O mar azul

Há um homem. Eu o amo. Andando no centro, encontro a camionete dele carregada com um fogão novo. No banco do carona, uma mulher bem mais nova do que eu. Meu fogão é de 1990. 

Há um homem. Ele me ama. Nos encontramos na praça todas as tardes e ele me paga um sorvete. Descemos a rua de mãos dadas. Com a casquinha na outra mão, lambo a bola de limão siciliano quando passamos na frente dos amigos dele, que se reúnem para jogar bocha. Eu tenho vinte e cinco; ele, oitenta. 

Há um homem. Eu finjo que o amo. Uma vida de uma relação de vai e vem, dormência e explosão, calmaria e arrebentação, silêncio e estrondo, magnetismo e atrito, simbiose e fissão, eco e reflexo. Mais tóxica do que ioiô radioativo. 

Há um homem. Eu o amo. Vou até um grupo de magia e peço um trabalho para ajudá-lo a se encontrar. Estamos juntos há vinte anos, mas quero mais vinte, trinta, quarenta… A feiticeira me questiona por que me predisponho a auxiliar o alecrim dourado. “Peça algo para você, minha deusa”, ela diz. Então respondo: “preciso de um encanto para não ficar solteira. A amante dele que fique sozinha”. A feiticeira prepara o escalda-pés de verbena e passa folhas de louro nas minhas costas. Me concentro no mantra “ele é meu, ele é meu”. Nessa noite, durmo sozinha. Ele não aparece em casa nem dá notícia de onde está. No outro dia, a vizinha me conta que meu marido está com a jararaca. Ela está grávida. Em cidade pequena a fofoca corre rápido. Desisto da feiticeira, mas não do marido. Tempos depois, ouço a notícia de um pedido de exame de DNA. Ele desconfia de que o filho da amante não é dele. Para variar, ele está certo. O exame confirma. Volto a me concentrar no mantra “ele é meu, ele é meu”, mas não adianta. Mesmo com o resultado, ele decide ficar por lá. Eu ainda o amo. 

Há um homem. Eu o amo. Afonso me leva no karaokê, faz massagem e ainda cozinha sarapatel para mim. Quero muito me casar com ele. Fazer um festão com quinhentos convidados para todo mundo amanhecer sambando. Aos setenta e dois anos, enfim sinto que tenho direito a ter uma vida feliz, depois de cinquenta anos casada com um homem de quem tentei me divorciar por uns vinte. Deus que me perdoe, mas a partida dele para outro plano foi a melhor coisa que aconteceu comigo. Isso sem contar o nascimento dos meus quatro filhos, claro. Já viúva, em dois anos tive seis namorados que conheci em sites de relacionamento até que conheci o Afonso, o taxista que me levou para um desses encontros. Um amor nada transeunte. Agora sou obrigada a escolher se fico ou não com ele, já que meus filhos não gostam que eu tenha uma companhia. Analice, Francisco, Margarete e Roberta ainda sentem ciúme por causa do pai deles e me chamam de traidora. Mas eu amo o Afonso e vou convidá-los para o casamento.

Há um homem. Eu o amo. Ele acha que moro na praia. Por isso, veio lá do interior numa viagem de seis horas de carro para conhecer o mar. Nossa neta Mariana o acompanha nessa grande aventura. Sim, e uma grande aventura para um lavrador que ficou cego depois de ficar velhinho. Se hospedam num hotel a duas quadras do mar, e ele consegue escutar o barulho das ondas. Mal consegue dormir, ansioso para entrar no Atlântico. Logo cedinho, os pés que nunca encontraram uma lixa tocam a areia e as mãos calejadas de uma vida plantando milho são envoltas pela água marrom. Ele pergunta para a neta: “Estou bonito dentro do mar azul?”. Eu sussurro no ouvido dele que sim. Mais lindo do que nunca. No dia seguinte, Mariana encontra o corpo rígido do avô deitado na cama do hotel. No rosto, um sorriso petrificado. Dias depois, a neta joga as cinzas no mar para que o avô João encontre a avó Rosa. 

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