À la Gorbachev

Silvia Argenta

Segunda-feira

Essa noite foi a vez do sonho recorrente. Passo horas andando em ruas iguais numa cidade desconhecida e do nada sempre paro no mesmo apartamento vazio de paredes brancas que não faço ideia de onde é. Lá no fundo, por trás da neblina, as torres altas de teto abobadado indicam que são as construções de Moscou. Não importa o dia da semana. Já é praxe. Toda vez que tenho esse sonho, tomo vodka. Nas primeiras vezes, foi à la Gorbachev, mais moderada, tentando uma certa diplomacia para conseguir encontrar justificativas de me manter no confinamento. Um ano depois, com os sonhos cada vez mais insistentes, já bebo à la Ieltsin. Zero sentimento de culpa.

Terça-feira

Sonho com minha irmã. Estamos no mercado fazendo compras. Pego os produtos na estante, mas meu carrinho está sempre vazio. Na hora de pagar, perco o cartão várias vezes. Ando pelos corredores e não o encontro. Uma mulher aleatória tenta me vender uma grelha e eu digo que não quero porque não tem grelha para canhotos. Peço para ela ajustar. Enquanto isso, a moça do caixa me indica um caminho e entro por um buraco que dá num jardim com uma esteira grande automatizada, onde as compras já vêm separadas. A esteira é vertical e fico sem entender como os produtos não caem. Para esse serviço, é preciso esperar muito. Os clientes se enrolam para encher suas sacolas e pagar. Penso que esse seria um bom lugar para pedir emprego. Ninguém reclama de nada. A essa altura, não sei onde minha irmã foi parar. Desisto dos meus produtos e encontro outro buraco, escondido embaixo das cadeiras que estão na grama. Entro por ele e desço uma escada gigante. Passo por labirintos de prédios, especialmente nos corredores sem janelas. O buraco subterrâneo e escuro não me leva a lugar algum.

Quando criança, ficava dividida entre o sonho de ser caixa de mercado para digitar os números na máquina calculadora ao passar os produtos (isso bem antes dos códigos de barra) e de ser gari para correr atrás do caminhão segurando os sacos de lixo. Uma personalidade trabalhada num misto de organização e aventura. Falhei. Hoje vivo enfurnada na bagunça da minha casa. Novidade da pandemia? Compro gin pela internet.

Quarta-feira

Me olho no espelho e meu cabelo bate na cintura. Fico surpresa no sonho porque cresceu muito rápido, mesmo com cachos. Ontem estava na altura dos ombros. Penso nos penteados que posso fazer e vou até a janela. Um homem me chama para ajudá-lo a vender pepino. Sim, ele tem uma barraca de pepino em conserva na calçada da minha casa… Ah, deusmelivrequemmedera, mas não é nada disso. Ele me conta que o emprego é precário, bate muito sol e só usa metade da sombra da sete copas porque meu carro ocupa um pedaço da calçada. Precisa de dinheiro e não tem como sair dali. O capô do carro está manchado de vermelho por causa das frutinhas que caem toda hora. Entro no carro e o volante está no lugar da poltrona e vice-versa. Dirijo com a cabeça virada para trás para poder ver a rua até que estaciono na outra quadra. Desço e fico andando com dez panfletos da barraca do pepino, tentando vender para as pessoas. Ninguém me escuta. Ninguém quer pepino. Encontro outros vendedores e fico nervosa. Eles conseguem vender. Esbarro na tia Jacira, mas não olho no rosto dela. Minha tia mais querida virou minion e tenta conversar comigo. Ela quer que eu fale alguma coisa, mas fujo correndo, agora com uma caixa de panfletos nas mãos.

Acordo com a música triste do despertador. Nunca me lembro de mudar. Prefiro acordar com os pios dos passarinhos. Pego o celular, entro no instagram e, como sempre, me arrependo. Ninguém de máscara. Jaime alienado com um monte de foto maravilhosa de natureza good vibes, Patrícia na festinha de quatro anos do filho num salão com umas vinte crianças, Helena aluga uma casa em Bombinhas com seis amigos para passar o final de semana mergulhando. Roteadores de covid. Vão do snorkel pro respirador. No face assunto a vida alheia e vejo que um fala uma groselha, fulano replica, outro treplica num looping eterno de bateção de cabeça. Levanto na força do ódio. Seis dias sem pisar na rua.

Quinta-feira

Encontro uma caixa no meu sonho. Abro e tem um gato, o Boris. Eu sabia que tinha uma caixa com um gato na minha casa, mas sempre estava ocupada e não resolvia isso. O Boris me olha e diz que sobreviveu todo esse tempo comendo pequenos insetos. Com peso na consciência, digo a ele que vou doá-lo para alguém que saiba cuidar dele, mas ele não quer. Prefere ficar comigo na minha casa.

Me levanto antes do despertador de música triste. Não foram os passarinhos, e sim os pingos grossos da chuva batendo na caixa do ar condicionado que abreviaram meu sono. Pergunto ao síndico se posso retirar a caixa, afinal não tenho ar condicionado. Ele diz que não pode por causa da estética do prédio. Sinto dor na cicatriz do joelho. Sinal de tempestade. Olho a previsão do tempo e confirmo: vem mais chuva de noite. Pego as caixas de ovo e colo com fita crepe na caixa do ar condicionado. Espero que funcione. Pesquiso o significado de Boris: guerreiro, lutador, combatente.

Sexta-feira

No sonho agitado e breve, vejo o Exército contratando um curso sobre mercado financeiro. Atrás, os filhos dos militares estão de kimono lutando judô na beira da piscina laranja chamada de Sukitalândia. Eles conversam num português do Brasil Império, com vosmicês e outras palavras arcaicas. Vaza o áudio do microfone dizendo que fizeram um bom negócio. “Podemos ficar bêbados agora”, fala um deles. Formam uma fila indiana e apertam a minha mão. Sem mais. Acordo com a pata suja do meu gato pressionando minha bochecha. Quando ele faz isso, é porque perdi a hora. Não ouvi a música triste. Nem sei se tocou mesmo. Coloco uma camiseta, prendo o cabelo e chego atrasada na reunião do trabalho no zoom. Logo depois o interfone toca. É o entregador do mercado que me traz o gin. Fico animada até olhar a fruteira. Não tenho limão.

Sábado

Tomei gin demais. Sempre que bebo puro, a noite é de pesadelo. Estou num jardim e começo a comer butiá direto do pé. Como tanto butiá que me engasgo e então percebo algo enchendo a minha boca. Fosse vômito, estava no lucro. Sinto uma bola de textura pegajosa que empurra meus dentes e sou forçada a afastar os lábios. Uma rã saltitante voa da minha boca até a grama. Novamente vem a mesma sensação, só que agora com movimentos mais rápidos. Dessa vez, a bola é maior. Acho que é um sapo. E de novo. E de novo. E de novo. Os sapos estão cada vez maiores. Ouço alguém gritar: uva passa, tudo passa, tudo passará. Sem noção. Perco a conta, mas já passaram de vinte. Eles somem da minha vista e fico com medo que eles pulem em mim.

Fui programada para caber na moldura. O que fica de fora, rejeito, mas às vezes o excedente é justamente o que sou. Sem ter com quem conversar, preciso me ver. Me enquadro no espelho, na tela do celular, no quadrado do zoom. Enjoada da vista dos telhados emoldurados pelas esquadrias das janelas do apartamento, reorganizo a decoração. As molduras dos quadros delimitam novas paisagens, riscos e cores. Tento de tudo para não desistir. Preciso continuar sendo emoldurada pelas paredes do apartamento e me manter isolada. Tempo de mergulhar onde não existe mar.

Domingo

Trabalho num jornal, mas estou na redação vestida com uma camisola. Não entendo se no sonho sou repórter ou faço entregas. No corredor, o chefe, de terno e máscara, passa elogiando todas as mulheres. Nenhuma delas gosta. As três cajazeiras entrelaçam os braços e uma delas grita: “Aqui não temos pretensão nenhuma. Aliás, se alguém acha que precisamos de algo, já adiantamos…”. No intervalo de suspense sobre o que vai acontecer, cada uma diz uma palavra na sequência: “nós não queremos”.

Penso em mandar uma mensagem para um ex-crush bem no estilo carentener. Na última vez que nos vimos, ele foi comprar um livro e apoiou a garrafa de água destampada no balcão. Quando entregou o cartão para pagar, esbarrou na garrafa, que caiu e molhou vários livros. Nem ele nem a vendedora perceberam. Eu estava do lado e não avisei. Só queria que ele se ferrasse pagando pelo prejuízo. Quando ele notou, a garrafa já estava quase vazia. Pediu desculpas e ajudou a moça a limpar o balcão. Ela não cobrou nada. Desisto de enviar a mensagem.

Segunda-feira

O sonho recorrente de novo. Em vez de andar pela cidade, corro muito. Apesar disso, não chego cansada no apartamento vazio. Está quente e por isso acho que confundo. Não deve ser na Rússia. É outro o caminho que devo fazer. Hoje estou menos ansiosa nessa vida de isolamento, e a vodka à la Gorbachev já é suficiente para eu dormir melhor essa noite.

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