Continuidade dos sonhos

(Bruno Vicentini)

Dormir na casa da vó não era como dormir em qualquer outro lugar, Sabrina sabia muito bem. Seu lugar favorito no mundo era o quarto que ela tinha na casa dos avós; e o que Sabrina mais gostava de fazer quando estava lá era dormir. A vó tinha decorado o quarto especialmente para ela, um quarto muito simples, mas que Sabrina amava. Gostava do cheiro do quarto, uma mistura de flores brancas e babalu melancia; gostava do fato de que a vó tinha costurado ela mesma as cortinas, as almofadas, a colcha quadriculada da cama; gostava da porta do quarto, que não era bem uma porta, era uma franja de retalhos pra não deixar entrar os mosquitos; gostava sobretudo de como a vó arrumava a cama pra ela dormir, logo depois do jantar, fazendo uma dobra no edredom com todo o capricho e deixando à mostra o lençol muito branco que havia por debaixo. Na mesa de cabeceira, um abajur aceso e uma moringa com água, e ao lado a cadeira pesada de madeira com encosto de veludo verde, onde a vó se sentava e lia pra Sabrina um livro pequeno de capa dura, sempre o mesmo, até que Sabrina pegasse no sono, isso desde pequenininha, o que a levava a suspeitar, agora que havia crescido um pouco, que a vó talvez estivesse inventando todas as histórias.

Nas manhãs que se seguiam, Sabrina se sentia muito feliz, cheia de uma energia diferente. Tanto que, não era raro, pedia aos pais pra dormir na casa dos avós, sempre que se sentia triste por qualquer motivo. Antes de se levantar, ficava deitada por um minuto a mais e tentava puxar pela memória, sem sucesso, a história que a vó contava no dia anterior, e o momento exato em que tinha adormecido. Os sonhos de Sabrina naquele quarto também não se pareciam em nada com os que ela tinha quando dormia na própria cama – eram antes fragmentos de um mesmo longo devaneio. As histórias que a vó contava, por sua vez, eram muitas, e muito variadas.

Sem saber se no sonho ou na história, Sabrina subiu a rua escapando de uma brincadeira que as crianças faziam, e era a rua da casa dos avós. Entrou pisando descalça no encerado vermelho e foi direto ao último quarto, como de costume; cruzou a porta de franja de retalhos e sentiu imediatamente cheiro de flores brancas e babalu melancia, depois se sentou na cadeira pesada de madeira, no lugar de sua vó, mas antes acariciou com a mão esquerda o veludo verde do encosto, uma vez e outra. Na cama, a vó com os dedos entrelaçados sobre o peito, os cabelos ainda brancos, ainda mais brancos que o lençol. Entre as duas, na mesa de cabeceira, ao lado do abajur aceso e da moringa, um punhal. Sabrina precisava decidir, naquele momento, se inventaria a história que estava prestes a ler no livro pequeno de capa dura.

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