por Américo Paim
Deixa quieto
Há uma mulher. Ela me ama. Suas mãos lindas e enormes ficam úmidas quando estamos juntos. Diz que é só comigo, mas não tenho com quem debater sobre isso. Ao me sorrir é uma revelação, sinto que nada poderá se quebrar. Fala comigo a ensinar coisas, me protege como a uma cria. Me olha devoradora em qualquer lugar e já lhe disse que isso vai nos trazer complicações, mas não parece se importar. Nossos corpos tão opostos, branco e negro, novo e nem tanto, grande e pequeno, cuidado e nem tanto, se misturam à perfeição, como ingredientes de receita de comida gostosa. Falamos coisas bonitas e românticas como se fossem nos salvar de um desastre. Temos linguagem para cada instante. Escrevo, canto, falo, respiro e ela gosta de tudo. Não quer nada além de como está. Nunca saberei sobre o próximo passo.
O triciclo
Há uma mulher. Ela me odeia. Esclareço que não sou sujeito preconceituoso e acredito no título do livro do Seu Machado: a mão e a luva. Eu e as mulheres já formamos os pares mais diversos, mas tenho espelho. Não sou ícone da estética perfeita, então falo com isenção. Ela é uma qualquer, no sentido ordinário da palavra, sem demérito. Não carece de ode ou elegia. Me pergunte se é bonita, admirável, inteligente ou cativante e lhe pedirei que mude o assunto. Eu conheço uma descrição física dela que ouvi, mas é ofensiva, nada aceitável nos dias beges de hoje. Eu ri, não vou mentir. A conheço em um jogo de futebol, na casa onde está um amigo, que cai de amores por ela. Não o encorajo, mas o apoio. Ela é esperta, se aproxima de mim na esperança de ajuda. Eles se unem e as coisas parecem bem. Ele nunca foi um sucesso com as mulheres, mas se acha abençoado com aquela deusa grega. Bem, nesse caso é mais um presente helênico e um dia o embrulho se abre. Ela dá azar porque acontece em uma noite de terça-feira, num encontro com amigos meus em um bairro distante. De resenha no bar, logo depois do baba, um deles chama a atenção para um trampo de língua rolando no banco da praça em frente. Uma pegação danada. Um cara e uma ruivinha. Ela. Faço com que me veja e nada falo. Dia seguinte, me traz um roteiro que daria dinheiro se filmado, mas não dá para engolir nem com pipoca e guaraná. Eu lhe digo que conte ao infeliz ou eu o farei. Ela fala com ele, mas uma versão bem alterada, que queima o meu filme e meu amigo encerra nossa amizade. Subestimei a mulher, nada ordinária. Não muitos dias depois, a maré abaixa, as pedras aparecem e o namoro dos dois acaba, de um jeito tipo queda de bicicleta, que você sai se ralando todo. Escrevo isso e me vem a tal descrição maldosa, aquela lá do começo. Quer saber, né?
– Ela é meio estranha, não acha?
– Opa, aliviou…
– Como assim?
– Um triciclo dentro de um saco de pano bem justo é mais organizado.
Ignorante
Há uma mulher. Ela me odeia. Ela é por demais gostosa, é o que consigo dizer. Tem muitas qualidades, mas só vejo curvas, todas perigosas e sem sinalização. Deveria ser proibido. Ela trabalha duas mesas perto de mim. Não concentro. Invento motivos para me chegar. Não quero fazer nada que ela não deixe, claro, mas estou sem esperanças. Desde aquele dia em que me despachou. De lá para cá, parece me pirraçar, provocar. Ou estou vendo coisas. O “não” dela foi claro demais, em pelo menos dez línguas, mas minha ignorância é terrível, do contrário eu não insistiria mais.
Certa ela
Há uma mulher. Ela me ama. É algo antigo, embora não me culpe por não o saber antes, pois não seria possível. Então o tal amor acontece em tempo certo, mas não traz alívio. Como escreveu recentemente uma talentosa amiga, há uma questão de sincronicidade a considerar. Uma conexão de significado. Ela é linda, mas não a via assim no começo. Era só uma amiga divertida. Ríamos muito juntos, o que chamava a atenção. Ela é muito expressiva. Seus olhos de eterna curiosidade, o sorriso perfeito e largo, gargalhada alta sem cerimônia de hora e lugar, sempre tocando em mim quando fala. Nunca a vi diferente. As vidas seguem e nos esbarramos aqui e ali, sempre com histórias para contar. E-mails, mensagens, ligações, eventos, tudo ocasional e inofensivo. Até há um mês. A armadilha. Acontece um projeto juntos e nos encontramos quase todo dia. Os cafés, uísques e vinhos não dão conta. Já tem mais de uma semana do primeiro beijo, que foi bom, aliás foi melhor que isso, admito. Ela concorda. Nos afastamos por uns dias. Não funciona. Retomamos sem beijo. Não funciona. Ela me lembra que é normal estar sempre certa sobre as coisas entre nós. Eu concordo. Ela diz que está insustentável, é um território estranho. Conclui que se formos para a cama “vai foder tudo”. Silencio e isso não lhe surpreende. Me convida para ir a seu apartamento. Ela diz que quer só conversar. Mentira dela. Chego despretensioso. Mentira minha. Bato à porta. Ela abre, me olha e não sei dizer se é um sorriso. Ela está certa. De novo.
Olho mágico
Há uma mulher. Ela me odeia. Me olha como se eu não existisse. Corta minhas falas com voz de dona. Sua língua lasciva me devora a integridade em apenas uma frase. Com mãos de tara esmaga meu passado como se nem rascunho de uma linha fosse. Destrói minhas crenças, não sem antes despi-las de qualquer conteúdo importante. Não insinua que me permite algo além do desejo. Comanda com gestos e não concede escolhas. Rege as partituras. Reduz minhas realizações a meras gotas de suor sem valia. Fico do tamanho que me quer. Vejo pelo olho mágico. É ela.
Surpresa
Há uma mulher. Ela me ama. Às vezes tem formas estranhas de me confirmar isso. Estamos juntos há um ano e faz tempo que penso em algo especial para lhe presentear, assim do nada, mas tem que ser bem planejado, pois ela controla tudo, o tempo todo. Quer saber cada detalhe do meu dia. Onde estive, com quem, o que fiz, as razões e tudo o mais. Não sei o que faz com tanta informação, mas cada um cada um, como diz a música. Decido fazer uma canção para ela, daquelas boas de amor, afinal, ela me ama, e à essa altura estou seguro de que eu também. Ela até disse que gostou das minhas composições. Até descobrir as que fiz para outras criaturas. Aí fechou a cara. Tenho um passado como todo mundo, mas ela ri como se isso nem existisse ou fosse argumento. Combino de irmos ao bar japonês novo que ela quer conhecer. Canção pronta, gravo com os músicos, que não por acaso tocam no mesmo bar. São duas versões: com a banda e outra só comigo, tudo bem romântico. Vou ao bar mais cedo e acerto a encenação com o garçom. À noite, a banda começa a tocar. Após alguns números, anunciam uma música dedicada a ela. Empolgada, olha para mim com surpresa, mas ainda não entende. Ao final da música me olha toda apaixonada, quando surge o garçom com o CD em uma bandeja. Ela se emociona, abre a embalagem com seu nome e enfim percebe, pela capa e os detalhes, que é uma canção feita para ela. Fala que nunca tinha vivido aquilo! Espero uma declaração de amor, quando ela olha e manda:
– Que horas você fez isso menino, que eu não vi?
Coincidência
Há uma mulher. Ela me ama. Coincide que é minha atual esposa. Ela tem lindos e brilhantes cabelos que até pouco tempo eu achava grandes demais. Sua voz parece saída de uma joia perdida de Puccini, encontrada em alguma gaveta em Torre del Lago, mas antes eu a ouvia esganiçada. O que dizer de suas curvas e coxas que até outro dia me parecia um traçado de aula de Analítica de tão retas? Quando ela anda eu vejo a cobra, insinuante em sua busca farejadora pela presa, que no caso sou eu, claro. Ela vem e eu paraliso. Seus gestos, antes um desfile paquiderme em corredor de cristais, agora são dança de Fonteyn. Ela está aqui desde que o mundo respira, eu é que não sabia, cego e surdo, perdido e sem noção. Estou desse jeito todo melhor porque ela existe. Agora eu entendo isso e vivo o que se apresenta, sem lamentar que não foi antes. Acontece que algumas pessoas não percebem assim. Há um homem. Ele me odeia. É seu ex-marido. Há outra mulher. Ela me odeia. É irmã da minha mulher. Coincide que é de quem me separei.
Aqui mesmo
Há uma mulher. Ela me ama. Sim, porque se soubesse do meu amor, assim reagiria. Está deitada em abandono de descanso, costas nuas à mostra. Sua figura de pele macia e clara, em dobras suaves, mas precisas, de pescoço à mostra com discreta penugem e sensualidade abundante, domina tanto o espaço, que não me lembro da decoração da sala. As cores de lençóis, fronhas e cobertas amarrotadas não me vêm à memória. Só ela e seu rosto, pela imagem do pequeno espelho que consulta. É nele que vejo que se percebe perfeita e bastante. Assim também o é para mim. Imagino que ela sabe de tudo e espero que com um gesto sobrenatural vire sua cabeça, solte os cabelos, me veja a contemplá-la, saia da moldura e me dê a mão, nua, aqui mesmo na sala do museu, em Londres.
A mesma coisa
Há uma mulher. Ela me odeia, mas espero reverter, pois sonho que ela me ama. Quando a encontro faz questão de ser elegante, mas sempre destrói as possibilidades de final feliz. Ela supera todas as minhas expectativas, mas creio que eu não esteja nem em sua lista de espera. É discreta demais e começo a achar que não a entendo. Peço ajuda a uma amiga, que me diz, entre risos, que percebe que eu e a minha musa gostamos da mesma coisa. Tá vendo? Não disse que ela me ama?
