O pano amarelo

por Américo Paim

Dentre os colegas recém-chegados à faculdade de Engenharia, aqueles dois se tornarem amigos foi uma surpresa. Criaturas tão diferentes. Após poucas semanas de aulas, era fácil perceber um abismo entre eles.

Um era Douglas, que vinha do ensino particular, das chamadas escolas de bacana de Salvador. Alto e magro, com um rosto fino, triangular, barba rala e olhos meio saltados. Mais esquelético ainda por quase sempre usar camisetas sem mangas, o que lhe custou algumas reclamações de professores mais conservadores e piadinhas sem graça. O andar desengonçado e a mania de coçar os braços o deixavam bem esquisito. Falava baixo, em pausas, entretanto, sua serenidade garantia audiência. Era mais de observar que outra coisa. Em uma turma recheada de “cdf”, ele conseguia se destacar. Tinha escrita de traço firme e padronizado e seus desenhos pareciam saídos de alguma máquina de tão bem feitos. Mesmo sendo tão discreto, logo virou um dos oráculos da excelência universitária, a quem quase todos procuravam na hora do aperto.

O outro, Eliseu, vindo de escola pública, de estatura média e bem forte. Não o tipo malhadão de academia, até porque eram os anos 1980. Ginástica mesmo, prática de esportes. Era seu lado saudável, mas tinhas outras facetas. Cultivava barba de homem das cavernas e cabelos desgrenhados, que achava o máximo. Sua figura assustava pela voz alta, os gestos de exagero e o figurino desassistido. Inteligente, irônico, de pavio muito curto, com amizades em núcleos barra pesada. Não era raro exibir marcas de combate na pele morena. Havia nele uma energia violenta. Apesar da dificuldade de concentração, sua performance acadêmica era bem aceitável. Todos iam atrás dele por dicas de festas e afins. Bom de copo, sua popularidade era muito grande. Era mais temido que respeitado. Seus críticos falavam que tinha nível de vida estranho às suas possibilidades.

Uma carona os aproximou. O fusquinha azul de Douglas quebrou, engarrafando a Cardeal da Silva, sentido Centro. Eliseu passava com seu carro novo, reconheceu o colega, ajudou a empurrar, acionou um guincho amigo seu e seguiram para a faculdade. No início, o tímido relutou, mas o alto astral do outro contagiava, o que cimentou a construção daquela amizade. Em pouco tempo se davam muito bem e sentavam próximos, como ainda fosse ensino médio. Douglas morava no Rio Vermelho, Eliseu no Engenho Velho de Brotas e logo trocavam caronas. Eliseu integrou grupos de estudos com Douglas, que resolveu dar as caras em umas poucas festas com o novo amigo.

Descobriram que seus pais tinham a mesma origem de infância pobre e caminho difícil até a capital. Um era órfão de pai e o outro de mãe. As doenças de menino foram as mesmas e até as comidas favoritas eram semelhantes. Uma coisa certa: ambos tinham ótimo humor. Surpresos com os pontos em comum, tiveram reações diversas sobre suas diferenças. Eliseu se divertia com o jeito tímido e reservado do amigo, suas dificuldades com as mulheres e as ponderações sempre equilibradas sobre os assuntos e conflitos, mesmo em momentos agudos. Douglas se aprofundou naquela forma extrovertida e destemperada do outro, que admirava. Tentou entender a força bruta que o amigo tinha e que às vezes sentia em si próprio, mas guardava. A troca entre eles aumentou.

Um episódio marcou muito. Em jogo de basquete do campeonato universitário, os dois em quadra, cercada por torcedores ruidosos, dentre eles um do adversário que provocou forte, ofendendo e jogando objetos. Estava embriagado, é provável. Douglas tentou argumentar, acalmar as pessoas no entorno, mas logo Eliseu partiu para cima com tanta violência que só parou porque dois colegas o derrubaram no chão para imobilizá-lo. O agredido saiu dali para o hospital. Douglas ficou com a sensação de ter visto um certo prazer no ódio incontrolável do amigo e impressionado como vieram pessoas que ele nunca tinha visto para ajudar na briga.

Foi em uma festa, levado pelo amigo, que Douglas conheceu Clara, estudante de Farmácia, com a mesma idade deles, uma linda moça. Gostava de usar saias e sua risada marcante contagiava. O rosto pequeno e redondo em contraste com os longos cabelos que amarrava em um rabo de cavalo. A pele morena, o nariz fino e os lábios grossos formavam uma mistura que ele não resistiu. Com o estímulo de Eliseu, que nunca tinha relacionamento com uma só por muito tempo, em algumas semanas o namoro aconteceu. Algo que nunca esqueceriam, pela intensidade do que veio.

O casal estava junto e muito apaixonado havia oito meses. Após uma aula em seu campus, no fim da tarde e sem avisar a ninguém, ela resolveu subir sozinha a encosta que levava à Escola Politécnica. Metade do caminho era uma escada inacabada de concreto e a outra uma picada aberta no meio do mato pelos próprios estudantes. Ganhava-se muito tempo por essa trilha. Queria fazer uma surpresa e esperá-lo no fusquinha. Ainda faltava quase uma hora para que ele se liberasse. Ela se atrasou uns minutos para ajudar uma amiga com umas dúvidas e quando começou a subir estava quase escuro. Decidiu seguir assim mesmo, confiando na iluminação deficiente de alguns postes mais próximos. Tudo parecia deserto. Após sair da escada, foi surpreendida por quatro caras. Pareciam querer só dinheiro, relógio, joias. Estavam animados. Poderiam ter usado algo. Com revólveres e facas a mantiveram calada. O líder deles deu a ideia, os outros não colaram, mas ele foi em frente sozinho, rasgou um pedaço de seu vestido amarelo e usou como mordaça. Depois a jogou no chão e a estuprou, em meio a várias agressões violentas. Os outros impassíveis. Quando acabou, ela não se movia. Decidiram por abandonar o local. O corpo foi achado no dia seguinte. Foi uma comoção.

A polícia tinha ideia de quem poderiam ser os criminosos, pelas áreas onde atuavam e os métodos, mas passados alguns dias, nada de concreto aconteceu. Movido por isso e pelo ódio que lhe tomou corpo e alma, Douglas decidiu avançar por sua conta e risco. Eliseu lhe avisou que se metia em terreno muito perigoso e tentou convencê-lo a desistir, sem sucesso. Diante da determinação do amigo, resolveu ajudar com seus contatos. Em poucos dias chegaram a um dos bandidos, que acabou entregando a história por estar com muito medo. Era para ser só um roubo, como sempre, para conseguir dinheiro para saldar na boca de fumo, mas o chefe da gangue estava muito chapado e as coisas saíram do controle. Havia o suficiente para os caras serem presos e o caso encerrado, mas não se desenrolou assim.

No estacionamento da faculdade, dentro do fusquinha, os amigos tiveram uma conversa nada habitual. Equilibrado, em voz baixa, com raciocínio metódico, frio e analítico, Eliseu discorreu sobre a situação. Falou dos detalhes, como as coisas deveriam acontecer dali em diante e de que forma poderiam passar as informações obtidas para garantir que tudo daria certo, sem ficarem expostos ou correrem riscos de retaliação dos marginais, o dinheiro que precisariam e até como conseguir os valores. Não contava com a reação de revolta que presenciou. O amigo não queria nada daquilo. Braços agitados, se coçando todo, voz alta, argumentos confusos, os olhos vermelhos de choro e noites mal dormidas, com uma raiva que assustava, o rosto de quem está à beira do esgotamento, Douglas disse o que estava em sua cabeça: vingança implacável, acabar com o maldito, que ele sofresse como ela. Abandonar seu corpo em um canto qualquer. Deixar alguém desolado para trás, como ele estava. Depois de todo o desabafo, se olharam como a um espelho e saíram em silêncio de compromisso.

Em poucos dias, um corpo foi encontrado em um matagal de Ondina, com diversas marcas de violência. A vítima havia sofrido antes de morrer, era certo. Mais um caso de acerto de contas entre gangues de traficantes, foi a conclusão das investigações. Nunca chegaram a quem seria responsável por aquilo. Não havia interesse das autoridades. Era só mais um marginal. A única coisa peculiar descrita no relatório policial foi haver um pedaço de pano amarelo amarrado à cabeça do morto.

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