Dani e Chico

Parte 1

Os ambulantes de itens usados que se organizam em torno da praça entre a rua Taylor e a Joaquim Silva já estão acostumados a ver uma bicicleta preta de rodas amarelas passar reto zunindo pelo asfalto da rua da Glória. É o meio de transporte e de trabalho de Dani, courrier que faz entregas por toda a zona sul ao longo do dia e, às vezes, à noite. Dani está em transição. Ainda não fez mastectomia, nem começou seu tratamento com hormônio. Seu corpo contido pela faixa que prende o peito por debaixo da lycra para pedalar e pela pouca altura desliza pela cidade sobre duas rodas, obedecendo fielmente a gravidade. Há um globo terrestre preso em cada um de seus calcanhares. Dani carrega o peso de uma galáxia própria, com duas Terras: dois planetas cheios de uma espécie complexa como o humano e seus longos anos de evolução no seu próprio corpo.

Pelo vão do prédio construído em 1956 no bairro de Fátima onde Chico mora, sobe, ao longo das tardes, o cheiro das geleias de maracujá e morango que ele fabrica em sua própria cozinha para entregar a cafés com quem fechou acordo entre o centro e a zona sul explorando seus diferenciais: uma produção caseira e orgânica. A elegância do seu andar em trajes de linho, camisa e shorts curtos, quase sempre em tons pastéis, combinados com bota preta ou tênis de cano alto guardam suas cores para os potes de 350g com uma tira amarela ou vermelha de bolinhas pretas, lacrados com um adesivo com a silhueta de uma flor do desejo em roxo sobre o marrom.

Dani e Chico se conheceram no Grindr, como quase todos os integrantes do “Bichas do Centro”, aquele grupo de zap de que já falei. E que toda sexta, ou quase, se encontra no bar do Juarez para tomar uma meia dúzia de litrões e jogar conversa fora. Dani, sem pronome definido, atrai um tipo específico de gays, os que gostam dos boycetas. Infelizmente, tem os que não estão dispostos para a experiência. Chico está no aplicativo à procura de diversidade, e não de mais uma rola que, quando em pé, faz seu dono achar que vive no topo da cadeia alimentar. Ou do mundo.

Para não dar pinta logo no Juarez, que ambos frequentavam, mas nunca tinham se encontrado, quando rolou o match, Dani estava terminando de fazer sua última entrega num escritório da Presidente Vargas e perguntou se Chico não queria encontrá-lx no Beco das Sardinhas. Qualquer lugar do centro era mais do que conveniente para ele, ainda que tenha achado que centro no fim de uma sexta fosse zero clima. E se elxs fossem se pegar?

Dani era dada aos aplicativos, nunca expressara medo de que um encontro fosse terminar em violência contra o que elx era, mas ele preenchia um espaço que ajudava que elx fosse aquele corpo compacto, sem nenhuma parte que não se encaixasse no molde que desenhara para si, contido em roupas retas e escuras, quando muito usava a lycra de ciclismo para trabalhar, quase toda coberta pela camiseta comprida. Quando falava, movia rápido a cabeça de um lado a outro, atentx à sua órbita de rotação. Chico era um pavão branco. Exuberante, discreto, sua postura era o cerne de sua elegância. Gesticulava bastante, suas mãos dançavam pelo espaço, suas pernas cruzavam-se e descruzavam-se como se rodopiassem sobre o palco do Municipal. Às vezes acompanhava seu desfilar um chapéu panamá sobre a cabeça raspada sempre no zero.

Parte 2

As garrafas de vidro juntadas embaixo da mesa de plástico azul com patrocínio da Antártica no Beco das Sardinhas foram substituídas pela conta desenhada à mão com caneta Bic azul. O som abafado do samba improvisado por trabalhadores que adaptavam os trajes de ar condicionados de escritórios aos 32º de uma rua de pedra que ficou sob o sol ao longo de toda a tarde, foi trocado pela sala pouco iluminada da casa de Dani.  Uma parede pintada de preto com quadros em desenhos preto e branco sobre um sofá preto. Não era um espaço alegre, mas tampouco era uma casa desleixada. Um cubículos daqueles que você não imagina que entra luz nem durante o dia.

Um biombo, a cama atrás, o banheiro à direita. Chico não era de não se sentir à vontade. Migraram da cerveja para o vinho branco, com azeitonas e crostines temperados que Dani sempre comprava da fornada de uma amiga. Poderia reformar uma casa, mas era avessa à cozinhar. Talvez Chico não tenha reparado nas nuances de sua personalidade, pois falava com naturalidade sobre tudo que elx não gostava, o que x desarmava na hora. E, assim, foi deixando um pouco de si vazar para além da contenção de seu corpo. Beberam com os pés descalços, ele com a camisa dois botões mais aberta, Dani com a blusa de algodão suspensa na lycra do short.

Enquanto elx ligava o som do bluetooth, ele comentou que os crostines ficariam deliciosos com suas geleias. Sentou-se sobre o sofá enquanto Chico ficara no chão, com as costas encostadas no veludo preto. Foi instintivo, no mesmo segundo, ainda falando, Chico pegou seu pé, massageando-o, fazendo seu joelho repousar sobre seu ombro. Não havia jogos de sedução. E a barreira da timidez ou do medo estava derretendo como é típico no verão. Pode ser que tenha se passado 2 ou mesmo 4 horas desde aí até Dani pedir para ele não desenrolar sua faixa enquanto sua bunda se movia encaixada sobre o quadril de Chico, sem freio.

No dia seguinte, um sábado, passaram na casa de Chico para ele pegar sua bicicleta e saíram pedalando. Era quase pôr do sol quando entraram pela Urca vindxs de Botafogo. Apoiaram as magrelas na mureta, sentaram-se com uma perna para a água e outra para o asfalto, um de frente para o outro. Chico usava uma camisa rosa, Dani uma camiseta verde escuro e o céu amarelo iluminava os dentes de Dani, que apareciam no sorriso dado quando Chico pegava sua mão para conversar segurando-a. Ele falava, falava, falava e nem se dava conta dos inúmeros toques que promovia entre eles. Da mão aos joelhos, o ombro, a barriga, os lábios.

Na casa de Chico fazia sol até quando era noite. As panelas de alumínio enfileiradas pendiam em ganchinhos milimetricamente separados em uma parede e, na outra, uma família de colheres de pau. Sobre a pia, uma prateleira abrigava os potes vazios para as geleias. Mais um dia jantaram petiscos de queijo, geleias, torradas e vinho, mas dessa vez sobre a mesa de centro da sala assistindo temporadas antigas de Ru Paul, rindo até a barriga doer. A contenção de Dani se esparramava ao colocar sua perna sobre a perna de Chico enquanto dava um último gole na taça. E ele ia fazendo de seus braços as faixas imaginárias que x envolviam pelos ombros largo, deixando cair as físicas.

O suor escorria como se todo cu que Chico já tivesse comido na vida fosse igual à boceta de Dani, até o ponto deles esquecerem que no fundo delx ainda pulsava um útero fértil.  E no domingo continuaram juntxs. Acordaram numa manhã não menos quente do centro do Rio de Janeiro e foram até a feira da Glória tomar café e buscar os morangos e maracujás.

Chico respondia a todos os “bom dia”, provava uma lasca de cada fruta oferecida, pegava o ramo de hortelã com a mão para levar ao nariz e dava um leve toque na aba do boné de Dani para ela sentir também, como se precisasse abrir sua cortina para o mundo. “Está bom esse?”. “Parece que sim, está perguntando logo pra mim?”. Na fila da tapioca, a de Dani era de carne seca acompanhada de suco de laranja. A de Chico, de banana com queijo e café.

Parte 3

Um ano depois, era verão de novo. As faixas lilás trançavam-se pelos ombros e abdômen de Chico, segurando Ariel. Os seios de Dani haviam crescido como nunca e pendiam exuberantes debaixo da camisa clara pela primeira vez na vida. Chico passava pelo corredor de barracas com o peito empinado junto à criança, cumprimentando os feirantes. Mas era Dani quem abria o sorriso e se agachava para ver de perto o coentro mais verde, levando ao nariz de Chico e dando uma folhinha para Ariel, que a pegava, mas virava a cara. Os morangos e os maracujás orgânicos continuavam indo para a sacola e, depois, sentavam para pedir a tapioca, da qual, agora, eram arrancadas mini pedaços para que x filhx pudesse provar.

Davam risada quando perguntavam, nas poucas vezes que ainda iam ao bar do Juarez, que tipo de casal eram: homoafetivo ou heterodissidente? De volta em casa, sem poder pedalar, Dani se afundava em planilhas que organizavam a vida de clientes os mais diversos, incluindo Chico e sua pequena empresa de geleias. Se Ariel chorava pedindo o peito, ajeitava uma faixa indígena, mais simples que um sling, atravessada no ombro e o encaixava, voltando a trabalhar, séria.

O apartamento de pouca luz e parede escura foi devolvido. Mas a cozinha de Chico continuava ensolarada e doce. As bailarinas em suas mãos ensaiavam com as pitadas de mel ou pimenta que incrementavam seu produto, as pernas pendiam esticadas ou dobradas quando precisava, frente ao fogão, alcançar uma nova colher ou um item do armário.  

Ainda assistiam Ru Paul. Dani ainda vestia largas camisetas escuras. E a dinda Carolina às vezes ia passar a noite para eles darem uma voltinha andando pela Urca entre uma mamada e outra. Mais um pouco e poderiam tirar a bicicleta do armário.

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