Boquita da princesa

(Susy Freitas)

I

Há um homem. Ele me ama. Todos os dias de manhã, ele me acorda com o cheiro de manteiga derretendo sobre a frigideira sem teflon, o que ativa a minha fome ao ponto do desespero. Só que até a hora em que decido me levantar, escovar os dentes, escolher a roupa do trabalho, passar o delineador no olhos e apagar o delineado errado de um dos olhos para refazê-lo, o cheiro dos seus pães na chapa se torna simplesmente insuportável. O apartamento todo é tomado por essa nhaca de Cabeça de Touro com queijo coalho e tucumã, e só de sentir aquele cheiro eu já devo precisar de umas dez sessões de drenagem linfática e catorze remédios para pressão alta porque é um cheiro muito salgado, não tem outra forma de descrever aquilo. Tenho certeza que cheirar seus pães na chapa de manhã colabora diretamente com meus problemas circulatórios e com uma retenção de líquidos até então inexplicável, que surgiu assim que começamos a morar juntos. E se ficarmos juntos para sempre? E se eu sentir esse cheiro para sempre, manhã após manhã, e todas as vezes que eu atravessar a cozinha rumo à área de serviço, aquelas gotonas de manteiga na beira do fogão e até mesmo por cima de seus botões me encarar e perguntar “Por quê, Val, por quê”? Penso nisso tudo e minhas coxas ficam trêmulas. Moles e borrachudas como queijo coalho derretido. Caem pelas beiradas da cadeira como se fugissem de dentro de um pão. E isso porque ainda nem falamos do tucumã. O tucumã é uma dessas coisas que você passa a vida inteira comendo e um belo dia constata que tem cheiro de cecê. Cheiro de milhitos vomitado no piso do três cinco meia, sentido bairro-terminal, por volta de três e meia da tarde. Cheiro daquela meia que você usou por uns três dias e deixou emboladinha dentro do sapato, se fazendo de tonto, mesmo que tenha pegado chuva. Cheiro de fundo do cesto de lixo. Cheiro de esmegma. Cheiro de passarinho atropelado. Cheiro de cebola na pizza portuguesa da Lanchonete & Pizzaria Rezende. Isso tudo está dentro daquele pão massa grossa pingando. E não esqueçamos do fato de que ele nunca se lembra de abrir as janelas. Nunca. Ficamos todos dentro de seu x-caboquinho. A essa altura, já estou fraca, de forma que quando ele fala “vai querer o quê, meu amor?”, não tenho meus sentidos muito no lugar. Olho para a nossa gata, ela sobe na mesa e me encara, e até ela tem aquele cheiro na golinha babada de pêlos, quem sabe condensando aquela melequeira que ele bota na boca pra depois bater os farelos da barba. Bate bonitinho ele, com a ponta dos dedos de unhas bem curtas, dedos nem finos, nem grossos, e falanges muito agradáveis de encaixar nas minhas. Sua pele muito limpa, bons poros e bons dentes. Homens sempre têm cílios bonitos. Os dele ficam dentro da tevezinha que as lentes de grau avançado formam ao distorcer seus olhos meio marrons, meio cor de vinho. A gata gosta dele também, fica se esfregando naquelas pernonas quando ele a espanta da mesa para o chão. Ele seria um lindo cavalo. Nosso apartamento tem quase o tamanho de um celeiro. Ainda podemos comprar um grill. Ele passa a mão na minha e, por um segundo, a casa não tem cheiro. Só consigo dizer “Faz um mistão pra mim?”.

II

Há uma mulher. Ela me ama. No seu aniversário de vinte anos, ela só quer comemorar o seu desligamento oficial da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e da família por parte de mãe. Vamo lá no Tahiti, sugiro brincando, mas ela topa de primeira. Arregalo os olhos, posto que esse é o nome de um dos motéis mais conhecidos da cidade, mas não reclamo. Até a chegada do grande dia, ela posta toda uma preparação nas redes: o corte de cabelo moderno que modela seus cachos agora. Uma sessão de massagem e depilação com a prima “do mundo” a deixa lisinha; e o vestido curto de camurça vinho da C&A é uma graça. Vai ser bom o negócio! Chega o dia e ela me manda uma mensagem: já pedi pro papai e tá tudo certo pro Tahiti. Oi? Como assim? Mandei a localização pro papai, mas ele pediu pra voltar cedo, tá bom? Mas tu falaste pro teu pai que a gente ia no Tahiti? Sim, por quê? Qual o problema? Comigo? É, ué. E ele não falou nada não? Falar o quê? Então tá. Que coisa, né? Num dia, a menina tem roupas íntimas sagradas, e no outro, vai pro Tahiti com as bênçãos do papi. Chego na casa dela com um presente safadinho debaixo do braço, uma lingerie cheia de pérolas no rego, e ela sai correndo, toda animada. Bora, bora, bora, que o Uber tá quase aqui! Nós duas no banco de trás, as mãozinhas bem perto uma da outra, aquela coisa, toda envergonhada, olhando pro embrulhinho no colo, uma coxa que bate e roça sem querer querendo, amplificando toda a expectativa, tanto que nem noto a rota meio diferente do que deveria ser. Chegamos! Eu nem jantei hoje, só por causa disso. Olho pela janela e dou um suspiro. Em letras estilizadas, leio a placa: Tahiti Sushi. Aniversariante não paga.  

III

Há uma mulher. Ela me odeia. No sexo, ela me implora para usar apenas meu par de coturnos surrados, uma imitação de Doc Martens que solta uns pedacinhos de courina toda vez que passo os cadarços. Ela me chama de Tia Neide, mesmo o meu nome sendo Camila e eu não ser tia de ninguém. Nem de criança eu gosto. Mas quando sento na beira do sofá e ela se ajoelha entre meus Doc Martens falsos, eu sou apenas Tia Neide, uma grande safada. Deixo ela ali uns dez minutos fazendo não sei o que com a língua, que parece um bifão descongelado. Detesto boca molenga. A cara dela vai ficando cada vez mais vermelha, seja por causa do batom cereja que insiste em passar nessas ocasiões, seja porque ela tenta se asfixiar na minha xota. Penso em manobras de Heimlich, pessoas sufocadas com ossos de frango em restaurantes, espinhas de peixe entaladas na garganta. Mulher babugenta também é complicado. Quando passa os dez minutos, acho de bom tom começar uns grunhidos e falar as coisas que ela me pediu na primeira vez. Lambe o sorvetinho da titia, lambe, e outras merdas assim. Que diabos. Mas ela fica toda alegre, a bichinha, cheia de cuspe escorrendo pelos peitos e os cílios empapados de delineador e rímel fuleiros. A baba renovando o brilho do Doc Martens comprado no bate palma. Quando ela se levanta, quem quer que estivesse sob o controle do seu corpo parte. Não sei o que as vozes que ela ouve falam, mas com certeza não são muito fãs da Tia Neide, porque ela sai recolhendo as roupas largadas pelo chão do quitinete, uma a uma idênticas às minhas, e bate a porta sem sequer limpar o rosto. Dou graças a deus. Boto um roupão e, ainda com os coturnos nos pés, peço dois kikão e uma coquinha de seiscentos do lanche aqui da frente pelo zap. É o tempo certinho de bater uma siririca amiga.

IV

Há um homem. Ele me odeia. Pela manhã, antes de eu começar a trabalhar, ele me dá um mistão com muita manteiga e  um suco de laranja geladinho. Bebe tudo, é bom pra imunidade, ele adverte, mas eu sei que por trás de suas boas intenções, há forças sinistras atuando em nossa cozinha. Mal dá dez horas, ele me estende um copo de aveia pra fortalecer. Fortalecer quem, homem, que eu estou mais pesada que um hipopótamo? No almoço, ele prepara calabresas comodoro, coxinhas de asa com molho de limão e mostarda, e um bifão à parmegiana com a crosta de farinha panko bem sequinha, acompanhado de batatas rústicas. Acuada por sabores tão hipnotizantes, não posso fazer desfeita e como tudo, e depois de me empanturrar, ele me oferece um Chica Bon só pra adoçar a boquita da princesa. Deito na cama para a sesta e ali fico. Duas da tarde, ele tira do forno uma bôla de sardinha e, da geladeira, uma coquinha KS. Bora merendar, bora merendar, ele fala, já com uma fatia servida no prato, a gata seguindo o cheiro do peixe pela casa. Ele me entrega o prato na cama, já que eu não consigo mais me levantar, e apoia o refrigerante na mesinha ao lado. Como tudo e fico assim até o fim do expediente do home office, com o computador apoiado em cima da barriga. Terminado o trabalho, tiro uma soneca até quase oito da noite, quando ele chega com uma tigela de Shoyu lamen com rodelinhas extras de kamaboko e dois ovos cozidos a mais, e pra finalizar, 500ml de um suquinho detox. Antes de dormirmos, ele me mostra receitas salvas no celular e aguarda que, num sonho, lhe seja revelado o menu do dia seguinte, certo de que ainda estarei ali.

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