirma a informação, senhor?”, perguntou para Alex. O padrasto se sentia sufocado e não sabia o que dizer. Ninguém acreditaria que uma cobra saltou no pescoço da esposa, e ele não tinha certeza de qual versão Eliane apoiaria. Eles formavam um casal equilibrado, sem discussões e com mais de dez anos de convivência, mas ao mesmo tempo sabia que a prioridade dela era seu filho.

Sem resposta, o assistente pressionou: “De fato está difícil de acreditar que do nada uma cobra entrou na cozinha e atacou sua mulher no pescoço. De onde ela veio? Cadê ela?”. Alex chegou a pensar em ir até a árvore procurar pelo animal, mas provavelmente ele nem estaria mais no terreno da casa. Ficou tão confuso que nem se lembrou do pacote que veio do correio com o nome do enteado como destinatário da encomenda que atacou a esposa.

Aos poucos, a cor do rosto de Eliane voltava ao normal, assim como sua respiração. Mesmo sentindo dores pelo corpo todo, conseguiu tirar o respirador e sussurrar para o socorrista pedindo que cancelasse o chamado à polícia porque não queria fazer nenhuma denúncia. Se apresentou como enfermeira e disse que sabia que remédios tomar para se restabelecer. Tudo que precisava era de uma boa noite de sono. Desconfiado, o socorrista falou que ia registrar o pedido da paciente na ocorrência. Assim, retirou o chamado, arrumou as coisas e foi embora com o assistente.

Thiago esperou que eles saíssem e só com a família em casa foi para o ataque contra o padrasto. “Você me fez perder dinheiro, seu cretino. Sabe quanto custa uma cobra dessa?”. Sem esperar, foi até o jardim tentar buscar o bicho. Passou a tarde procurando e não encontrou. Apesar de grande, Thiago obedecia a mãe, que o mandou ficar trancado no quarto de castigo, impedindo quaisquer que fossem os planos de aniversário dele. Alex pesquisou na internet sobre o bicho. Era uma muçurana, um tipo de serpente inofensiva. Também descobriu que o único perigo é que gosta de comer cobras peçonhentas. Isso seria perigo ou solução? Não sabiam. Fato é que os três ouviram assobios durante a noite toda.

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