Seu lugar é aqui

por Américo Paim

Entre conhecer, namorar e casar, o tempo de quatro estações. Parece rápido, mas quando Verônica apareceu na vida de Isidoro, o impacto foi grande. Ela era tão bonita que ele pensou nem merecer. Grandes olhos escuros, cabelos pelos ombros e aquele sorriso constante. Vinda da chamada família mais humilde, foi bem educada pela avó materna depois que perdeu os pais em acidente de trem, dez anos antes. Um espírito livre que trouxe leveza para aquele rapaz quieto e travado, mesmo com apenas vinte e três anos, um a mais que a moça. Estavam à beira dos anos 1960.

Os primeiros dois anos de casamento foram bem o que Isidoro sonhou. Viviam no bairro do Bonfim, em uma casa modesta, mas bem arrumada, com varanda de ladrilhos, porta e janelas de madeira e vidro, muro baixo e jardim florido. Ela cuidava de tudo da casa e ele trabalhava no negócio de móveis populares que a família mantinha em Salvador. Eram duas lojas. A maior era na Avenida Sete, tocada por seu pai, homem conservador e autoritário, chamado Moisés. O irmão mais velho, homônimo do pai, cuidava da loja da Calçada, onde o caçula ainda inexperiente se dedicava muito para aprender logo e ter reconhecimento.

No terceiro ano, Verônica mudou seus hábitos. Quis estar mais com pessoas amigas. Café na Rua Chile, sorvete na Cubana da Praça Municipal, reuniões sobre serviços de caridade no Abrigo Dom Pedro II, os eventos se multiplicavam. O marido se esforçava para entender que era difícil para ela ficar em casa o tempo todo. Não foi criada daquela forma. Ela lhe contava tudo sobre seus passeios, empolgada. Nos relatos quase sempre aparecia o nome de Doralice, pessoa que ele só conhecia das histórias da esposa. Era uma amiga de longa data, dos tempos da infância na Ribeira, que tinha voltado, após quatro anos morando no Rio de Janeiro.

Por causa das rotinas do trabalho, todos os dias Isidoro encontrava o pai que, como bom comerciante, sempre ia ver o filho no serviço, para acompanhar de perto. Em uma conversa aleatória, ouviu as novidades.

– Está muito feliz com a campanha no abrigo.

– Não seria suficiente uma doação?

– Ah, o senhor sabe, ela gosta de participar.

– Estar perto do negócio é básico.

– O que o senhor quer dizer?

– Que fique atento. Ela sai muito.

– Tem tempo livre. As coisas de casa não lhe ocupam tanto.

– É só me dar um neto que se resolve.

– Já lhe falei sobre isso, pai. Não queremos agora.

– Onde se planta laranja não nasce banana.

– O que quer dizer?

– Que o lugar de uma esposa é em casa.

– Mas os tempos estão mudando. Não acha…

– Vá trabalhar que é melhor.

Isidoro seguiu cada vez mais afundado nas tarefas da loja e as saídas dela continuaram. As conversas entre pai e filho cada vez menos amistosas. Sem paciência e convicto de que não era atendido em seus conselhos, Moisés contratou os serviços de um detetive para apurar as andanças da nora. Não demorou a descobrir que a amiga Doralice só apareceu no abrigo no início de tudo. Nunca mais depois. Da mesma forma, soube que nas tais reuniões só estavam Verônica, Dona Nélia, assistente social e Dr. Moacir, jovem médico voluntário que lá trabalhava em parte de seu tempo. O rapaz era muito gentil, bonito e todos gostavam dele. Logo virou o foco do investigador, que via de longe as conversas animadas com a moça nos jardins da instituição.

Antes que Moisés decidisse como abordar o assunto com o filho, as coisas vieram à tona. O primeiro relatório de um encontro no apartamento de Moacir, na Barra, lhe caiu nas mãos e o pai decidiu agir. Ordenou que fosse avisado de nova oportunidade e não muito tempo depois, uma quarta-feira à tarde, soube por telefone que estava acontecendo. Deixou a loja e chegou rápido ao local. Não lhe custou muito pagar ao porteiro por informações e confirmar que aquilo já tinha ocorrido uma ou duas vezes antes. Com o apoio do funcionário e uma chave mestra, entrou no apartamento e flagrou o casal sem roupa na cama, cena clássica. Controlou a fúria, ignorou os apelos dos dois e apenas a informou que aguardaria no térreo do prédio e que fosse sozinha. Moacir lhe disse que era o momento para resolver tudo, mas ela o demoveu e encerrou ali o que mal tinha começado. A confusão atraiu pessoas para a frente do prédio e elas assistiram à cena toda. Com cara de desespero e em silêncio, ela ouviu o que o sogro acreditava que viria a seguir, suportando a agressividade e as ameaças dele, com dedo na cara e voz alta e irritada. O escândalo estava garantido. Ele a obrigou a acompanhá-lo à empresa, de onde telefonou de sua sala para o filho, diante dela, explicando o que aconteceu, sem todos os detalhes, porém. Em seguida a levou em casa.

A conversa com Isidoro foi difícil. Ela admitiu tudo, chorou e implorou perdão mil vezes, dizendo que se deixou seduzir. Se sentiu mais sozinha do que imaginava e acabou fraquejando, mas o seu amor por ele era maior e ela queria continuar o casamento. Pediu de todas as formas, até de joelhos. O homem de calma aparente acabou ali. Ele reagiu muito mal, quebrou vasos, chutou móveis, xingou e gritou. Mostrou o tamanho de sua decepção, falou das tantas horas a mais trabalhando até tarde para garantir o conforto e segurança da família e que ela não tinha respeitado aquilo. Humilhou-a com todas as palavras que conhecia, lhe dizendo o tamanho do erro que ela tinha cometido. Deixou claro a sorte dela por ele ser um homem de equilíbrio, lembrando que se fosse anos atrás, a sua honra seria lavada com sangue. Após uma hora tensa, lhe falou que iria encontrar com seus pais e voltariam ao assunto no seu retorno. Que ela aguardasse em casa.

Diante da família reunida, Moisés não aliviou para o filho. A situação era inaceitável, sem espaço para concessões. A honra dele e de todos estava em jogo e ele precisava responder à sociedade com firmeza.

– Eu lhe avisei! Podia ter evitado isso!

– Como? O que queria que eu fizesse?

– Tomasse as rédeas de seu casamento!

– Não devia ter se metido!

– Ainda achou ruim? Lhe poupei da cena!

– A vida é minha!

– Não vai tomar providência com a vagabunda?

– Não fale assim dela!

– Tem palavra pior…

– O senhor não se atreveria.

– Ela tem que ir embora já! É uma mancha na família!

– Eu decido isso.

– Quer colocar remendo na roupa enquanto sua mulher costura pra fora?

– Não admito que fale assim!

– Você é muito mole. Só volta ao trabalho quando ela sair de sua casa.

– Está me ameaçando?

– É uma decisão e ponto final.

– Pois eu vou dar outra chance a ela.

– Você é um idiota se fizer isso!

Com tal desfecho desgastante, sua mãe não ousou apoiá-lo. O irmão tentou contemporizar, mas o pai foi taxativo: ele estava fora da empresa e pararia de receber os benefícios: “não criei filho para ser corno”. Se ele não conseguia administrar a mulher, não servia para os negócios também. Que ele se virasse para tocar a vida. Isidoro saiu derrotado. Estava sozinho e se sentia perdido. Voltou para casa e não disse palavra. Foi uma noite quase em claro, pensando sobre tudo.

No dia seguinte saiu cedo e só voltou perto da hora do almoço. Chamou a mulher e informou a decisão de continuarem juntos, ao que ela reagiu com alívio, mas ele colocou condições.

– Você não sai de casa sem mim até segunda ordem. Para nada.

– Mas eu fico muito sozinha.

– Não está na posição de fazer exigências.

– Só estou falando.

– Pensei nisso, apesar de tudo o que você fez.

Caminhou até a caixa que havia trazido da rua e guardado longe da vista de Verônica. Colocou sobre a mesa da sala de jantar. Era uma máquina de costura, nova em folha, como lhe disse. Ela não entendeu suas intenções.

– Preste bem atenção. Eu preciso trabalhar e fui expulso da loja por sua causa.

– Mas não pode voltar? Eu falo com seu pai, faço o que ele quiser!

– Nada disso vai funcionar. Escute o que vai ser.

– Que pesadelo…

– Só tenho essa casa e preciso de algum dinheiro para recomeçar em outro lugar. Você vai assinar o documento me transformando em único proprietário, com plenos poderes para vender. Não quero você envolvida em nada. Chega de escândalos. Quando o dinheiro aparecer, a gente vai embora.

– Mas o que faço até lá?

– É onde entra a máquina. Você sempre soube costurar. Isso pode render uns trocados. Vai fazer

  roupas de cama, fronhas, cobertores, tudo com material bem barato. Sei onde vender.

– Está bem.

Durante os dois meses seguintes, enquanto Verônica trabalhava sem parar, entrando pela noite, Isidoro ficava em casa o tempo inteiro assistindo a lida da mulher. Só saía para comprar mais tecido e estava sempre ao telefone, mas ela não conseguia ouvir suas conversas. Ele estava longe de ser amoroso, mas não a tratava mal. Agia como um patrão, com ordens e cobranças. Ela entendia que precisavam do dinheiro, então deveria esperar com paciência e sem reclamar. Um dia, ele a surpreendeu no café da manhã.

– Consegui vender a casa, mas precisamos sair até a hora do almoço.

– Que ótima notícia! Por que assim tão rápido?

– Vendi porteira fechada.

– O que é isso?

– O comprador fica com tudo que tem dentro.

– Não podemos levar nada?

– As roupas. Basta uma mala. Depois compra de novo.

– Então tá, vou fazer logo. Para onde vamos?

– Tem uma oportunidade em Santa Margarida, no interior de Minas. Lhe conto no caminho.

Verônica se apressou em preparar tudo e encontrou Isidoro já ao volante. Reparou a máquina de costura no banco de trás e que o fundo do carro estava um pouco baixo. Ele lhe disse que colocou as roupas de cama que ela havia costurado no porta-malas e a máquina poderia ser útil.

Saíram da Baixa do Bonfim e ele seguiu o rumo do Comércio. Apesar de ouvir perguntas da mulher o tempo todo, ele permaneceu sério e em silêncio. Quando estavam no meio da Ladeira da Montanha, em direção à Praça Castro Alves, ele reduziu a velocidade e parou em frente a um dos vários bordeis. Atônita, ela o viu descer do carro, retirar as roupas de cama, colocar na calçada e pôr a máquina de costura sobre a pilha. Em seguida, abriu a porta do carona, arrancou a mulher de lá e a empurrou na direção das roupas, fazendo com que caísse na calçada. – É perfeito para você morar e trabalhar.

– Seu lugar é aqui.

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