Ele e eu

Helô Mello

Há um homem. Ele me ama.

Ele chega carente. Sei pelos seus passos arrastados, pela maneira que se perde entre a chave e a fechadura da porta, como se o mundo não se encaixasse nos seus planos. Me preparo para recebê-lo. Fico em pé, abro o meu melhor sorriso e dou as boas-vindas. Em dias assim, capricho. Sua mão grande me afaga, afunda na minha pele, me faz carinhos no pescoço, onde mais aprecio, e dormimos abraçados.

Há um homem. Ele me odeia.

Ele não acorda, mesmo beijando seu rosto, suas orelhas, fungando em seu cangote. Não me importo se é sábado ou quarta feira, saímos para caminhar cedo, antes do café, como de costume. Mas ele só se vira de lado, e geme. Olho para seu chinelo de dedos gasto ao lado da cama, a bermuda suja jogada na cadeira e molho seu travesseiro. Se não obedece, tem castigo. Só assim aprende.

Há um homem. Ele me ama.

Saímos para passear. Corro na frente liberando meus quadris para andarem no seu próprio ritmo descompassado. Paro para esperá-lo quando está muito distante, para não nos perdermos. Ele acordou disposto, não cheira a whisky barato e calçou tênis. A caminhada será longa e decido me poupar, ando fora de forma. O sol já está alto, e paramos no bar do Gil. Ganho algumas batatas fritas e me delicio com a cerveja que alguém abandonou. Talvez a gente nem volte para casa hoje.

Há um homem. Ele me odeia.

Continuo com dor de barriga. Deve ter sido a pizza calabresa que devorei rápido enquanto ele estava no banho. Já vomitei no lençol, no sofá e, por último, no chão mesmo. Ele está puto comigo.

Há um homem. Ele me ama.

Dia chuvoso e frio. Ficamos enrolando em casa, e não me incomodo. Escuto o miado de gatos no telhado e, mesmo sabendo que eles não vão passar nem perto, fico nervoso. Odeio esses bichos. Cato todos os farelos de carne e pão que caem à sua volta, enquanto ele mastiga distraidamente um hambúrguer, assistindo um seriado desinteressante. Experimento o vinho que está tomando, mas prefiro cerveja.

Há um homem. Ele me odeia.

Ela vem dormir aqui. Pulam, se embolam, me desacomodam. Roupas pelo chão, as sacolas de mercado, que serviriam para preparar o nosso jantar, estão espalhadas pela sala, ignoradas. Fico de olho para saber o que tem nelas de interessante quando o seu tom se transforma em voz de comando, como ordens. Reclamo quando ela tenta me pegar, fingindo gostar de mim, e vejo no olhar dele um pedido para agradá-la. Não tolero as que se banham em perfume, e as que gritam com voz aguda. Dias assim renuncio, para não haver retaliação. As vezes é preciso se render.

Há um homem. Ele me ama.

Ele acordou e não olhou o celular nem abriu a janela. Nada que eu faça o faz reagir. Está verde e cheira cebola velha. Os restos de comida de antes de ontem permanecem nos pratos sujos em cima da pia, a tampa do lixo não consegue fechar, de tão cheio de embalagens de delivery mal amassadas, e fileiras desordenadas de latinhas estão tombadas na nossa sala. De vez em quando, ele precisa desse tempo só comigo. Meu calor perto da sua barba o conforta. Não me mexo.

Há um homem. Ele me odeia.

Ele chega tarde. Me deixou sozinho, sem dar sinal. Odeio quando faz isso. Como retaliação, ignoro sua chegada, não vou à porta recebê-lo e finjo estar dormindo. Sinto de longe a mistura de fritura, pinga e cigarro. Os sapatos, abandonados a passos largos, formam um rastro, seguidos pela camisa manchada de catchup e só um pé de meia estirado como se fosse um peixe fora d’água tentando se salvar. Despenca na poltrona e nem percebe que estou magoado. Esquece que existo.

Há um homem. Ele me ama.

Gosto de ficar a seu lado no nosso sofá velho. Cada um tem um espaço definido, sujeito a pequenas invasões territoriais, em dias que estou muito carinhoso ou com frio. Me instalo com facilidade no meu lugar que, de tanto me deitar, está moldado no formato do meu corpo. O tecido esgarçado está forrado de pelos, que voam pelo chão, sem nos incomodar. Ele segura o controle remoto com uma mão e com a outra a tigela de pipoca, com manteiga extra, que acaba de tirar do micro-ondas, e compartilha comigo, enquanto assistimos seus programas idiotas na TV.

Há um homem. Ele me odeia.

Chegaram seus amigos. Nenhum que eu conheça e mal me dão bola. Querem me fechar na lavanderia, alguém tem algum trauma, mas faço tamanho escândalo que, contrariado, ele me deixa livre. Vou ficar chapado com aquele fumacê. A música alta me incomoda. Seus amigos de sempre chegam me fazendo festa e nos damos muito bem. Tinha um tempo em que brincávamos, mas agora não tenho mais fôlego e nem interesse. Não sei por que convidar essa gente para nossa casa, para invadirem o meu sofá. Deve ser para me provocar.

Há um homem. Ele me ama.

Estou sonhando com um bicho grande. Abano o meu rabo, o cotó que sobrou do que deve ter sido um dia uma extensão do meu corpo. Mas disso não tenho memória, só vaga ideia. Um cachorro grande de pelos longos e rabo empinado, parece me ameaçar. Ele monta em cima de mim e quer morder meu pescoço. Fico indefeso, barrigudo que sou, tentando escapar, me viro de costas e rosno muito. Minhas patas curtas tentam me proteger de seu focinho longo, quando ele, meu homem, chega para me salvar e expulsa aquele bicho feio a pontapés. Treinei esse cara muito bem, até no meu sonho.

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