Não há nada a fazer

por Américo Paim

Segunda-feira

Sua voz é uma ladainha que escuto sem paciência há muito tempo. Fala sem parar e se repete quando mente ou está inseguro. A conversa, que se bastaria com proveitosos dez minutos, dura meia hora e termina com boas doses de realidade que lhe transmito: a apresentação é em uma semana e o conteúdo que gerou até agora não se revelou adequado. Tenho sido muito claro e tranquilo, dando toda a orientação e treinamento necessários. Desligo o telefone preocupado, o que é recorrente. Tércio é bom em muitos aspectos, então insisto com ele, mas teme fazer o movimento para mudar de patamar. Preciso disso. Sem eu fazer um sucessor será mais difícil avançar.

Meus passos pela sala são arrastados. A iluminação é bem fraca, suficiente para não me esbarrar nos móveis antigos que me parecem familiares, embora não consiga formar as imagens. Sinto que sou conduzido, não ando por minha vontade, apesar de não haver mais ninguém no lugar. Há lampejos alternados vindos da varanda, não mais que cinco metros à frente e à medida que me aproximo dela, um som fica mais claro. É uma voz. Não a reconheço ou entendo o que diz. Ainda demoro, mas chego. É um andar muito alto e a noite é bem escura. Descubro que as luzes oscilantes são bolhas transparentes, a flutuar. O pisca-pisca vem de dentro delas, onde percebo silhuetas que parecem humanas e seus braços me acenam, enquanto se aproximam e afastam, de forma aleatória. Quando estão tão perto que quase as toco, a voz aumenta rápido, até ficar insuportável. Levo as mãos aos ouvidos. É nesse ponto que acordo. É um sonho recorrente, desde a semana passada.

Terça-feira

Tomo café amargo e duplo pelo sono ruim da noite passada. Ainda é bem estranho estar sozinho no apartamento. Sinto falta de sua presença. Foram tantos anos. Penso que deveria abordar na terapia, mas resisto. Não sou bom de lembrar detalhes de sonhos, mas estou intrigado. A sala, os móveis, a voz, as pessoas nas bolhas, tudo fica à beira, no quase. Acho que é algo que conheço, mas tenho medo de descobrir. Consulto e-mails no celular e volto ao mundo real.

No meio da tarde saio da reunião com a diretoria certo de que preciso acelerar Tércio, ou o novo projeto não será meu. Volto à apresentação e estou à beira de meter a mão e ajustar toda de uma vez, mas pondero. Ele tem que fazer por sua conta. Quando estou a caminho do carro para voltar para casa, o celular vibra. Mensagem de Sandro. Quer conversar de novo. Está sendo difícil para ele. Me esgoto toda vez que nos falamos. O encontro na praça em frente ao seu novo endereço, uma casa. Está uma lástima. As olheiras profundas, cabelos mais grisalhos ainda, a pele abandonada. A vida parece por um fio e é disso que nós, os amigos, temos mais medo. Que ele desista. A mesma conversa. Quer aprovação para tudo o que fez ou deixou de fazer no dia fatídico. Minhas palavras não o levam a um lugar melhor. É um ritual diário de autoflagelação para ele. Lembra cada momento e implora um perdão ao cosmos. Insisto pela terapia. Não quer. Com ele na mente, vou embora.

Ando despreocupado em uma área aberta, como uma pradaria, com muito verde e vento. Estou sozinho e uso um chapéu. Em um momento qualquer, ouço uma música que passo a cantar junto. Aparece um cachorro desconhecido. Não parece perigoso, pelo contrário, mas tem um olhar de tristeza infinita. Chamo, mas não vem a mim e vai embora. Noto que a música parou. O céu começa a escurecer e o vento aumenta. Olho em volta e não vejo abrigo, só uma grande árvore ao longe. Corro para ela ao mesmo tempo que a chuva começa. Quanto mais eu me aproximo, a árvore se distancia, mas aumenta de tamanho. Percebo que sou eu encolhendo. O cachorro volta. Vem em minha direção e seu olhar não parece mais amistoso. Acordo suado e ofegante.

Quarta-feira

À noite, chego em casa após a malhação. Volto a ter esperanças cobre Tércio. Seu progresso hoje foi relevante. Algo o motivou e foi positivo. Até o fim da semana estará tudo pronto, mas não me sinto bem porque já preparei o plano B, o que é o símbolo do meu fracasso. Espero não precisar dele. Esquento uma massa de ontem. Sentado na poltrona da sala, recordo os tantos jogos de futebol na TV com Sandro e Tito. Quartas-feiras me trarão isso por muito tempo, uma disputa entre os bons momentos e aquele dia. Já faz mais de um ano. Por que teve que ser em uma quarta? Meus olhos correm o ambiente e revejo o pesadelo real como a um filme. Cervejas e salgadinhos sobre a mesa, o toque irritante do telefone de Sandro, o abaixar do volume da TV, ele a andar por sala e varanda, expressão grave, a troca de olhares entre Tito e eu. Se despede de nós, recusa as ofertas de ajuda e companhia e sai tenso. Vai para casa conversar com Estela, mais uma rodada daquela semana difícil. É o que penso, até o telefonema dele, menos de uma hora depois. Conta tudo. Ele chega no seu apartamento, discutem de novo, ele não quer mais, mas ela não aceita aquele destino e decide diferente. Caminha até a varanda, debruça o corpo no anteparo de vidro e metal, olha para ele e se deixa cair no vazio. Ela está morta. Ele começa a desaparecer ali e sua voz e o choro imparável secam a alegria pelo gol da virada do nosso time. Fecho os olhos, angustiado.

Sexta-feira

Pela manhã, na sala de reuniões, assisto aliviado à apresentação de Tércio. Está no ponto certo e me surpreende em alguns momentos. Na segunda-feira vai correr tudo bem. Ao sairmos, o parabenizo e conto que até sonhei com aquilo. Me agradece muito, diz que fui fundamental. Divido os créditos, mas por dentro aceito o elogio e imagino se ele sabe o quanto tudo esteve por um fio. Nasce meu sucessor. Enfim uma intervenção minha se transformou em algo bom. Me pede desculpas por qualquer coisa e sai.

À tarde, em meu escritório, sem concentração para nada, busco meu próprio perdão. É o que sinto e ninguém arranca ou coloca sentimentos em uma pessoa. Acho que meu falar tantas vezes para Sandro se separar teve grande peso no desfecho. Preciso achar um caminho para ajudar meu amigo. Não quero mais a ansiedade que vem quando ouço o telefone tocar. Curioso que tenha sido assim com Tito também. Resolvo sair para andar um pouco.

Após uma caminhada que parece infinita, estou só, sentado em um banco de madeira, em uma praça ampla que não lembro o nome. À minha volta muitos circulam, mas parecem me ignorar a presença. Desconheço seus rostos e as parecem falar em uma língua estranha. Pergunto a um deles que horas são e ele me responde que não faz a menor diferença. Olho o céu azul, mas não acho o sol e não sinto calor. Surge um homem com óculos de aro metálico. Senta-se no mesmo banco e abre um pequeno livro. Me parece um caderno com anotações que lê com atenção, sem desviar o olhar. Isso demora e as pessoas começam a sumir. Logo estamos apenas eu e aquele desconhecido a meu lado. Ele me fala: “não há nada a fazer”. Não recordo o que respondo. A conversa continua, mas eu passo a ser um observador de fora. Vejo gestos e expressões, mas não ouço ou entendo o que falamos eu e o senhor. As imagens vão sumindo até que eu acordo. Não estou assustado. O que fica em minha mente é o que me disse no banco.

Sábado

Enquanto tomo o café na cozinha, ainda tenho a frase a martelar. Penso que falhei por não ter notado antes e se há uma chance de ele ter entendido minha decisão, afinal não havia o que fazer. Então havia o que sofrer? Decido enfrentar. Vou à área de serviço, abro o armário, encontro o saco plástico onde o guardei. Abro com cuidado e removo a poeira com uma toalha de papel umedecida. Não há mais o cheiro de sempre. Volto à mesa e coloco o pote branco com a palavra em azul virada para mim: “Tito”. São quase seis meses que se foi. “A doença pode durar e o sacrifício diminuirá as dores do seu cão”. Foi assim me convenci. Resolvo que vou doar o pote. Não preciso dele para me lembrar do meu amigo de dezesseis anos. Como todo sábado, mando mensagem convidando Sandro para irmos à praia, espairecer. Ele topa, afinal! Acho que cansou da minha ladainha. Me vem a ideia de que enfim terei uma noite de sono decente.

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