Sincronicidades

(Susy Freitas)

Quinta-feira

“Toma”, diz B, estendendo a mão com o celular do outro lado da cama, o sangue ainda ativo nas bochechas após o sexo. Vejo então um círculo, de onde saem três braços em formato de L. A imagem não parece dizer algo por si só, apesar de ficar imediatamente impregnada em minha cabeça. O texto da legenda diz: “A chave sol é uma técnica do sistema gnóstico que serve para nos manter no momento presente. Pode ser usada no treinamento de sonhos lúdicos ou viagens astrais. A chave sol significa: S – sujeito; O – Objetivo; L – lugar. São três perguntas que se deve fazer a si mesmo: Quem sou? Onde estou? O que estou fazendo. “Apago a luz?”, pergunto a B., que fecha o Knausgård que divide a cama conosco há semanas. B. passa o braço quente por cima de mim, e um cheiro absurdo de Dove me recobre as narinas. Como ele consegue?

Fecho os olhos e a próxima coisa que lembro é de estar num balneário com minha avó. O sol é intenso e, pelo movimento das bocas, crianças berram com vontade, apesar de não escutarmos seus gritos e nem o forró ininterrupto desse tipo de lugar. Estamos numa espécie de varanda e admiramos as piscinas naturais e a mata que se estende por todo o nosso entorno. Vovó lamenta a morte de sua irmã gêmea e fico pensativa. É quando percebo onde estou, porque ela nunca teve uma irmã gêmea, mas me compadeço com o seu olhar distante, nada emotivo. Não é como nós somos. B. permanece alheio à conversa, observando os banhistas e maquinando detalhes de contos que ele revisará por semanas a fio até que eu possa lê-los. Mudamos o assunto para plantas, o que é um pouco difícil, posto que nunca lembramos do nome de nenhuma. Dou a vovó um lírio enorme, de um laranja inenarrável, violento, dentro de um vaso de plástico. Ao perguntar se ela havia gostado da planta, percebemos que não há irmã gêmea, e que foi ela quem morreu. Não falamos mais nada e só nos damos as mãos. B. nos observa, não há nada que ele possa fazer, e sinto a mão dela na minha, firme, e da palma às costas enrugadas, ela é exata e quente.

Acordo e tento só pensar no sonho o suficiente para lembrá-lo, constatando que fazia um tempo que não sonhava com minha avó. Ao contrário das outras vezes, em que me assustava ou ficava triste, agora consigo apenas aproveitar aquele momento enquanto tento digerir suas implicações nessa dimensão do lado de cá. Passo o braço pelas costas de B., que com o rosto fixo na cama, e seguro numa parte específica sua costela esquerda, que por algum motivo me faz sentir segura e calma. Na escuridão, penso que faz tempo que não brigamos e que nossa ligação parece mais forte. Tenho menos vontade de pensar em planos de fuga. “Vocês dois têm signos de fogo. Quando se encontram…”, lembro de um amigo falando. Não ligo para signos, mas acho que sei o que ele quis dizer. O tudo ou nada. Queimar. O dorso de B. é ininterruptamente quente, de forma que, por mais que seja eu a abraçá-lo, é o seu calor que me faz sentir abraçada. 

Sexta-feira

No trabalho, o ar-condicionado não dá conta de conter o calor. Os funcionários todos estão com uma expressão oleosa de incômodo, quietos demais. “Retenção de custos”, sussurra alguém na Rádio Peão. Vejo C. e D. passarem, e me espanto mais uma vez em como eles são idênticos: o cabelo num corte simples, porém da moda, camisa de botão, tênis esportivo e as mesmas máscaras cirúrgicas azuis, que eles tiram do rosto ao mesmo tempo para enxugar seus bigodes de suor. O dia passa numa profusão de pequenos problemas e soluções sobre como anunciar os diversos canais de venda de uma loja de eletroeletrônicos: lojas físicas, site, whatsapp e televendas, diz a locução diversas vezes enquanto revisamos um VT institucional.

De noite, Happy Mondays na tevê de novo. Perdemos as contas de quantos finais de semana correram assim, trancados no apartamento, o país em suspenso lá fora enquanto B. larga a faca e sementes de limão na pia depois de improvisar uma caipirinha. “Mais barato, mais rápido”, ele decreta, apontando para o fim do mês no calendário. Nesses dias, já não me lembro como dormi, a que horas, com que roupa. Os dias parecem ser uma sequência de falhas de continuidade. Num segundo, estou no sofá, e no outro, estou me levantando da cama junto com C., e nós dois vestimos nossas roupas. Não há nenhuma tensão ou atração sexual entre nós, e é como se fôssemos estranhos escolhendo roupas numa arara de loja. Saímos de casa e andamos um pouco entre as águas fétidas que alagam o Centro da cidade numa cheia incomum, despedindo-nos cordialmente pouco tempo depois. O calor do sol e seu reflexo nas águas até o horizonte irrita meus olhos e continua mesmo depois de eu abrir os olhos na cama. 

Sábado

“Tédio! Tédio! Tédio!”, grita B. pelo apartamento. Por algum motivo, isso sempre me faz amá-lo um pouquinho mais. Lá fora, o sol é tão intenso que os tetos dos carros que despontam na vista da janela parecem todos brancos. Nenhuma nuvem no céu. Saímos apenas para trabalhar há tanto tempo que já não penso tanto no rio, no corpo afundando nas águas e em nadar rumo ao horizonte como se eu pudesse alcançá-lo. Tudo parece hipotético, e me pergunto se as lembranças que tenho são talvez resquícios de uma série que assisti nos anos 1990 ou imagens difusas formadas em minha mente a partir do comentário de alguém. “Você quer sorvete de quê? Tô pedindo aqui do Jamil”, pergunta B., tapando sem sucesso o espaço equivalente ao microfone do celular. Sinto o tipo de sono trazido por uma queda de pressão, equilibrado entre cansaço e desmaio depois de ligar o ar-condicionado. “Flocos”, respondo, ou acho que respondo. 

O que vejo em seguida são diferentes versões da mesma situação, na qual B. compra sorvete por diversas vias: através de um site, por whatsapp, por telefonema e com o poder da mente. Todas as cenas passam repetidas vezes, até acertarmos, embora eu não saiba distinguir o que faz uma delas certa ou errada. Acordo com B. se arrumando na cama ao meu lado, sob um frio artificial e congelante, e um copo de sorvete de flocos estendido no meu rosto, perto demais para conseguir focaliza-lo de fato. O resquício quase invisível do cheiro do pipe deita conosco e me sinto em casa como não me sentia há muito tempo. Isso me assusta mais do que tinha percebido antes.

Domingo

É curioso rever Twin Peaks em 2021. Eu e B. assistimos a três episódios seguidos no domingo de noite e a sensação é de que o mundo percebido pelos nossos sentidos nunca foi tão parecido com a série como é agora. Entre um episódio e outro, comento sobre minha dificuldade de diferenciar sonho e realidade desde o início da pandemia, e o quão ilusória é essa diferença. “Quando dois eventos independentes ocorrem simultaneamente com o mesmo o objeto de investigação, nós devemos sempre prestar atenção!”, ele responde num gracejo, parafraseando o protagonista, e em silêncio me pergunto para onde eu irei hoje quando dormir. 

Depois de fumar um pouco, fico sentada numa cadeira de balanço num lugar muito parecido com a Praia de Laranjeiras, em Balneário Camboriú, com um gato branco e um cachorro salsicha que não são meus no colo. “Aqui estamos nós, do outro lado”, digo a eles, baixinho. Eles parecem um vídeo de Reels do Instagram, tão fofos e bonzinhos adormecendo, e tomo cuidado para que nenhum dos dois caia das minhas pernas enquanto B. se senta ao meu lado, no chão, e começamos a assistir a um filme de David Lynch numa tevê de tubo. 

No filme, Laura Dern é a protagonista e ela inicia um passeio numa montanha russa cujos trilhos passam pelo meio da mata do entorno de um grande morro. O trajeto é íngreme, e basta esticar o pescoço para ver as rochas e a areia lá embaixo, entre os galhos da encosta. Basta um movimento assim para que eu me torne Laura Dern, e agora eu vejo a mata através dessa câmera subjetiva de sonho, as folhas tão rápidas passando nas laterais do meu rosto que não me é possível entender bem o que são aquelas manchas verdes. Fecho os olhos e foco no som do mar, alto e estridente, perto demais para ter nexo. O carro ganha velocidade, e quanto mais acelera, alucinações e pesadelos tomam os lugares das folhas, numa profusão atordoante de imagens. Longe de sentir medo, elas me dão certo alívio e as leio como um entretenimento durante a noite inteira, até acordar renovada no dia seguinte.

Segunda-feira

Na hora do almoço, sigo para uma mesa do refeitório com Z. No caminho, observo uma moça do outro setor e seu marido que também trabalha ali. Lembro de quando eu também trabalhava com meu ex, e como nos comportávamos de maneira cordial mesmo após consecutivas brigas e traições da entressafra que antecede as separações. Olho para eles e me pergunto quanto tempo falta. Z. parece perceber e solta uma risadinha maldosa; sei que ele não dispensaria um encontro furtivo com o marido daquela moça, mas não é o meu caso. Entrego-me com preguiça às garfadas de frango e salada, pensando no cigarro pós-almoço. Quanto tempo falta? Olho para a janela. O mesmo sol que banha tudo de branco.

Pela tarde, converso com meu professor pelo Whatsapp. Parabenizo-o pelo seu aniversário e penso em mandar uma imagem do Mad Max original, com Mel Gibson e a jaqueta de couro, fazendo alguma piadinha meio idiota sobre ser o mundo pós-apocalíptico no qual iremos nos encontrar quando for mais seguro viajar e encontrá-lo em São Paulo. Desisto da ideia e logo volto ao ajuste do roteiro do comercial sobre formas de pagamento da loja de varejo para a qual trabalho. “Onde e quando você quiser, estamos prontos para atender você. Vá até uma de nossas lojas físicas ou compre pelo site, whatsapp e televendas”, de novo e de novo e de novo.

Pela noite, de imediato sei que estou sonhando, porque ainda estou no trabalho. Converso com o marido da moça do outro setor e ele me mostra seu organograma secreto, que detalha quem a agência havia transado no trabalho. Acho a atitude ridícula e fico pensando em como me vingar dele, mas constato que ser vingativa não era mais uma característica minha há anos e desisto. Saio andando da agência e topo com minha avó por acaso numa calçada do conjunto. 

Vovó, cheia de vigor e bem humorada, brincava de se deitar na terra, formando asas de anjo em suas costas, para depois se cobrir de terra. Ela me convidava a fazer o mesmo e pensei seriamente em aceitar, declinando em seguida. “Ainda não é a hora”, respondo. “É, eu sei”, ela comenta, cada vez mais tingida pelo barro meio alaranjado do chão. Temos então uma longa conversa sobre plantas, e como mais uma vez não nos lembramos do nome de nenhuma, vamos descrevendo suas folhas, caules, flores e eventuais frutos. Vovó então vira o Chapeleiro Maluco de Alice no País das Maravilhas e sai voando. Vai alto, muito alto, até virar uma poeira rosa que deixa um rastro fraco no céu. Fico feliz por ela não estar mais suja de terra, o que comento calmamente com meu pai, que por algum motivo também está passando por ali. “Por que você não está de máscara?”, pergunto a ele, mas papai não sabe responder e me lança um olhar muito triste. Ele está décadas mais jovem e parece muito com o Mel Gibson, o mesmo cabelo e até a jaqueta de couro, apesar do calor Seguimos andando devagar pelas ruas desertas, o sol a pino, o céu branco ainda manchado de rosa. Acordo. B. na mesma posição de todo dia, as costas quentes viradas para cima, e a mancha de mofo no teto talvez esteja tentando me dizer algo.

Deixe um comentário