
“Primeiro livro do celebrado escritor húngaro Péter Esterházy publicado no Brasil, Uma Mulher é composto de 97 historietas sobre relações amorosas. Quase todas começam com uma dessas fórmulas: ‘Há uma mulher. Ela me ama’, ou: ‘Há uma mulher. Ela me odeia’ — o que, o leitor logo percebe, vem a dar na mesma. Para o narrador deste mosaico de narrativas, o que interessa é estar nos extremos, como se apenas no amor e no ódio acontecesse aquilo que realmente importa.
Na corrente de grande parte da literatura contemporânea, Esterházy dilui as fronteiras entre prosa e poesia, romance e conto, construindo um livro que, por seu caráter caleidoscópico, pode ser lido em diversas direções, de forma aleatória. Nesse sentido, não chega a acrescentar grande novidade ao leitor habituado às transgressões de gênero realizadas no século XX.
O mérito do livro reside, sobretudo, na sensibilidade do narrador ao descrever esses pequenos relatos, que vão desde rápidas tardes de sexo a reencontros surpreendentes, como no fragmento, em que ele diz, certeiro: ‘enquanto escovávamos os dentes passaram inesperadamente vinte e oito anos’. O essencial das relações não estaria, portanto, na continuidade dos fatos, mas em momentos de epifania em que o amor e/ou o ódio emergem por uma razão qualquer.
O narrador do livro se revela, desde o início, um grande apaixonado pelas mulheres, sejam elas gordas, magras, histéricas, tranquilas, trabalhadoras, donas de casa. A diversidade dos tipos circula por esses fragmentos, sem reduzi-los a estereótipos: afinal, são mesmo 97 mulheres ou uma única, metamorfoseada em 97? Sem nos fornecer uma resposta, o narrador nos assegura, entretanto, que ele conhece a complexidade da mulher e sabe como ela pode passar, sem rodeios, de um estado a outro, da segurança à insegurança, da ternura à agressividade, do amor ao ódio.
É com um humor refinado que o narrador passeia pela mulher obcecada em dietas, pela mulher que quer torná-lo vegetariano, pela mulher que quer casar e ter filhos, pela tarada, a misteriosa, a política, a banal. Aliás, não fosse o humor, o livro poderia se tornar por vezes enfadonho e repetitivo. Sorte do leitor o narrador conseguir nos levar a diferentes facetas dos sentimentos sem perder a graça. O ápice dessa habilidade talvez seja alcançado no trecho em que ele transforma essa mulher na própria mãe, que, ‘um dia, enquanto tomava sol estatelada, abriu e ergueu um pouco as pernas”: “Durante anos não consegui desviar o olhar. Não: nunca consegui desviar o olhar’.
Ao falar dessas mulheres, o narrador termina por construir também um homem multifacetado em sua capacidade de amar. A mesma questão se coloca: será sempre o mesmo narrador ou 97 diferentes? Em qualquer um dos casos, as características típicas do homem se repetem em sua generalidade: ele não liga a mínima se a mulher está cinco quilos mais gorda ou mais magra, se está com o vestido preto ou o vermelho, maquiada ou não; mas se distinguem nas pequenas manias ou gostos particulares.” (Tatiana Salem Levy)
PROPOSTA
Bem, é esta mesma a sua tarefa: elencar uma sucessão de amores, crushes, quereres, não-quereres, odiozinhos, amores expressos, amores eternos, amores encalacrados.
A ideia é escrever minirretratos rápidos e rasteiros de tais afetos ou desafetos. Atentem à descrição física e psicológica do seu álbum de figurinhas. Pequenas anedotas, frases memoráveis, circunstâncias misteriosas, quase-encontros, tropeços horríveis, diálogos nonsense.
Citações literárias ou cinematográficas, contexto histórico-social, informações aleatórias, dados metereológicos ou astrológicos, listas de compras, bulas de remédios, receitas de comidas e outros pequenos formatos de textos também podem ser explorados em seus enquadramentos.
Faça como Esterházy: divirta-se com a linguagem.
Faça como Esterházy: escreva tudo no tempo presente.
Faça como Esterházy: não se leve a sério nem leve a sério tais amores ou desamores.
Faça como Esterházy: escreva tudo na primeira pessoa – mas isso não quer dizer que todas as histórias se passem necessariamente com você. Se tiver um personagem ou uma anedota boa, acontecida a outrem, enfie em seu texto.
Faça como Esterházy: comece seu texto com um “Há uma mulher/um homem. Ele/ela me ama/me odeia“. Escreva textos de uma linha a uma página, digamos uns dez, ou até mais.
Em até 9 mil toques.






































