(Bruno Vicentini)
1.
Quem pode mais chora menos. Quem sonha mais corre menos. Mas no sonho não consigo chorar nem correr sem mais nem menos.
2.
Sentado em frente ao notebook, cuja tela ilumina meu rosto tal qual a lâmpada interna de uma geladeira, os dedos a meio caminho do teclado e dobrados como as garras de um papagaio de pirata, tento me lembrar do sonho que estava tendo ainda agora, quando me levantei da cama, porém percebo que já não me lembro de nada, e que mesmo antes, quando ainda estou deitado, com a cabeça num travesseiro que não reconheço como o meu, mesmo então já não me lembro mais do sonho e, sendo assim, de nada adianta levantar, calçar os chinelos e vir até aqui, até essa cadeira em frente à tela, pra tentar me lembrar de um sonho que eu já tinha esquecido antes.
3.
Um cavalheiro espera durante anos que eu lhe desafie pra um duelo. Descubro isso apenas hoje, lendo o depoimento que ele publicou em livro, e me sinto de súbito muito antipático.
4.
Ganho de presente um caderno de receitas, em branco. Tento escolher uma caneta que sirva pra começar a anotar receitas. Não consigo me decidir, todas parecem boas.
5.
Não consigo escrever diários. Desde criança. Na escola, as crianças ganham uma agenda no início do ano, pra anotar os compromissos. Terça-feira, quinze horas, catecismo. (Acho que a diferença entre um diário e uma agenda é a seguinte: no diário você só pode escrever o que acontece; na agenda você pode escrever qualquer coisa, mas depois tem que fazer com que a coisa que você escreve aconteça.) Quarta-feira, treze e trinta, cataclismo. Meu compromisso com o preenchimento da agenda dura só até a segunda semana de aula, no máximo. Depois a agenda fica em branco. Carrego a agenda em branco pra cima e pra baixo, até o ano acabar. No ano seguinte ganho uma agenda nova, pra anotar os compromissos.
(Eventualmente, a Professora, que se chama Marilda ou Elisa ou Olésia, mas nunca Maria, usa a agenda pra mandar uma advertência pros meus pais, quando eu deixo de cumprir algum compromisso. No dia seguinte eu tenho que trazer a agenda de volta, com a advertência assinada, mas eu sei que de vez em quando a Professora esquece de conferir.)
6.
Acordo no travesseiro da Rannah e ela no meu, todos os dias. Não sabemos explicar como nem por quê.
7.
Curvado em frente à geladeira, cuja lâmpada interna ilumina meu rosto tal qual a tela de um notebook, tento escolher algo pra comer entre muitas coisas que não me lembro de ter comprado.
8.
Que fim levou o velho que rouba canetas nas festas de lançamento de livros?
9.
O dia de hoje já teria amanhecido se fosse um dia de amanhecer. São sete e quinze da manhã. Falta alguma coisa nesta frase.
10.
Percebo que posso ter me esquecido do sonho muito antes de ter me sentado aqui, nesta cadeira em frente à tela, isso porque quando acordo e mesmo antes de me levantar, como acredito que já disse, me esqueço do sonho já naquele momento, mas posso tê-lo esquecido ainda antes, quando ainda estou dormindo, por exemplo, ou antes, digamos, antes mesmo de me deitar pra dormir, de deitar a cabeça no travesseiro que ainda é o meu, quando visto o pijama, esse traje dos mais ridículos.
11.
Ligo pro meu último amigo e, enquanto ele não atende, penso em perguntar se ele sabe o que aconteceu com os outros.
12.
Resolvo sair de casa. Tenho um problema pra resolver. Tenho um problema pra resolver sair de casa. Problema, resolvo resolver o problema de casa.
13.
Um vendaval derruba quatro torres da Companhia Paranaense de Energia. A cidade inteira está no escuro. Em algum lugar, há alguém cozinhando no escuro, seguindo uma receita de um caderno de receitas, que foi escrita com uma caneta roubada. O escuro faz com que o tempo de forno seja um engano. O escuro faz com que se dance com a colher de pau.
14.
O cavalheiro, na porta da sua casa, boceja pra rua.
15.
O velho usa a mesma caneta pra pegar autógrafos nas festas e pra anotar receitas, mas se quisesse poderia usar outra.
16.
Me lembro de um sonho recorrente que eu tinha quando era criança. Entre aquele sonho de criança e este sonho que eu agora esqueço, deve ter havido outros. Sendo assim, é seguro dizer que este sonho de agora e o sonho de então são coisas muito diferentes, como maçãs e laranjas, mas não me sinto seguro pra dizer o mesmo em relação a todos os outros sonhos, porque poderia ser uma mentira – mas não seria o fim do mundo (ou quase).
17.
Pode deixar, que pegue quantas canetas quiser, todo mundo que tinha que chegar já chegou, veio bem menos gente do que a gente esperava, e isso porque a gente já esperava pouca gente e, além do mais, muita gente já foi embora.
18.
Quando meu último amigo finalmente atende a ligação, pergunto se ele é o cavalheiro que espera durante anos que eu lhe desafie pra um duelo e vice-versa.
19.
(Professora Olésia desta vez se lembra de conferir a advertência que mandou pros meus pais, e que não está assinada. Não quero correr o risco de pedir a assinatura dos meus pais de manhã tão cedo se ela de vez em quando se esquece de conferir. O resultado é uma nova advertência.)
Escrevo com letra miúda na última página da agenda em branco que carrego pra cima e pra baixo: sou um papagaio de pirata em busca de um pirata.
20.
Também eu, cavalheiro, faço anotações pra me lembrar, ora, se não é pra isso que se faz anotações. Minhas anotações, como as suas, são libelos contra o esquecimento, partes de um mesmo todo e nem sempre suficientes, é verdade, muitas vezes a anotação é apenas um farol de algo maior, algo que se esquece – como alguma coisa que falta na frase e a deixa sem qualquer brilhantismo, fator importante num duelo entre cavalheiros. O que falta, por mais que eu não leia pra ninguém, também vai comigo no meu bolso, não é mesmo?
