Por Susy Freitas
A barra desce do teto ao chão. Sob as luzes pulsantes do clube vazio, é como um raio que atravessa os céus em espiral, brilhando o roxo, o rosa, o verde e tudo o possível desse espectro. Seu rastro, porém, é sempre o cinza gélido e sólido para onde estendo meus dedos, pronta para registrar ali, junto a incontáveis digitais, minha existência. Estou sendo fichada.
A senhora da limpeza testemunha nossa troca de olhares de caubói, alheia a tormentos e esquemas internos, enquanto El Patron, numa cadeira de plástico que sofre para sustentar seu peso bem no meio do salão, divide a vista entre o celular e a indiazinha ruiva em seu colo. Ela rói a tampa de uma bic, que faz vezes de pirulito.
“Me mostra o que tu sabe fazer… Nicole”, ele diz, uma pausa entre o decreto e o meu nome falso despontando dos lábios da menina direto para o pé de seu ouvido, “Mostra e o emprego é teu”. Os lábios da ruiva, que tal como ela não devem ter mais de catorze anos, retornam borrados ao rosto, o batom rosa choque lhe colorindo a fenda entre os dentes. Olhamo-nos nos olhos, reconhecendo no rasgo deles e na pele morena e lisa algo de nossas raízes, algo tomado por homens como El Patron. Homens de quem agora tentamos tirar cada centavo.
De uma por uma, ajusto as dezenas de tiras de couro e o encaixe de suas dobras nas argolas metálicas que atravessam meu corpo inteiro. Eles cobrem os roxos nas coxas e nas panturrilhas, e revelam os bicos dos seios, as carnes dos grandes lábios e as bandas da bunda. Quando termino, a senhora da limpeza enfim para por um segundo. Segura a vassoura com apenas uma mão e, com a outra, leva o indicador e o polegar à altura da boca que se abre, quase sem dentes. Expande a distância entre os dedos, como quem diz “sorria”. Fecho a cara, passo as mãos nos cabelos negros para me certificar de que fiquem embaraçados e felpudos como se fosse um poodle do mal, e as pontas quebradas batem no meio de minhas costas feito chicotes, um lembrete de minha posição servil que está prestes a mudar.
Faço um sinal e a ruiva aperta o play.
Ruge primeiro um acorde de guitarra como que de um filme de faroeste. Depois, a base do baixo ansioso. Em seguida, o grito do sax. Uma voz rouca então ofega por todo o espaço: insect, incest! É a deixa. Seguro o frio metálico da barra com firmeza, ao ponto de meus braços e ela começarem o processo de fusão. Tornamo-nos um no balanço da inércia que criamos juntos, eu e ela, enquanto ensaio um primeiro giro, ainda com os pés no chão. Caminho em seu entorno com passos de tango, até que o impulso certo me descola do solo e pedalo no ar.
Agora, o clube é como o carrossel de um pesadelo. El Patron, a ruivinha e a faxineira passam girando pela minha vista e logo se tornam outra coisa, uma coisa de cabeça pra baixo. Presos ao teto, o trio se assemelha a moscas. São gosmentos, suados, refletindo suas cores de inseto e esfregando as patinhas a cada aplauso entusiasmado. A vassoura de um lado para o outro adiciona uma dinâmica de batida de asas a esse quadro de Giacomo Balla.
Eu desço, eles sobem e escorro as coxas para trás com o tronco bem firme na barra. Insect, incest! É a deixa. Quando meus pés tocam o chão novamente, meus braços sobem e me torno uma estrela de cinco pontas na escuridão colorida do palco, o pole logo atrás, empalando minha silhueta não mais pequenina. Alongo-me, expando-me, e minhas canelas se empalidecem como que num estalo de dedos. O movimento me cobre de gelo seco, e sinto os portais do inferno se abrindo logo atrás de mim. O fogo, o calor, a certeza de um submundo prestes a consumir os pecadores em expiação eterna.
Nick, the stripper, a-hideous to the eye, decreta o amplificador. É só o tempo de ele repetir o verso para que um novo impulso me parta das pernas e dos braços, e quando ele começa a esbravejar Well he’s a fat little insect!, já sou outra coisa: uma coisa moeda, cara ou coroa, girando rápido demais, forte demais, cheia de ódio e vigor. O horizonte se encurta, colapsa, e logo a ruiva, a faxineira e El Patron são engolidos para dentro do meu mundo, mas que mundo exatamente? Um mundo liso, inflamável, de listas e chamas bruxuleantes. Eu giro sob a lona do meu picadeiro, nele e com ele, a barra cada vez mais quente, as mãos, mais vermelhas, nada além da palavra Inferno sobre meu torso nu, liso, branco, suspenso por um jeans preto em frangalhos e botas de caubói.
Entram os condenados, ou melhor, saímos todos da fenda que se abre entre as listras da lona do picadeiro. Lá fora, misturamo-nos à multidão de pecadores, banhados todos pela mesma luz, de uma fogueira gigante de Burning Man. Os músicos tocam suas guitarras, baixos, e a trilha sonora para o fim do mundo é tão alta que é como se estivessem ligados a uma potente caixa de som, embora nenhuma esteja à vista. A procissão caminha em círculos, atordoada, El Patron cada vez mais arfante por carregar o peso de suas dobras transbordantes de suor e lágrimas. A faxineira, logo atrás, se benze três vezes, apavorada perante a visão da tatuagem nas costas dele que não para de se mexer. Livrai-me de todo o mal, amém.
Roxo, já quase sem ar, El Patron arranca fora a camiseta Lacoste falsificada, revelando o cordão de ouro com uma Estrela de David sobre o esterno, sua última esperança. No encontro com a luz, a estrela derrete e escorre para o sapatênis, mas o rombo que lhe deixa no corpo queima como ácido. É quando ele acelera na direção contrária, sumindo nos limites da multidão. É quando sinto uma mão morena de menina na minha mão branca de homem. A ruiva. Ela rói a tampa da bic sem grande interesse, como se já tivesse aberto as portas do inferno em muitas vidas.
“Você demorou”, diz a menina.
“Apenas se você acredita no tempo”, respondo, com uma voz grave e sotaque australiano.
E rimos.
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Para ler ouvindo: https://www.youtube.com/watch?v=l5I2vEcVC_I
