(Bruno Vicentini)
1.
Há uma velha. Ela me ama. Tão logo ela morra eu começo a viver.
2.
Há uma garota. Ela me odeia. É vizinha do Lucas. Olha pra mim com desprezo toda vez que ele me chama pra brincar no prédio onde eles moram, como se eu não fosse bem-vindo. Eu continuo indo ao prédio deles porque o Lucas é um bom amigo e porque tem um videogame. Eu não sei se a vizinha do Lucas tem um videogame, mas sei que ela tem uma amiga. A amiga da vizinha do Lucas não me odeia. Pode ser até que a amiga da vizinha do Lucas me ame. As duas garotas são muito parecidas – tirando o fato de que uma é loira e a outra é morena, mas eu não sei muito bem qual das duas.
3.
Há uma mulher. Ela me ama. Vamos sempre ao cinema. Chegamos de mãos dadas e atrasados, porque ela demora muito pra se maquiar. Eu, por minha vez, não abro mão da pipoca, e assim o atraso aumenta. Entramos na sala o filme já vai ali pela metade. Ela pede licença pras pessoas, que se incomodam com aquele casal chegando no meio do filme. Algumas pessoas fazem caretas quando passamos.
Quando o filme acaba, fingimos recolher a sujeira que fizemos com a pipoca e vamos ficando. Depois nos escondemos atrás das cadeiras da última fileira, até a próxima sessão começar. Nesse momento ela sempre sorri. Seu sorriso tem um formato estranho, mas faz tudo aquilo valer a pena. A manobra dá certo. Assistimos então à metade do filme que tínhamos perdido. Na hora de sair, ela pede licença pras pessoas, que se incomodam com aquele casal saindo da sala no meio do filme. Algumas pessoas fazem caretas quando passamos.
4.
Há uma garota. Ela me ama, mas eu ainda não sei disso. Na festinha de Dia das Bruxas, vou me queixar à professora da quarta série de que os garotos não estão dançando, não querem tirar as garotas pra dançar, estão todos lá fora, na quadra, enquanto as garotas ficam sentadas uma ao lado da outra na parede do fundo do salão reservado pro bailinho. Cochicham entre elas e esperam ser tiradas pra dançar, eu imagino. As garotas sentadas lado a lado me fazem pensar num paredão de fuzilamento (e, se eu tivesse que atirar, atiraria na minha própria cabeça). A garota que me ama (mas eu ainda não sei disso) está entre elas. Minha intenção é tirá-la pra dançar, mas eu não tenho a coragem necessária.
Vou me queixar à professora da quarta série. Ela nem sequer chega a ouvir o que eu digo, Eu danço com você, Vem, ela diz, como se fosse uma resposta lógica às minhas queixas. Em seguida estou dançando com a professora da quarta série, no meio do salão. Todas as garotas assistem. Alguns garotos também. Dançar com a professora da quarta série exige uma coragem ainda maior do que a necessária pra tirar a garota que me ama (mas eu ainda não sei disso) pra dançar. A professora da quarta série não é uma garota, é uma mulher. Eu seguro em sua cintura com apenas dois dedos de cada lado, o polegar e o indicador, fazendo uma pinça. É o máximo de atrevimento que a minha coragem permite. Ela percebe e acha graça, Segura direito aí, Menino, e fecha as minhas mãos em volta da sua cintura. A professora da quarta série está fantasiada de Branca de Neve. Eu também estou fantasiado, mas não sei de quê.
5.
Há uma garota. Ela me odeia. Competimos em tudo que se pode competir. Nossa vida é uma grande disputa, uma confusão. Muitas pessoas, vendo como nós dois vivemos em pé de guerra, dizem que essa nossa questão vai acabar em casamento. Quando ela ouve isso, faz uma careta medonha, e me odeia ainda mais.
6.
Há uma mulher. Ela me ama. Escuta mal, de modo que eu tenho que dizer duas vezes tudo o que digo pra ela. Há uma mulher. Ela me ama. Escuta mal, de modo que eu tenho que dizer duas vezes tudo o que digo pra ela.
7.
Há uma mulher. Ela me ama. Depois de mais de trinta anos vivendo juntos, me pergunta, sem mais nem menos, se em algum momento teria havido um homem.
8.
Há uma garota. Ela me odeia e me ama, depois volta a me odiar, ou a me amar, não sei em que ponto ela se dá por satisfeita. A irmã da garota e eu brincamos de lutinha no sofá. Ela está usando um vestido cor-de-rosa, com botões de pressão na frente. Nós nos agarramos, tentando fazer com que o outro peça penico. Quando o vestido se abre, a irmã da garota reclama, Não pode, Tá na regra, A gente disse que isso não podia. Eu finjo que foi sem querer, Veja bem, O botão é muito frouxo, Ele abre fácil, Não é minha culpa. A brincadeira recomeça e no meio da confusão eu abro de novo o seu vestido. Enquanto isso a garota fica no outro sofá, assistindo a tudo.
9.
Há uma velha. Ela me odeia. Tão logo eu morra ela começa a viver.
10.
Há uma garota. Ela me odeia. Aquela nossa questão acabou em casamento.
11.
Houve um homem.
12.
Há uma garota. Ela me ama. A monitora do acampamento é quem vem me avisar, Minha amiga quer dançar com você, ela diz. Depois me pega pelo braço e me arrasta por entre os casaizinhos na pista de dança. A monitora procura a garota que me ama, mas demora pra encontrá-la. Eu gosto da sensação de ser arrastado pelo braço pela monitora, por entre os casaizinhos na pista de dança. A monitora conhece Pixies e fala japonês. É mais velha do que eu e meus amigos, mas não muito. Eu quero que meus amigos me vejam sendo arrastado pelo braço pela monitora, por entre os casaizinhos na pista de dança, como se nós dois tivéssemos um assunto só nosso, algo urgente a resolver lá fora. Torço pra que a monitora não encontre nunca a garota que me ama e fique pra sempre ali, me arrastando pelo braço, na pista de dança, por entre os casaizinhos.
