Des_Montagem

Helô Melo

Segunda Feira

Des_montagem

Mudança é desmontagem. Monto caixotes de papelão para acomodar tanta literatura. Tenho ao meu lado um estoque de fita adesiva e a dificuldade de saber quais os livros que vão e os que ficam. Os cupins decidiram por mim o rumo das enciclopédias que planejei usar para uma instalação. Limpo a estante e jogo a leitura e os cupins no saco preto.

Terça feira

Visitar apartamentos para morar é se descobrir de fora para dentro. Um apartamento tem vista e me faz olhar pela janela dentro do quarto apertado, enquanto o outro, um comodo amplo e pé direito baixo, me deixa sem ar. Ao fundo escuto o ruído de alguém argumentando o meu futuro.

Quinta feira

O vento levanta a memória e sopra os desejos. Passo pelas casas que já morei, pelas vidas que acumulei e me descubro ainda eu. Mal consigo andar cercada de caixas fechadas e outras com as laterais abertas como pedindo um abraço antes de um novo destino incerto.

Sexta feira

Não coloquei flores no vaso. O seu perfume levanta lembranças depositadas no guarda móvel. Olho no site o meu lar à venda e penso que moraria nesse lugar. Saio antes de chegar o primeiro interessado. Paro para conversar com os zeladores do bairro. Eles sempre sabem.

Sábado

Dry Martini e risoto. Combinação não convencional assim como nossa relação. A organização ajuda para desmontar o planejado. Porque hoje é pausa. Pausa nas pilhas e na compreensão da busca.

Domingo

Esquecer é recordar flashes da infância na casa velha. A casa também morre e por isso será demolida. Quero levar um pedaço da pedra do jardim, do pó da madeira da sala, do tapete rasgado do quarto que dormi quando pequena, do sabiá que canta agora. Me finjo prática e fecho depressa os sacos de roupas para doar.

Segunda feira

Trago em mim a incerteza. A chuva molha a jabuticabeira e os passarinhos se aquietam onde não consigo vê-los. Falta muito e deixo para trás o que não sei, resolvo depois. Descubro objetos que escondi nas gavetas que não abro nunca. A maioria separo para dar ou para o lixo. Mas um tanto deles postergo, por falta de coragem ou de atitude. Não deveria, mas moro neles, ainda que inúteis.

Quarta feira

As sombras mudam conforme a estação. Não vou fechar a cortina para deixar o sol fazer o seu trajeto e tento encontrar o meu. Percorro o caminho pelo labirinto de coisas empacotadas que agora me controlo para não abrir mais. Algumas fronteiras foram invadidas e tenho dúvidas se estão na praia de donativos ou irão sobreviver a mudança. Com receio de abrir e ter que recomeçar, ignoro. Traço o futuro delas na insensatez. Avalio como o melhor critério para quem guardou por tanto tempo sem saber oque.

Sexta feira

Me encontro dentro da caixa, agora bem embalada. Não sei se irei para doação ou se vou me abrir em uma nova moradia. Portanto, não me mexo enquanto o sol de inverno derrete dúvidas e sonhos para que eu possa acordar.

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