Devorar sabedoria
Helô Mello
Foi um golpe de sorte e de vento. Minha mãe, uma rainha, foi atraída pelo cheiro de papel e madeira. Perdeu as asas, parou de voar e de sonhar. Foi quando nasci. Pouca luz, silencio e comida farta nos fazem bem. Sou operário, cavo tuneis. Trabalho de manhã à noite e levo comigo um batalhão. Mas o que me diferencia de meus irmãos vorazes é o gosto pelo conhecimento.
Na primeira página senti a gramatura do papel, fino, mas de boa qualidade, brevemente embolorado. Fiz um pequeno buraco e me aprofundei. Ao meu lado um senhor me encarava. Devia ser alguém importante pois sua roupa e pose reforçavam o orgulho que seu olhar sustentava, mesmo com as falhas na lateral esquerda de seu rosto. Passei rente e não me interessei por ele. Dou preferência às obras de arte, as cores me atraem e gosto de interagir com as composições, criando novas formas. Meus irmãos são velozes e não me dão a oportunidade de revisitar com cautela as obras preferidas que se esfarelam logo que eles as atravessam. Eles cortam, perfuram, sem qualquer cuidado ou consideração.
Caminho por lugares mais distantes do grupo, espaços ainda não explorados, para criar galerias secretas em busca de cores: o azul tem um sabor ácido e adocicado, por isso é o de minha preferência, já o vermelho é um pouco picante, o amarelo tem uma pitada bolor, e o preto e branco um sabor mais sóbrio. Gosto do tempero sépia, que combina bem com blocos massudos de texto corrido.
À noite, com menos movimento, investigo por suas entranhas, seu peso e volume, um pouco mais de sua sabedoria. Sinto pena de vê-la consumida sem cerimônia, com tanta avidez e urgência. Abro caminhos, com cuidado, em busca de tesouros ainda não revelados. Encontro uma mulher descomposta que me olha indagando meu segredo. Me entoco acompanhado de seu olhar. Ela sabe que em breve sua boca quase aberta e suas longas pernas serão devoradas? O sabor de anotação, na margem de uma página, me desvia a atenção. A sujeiras das mãos descuidadas deixaram suas marcas salgadas nos lugares mais consultados. As áreas repletas de fungos reservo para a sobremesa por serem mais doces.
Devoro lentamente a celulose para digerir conhecimento. Será que ela me compreende? Pergunto sem resposta.
Já vivi dias mais glamorosos, quando ficava na sala e todos me consultavam, não só para as lições escolares, mas para fazer uma pesquisa de trabalho, ou por pura curiosidade sobre uma palavra, um pensador ou um tema. Quando cheguei, estabeleceram regras de cuidados para me manusear. As crianças eram pequenas e não podiam me tocar, só olhar, no colo dos adultos, que me desvendavam pouco a pouco, me folheavam com cautela e liam alguma curiosidade em voz alta. Era muito valiosa. Depois me mudaram de lugar e, de novo, fui ficando esquecida e inútil, perderam o respeito, até que vim parar nesse canto, escuro, onde fungos me mancharam e cupins insistem em me devorar.
Confesso um breve prazer de ser engolida aos bocados; gosto quando um, só um desses insetos, me come com cuidado, escolhendo o caminho, as cores, como se escolhesse as palavras e os temas que mais o interessam. Me abro para ele e parece que ele me escuta, descobre meus segredos há tanto tempo fechados que nem eu mesma me lembrava mais. O pó, que um dia fui, acumula em pequenas montanhas atrás das estantes. Há muito, deixaram de me manusear. Me desintegro por dentro, mantendo as aparências. Ilustres pensadores, enterrados há tempos, têm suas ideias seguindo o mesmo caminho. Eu, que fui tão importante e viva, hoje obsoleta, sou consumida por um bando voraz de cupins que dilui o conhecimento nos seus dentes. Em breve, serei um esqueleto frágil, uma fina lombada de enciclopédia abandonada que vai se esfarelar nas mãos de quem me tocar.
