Leandro Reis
1.
Sua história a partir deste dia será uma história comum.
Você vê o campo se estender nos gritos verticais dos pássaros, seu gesto colossal saltando da grama e perfurando o céu. É o último dia e não há mais tantos garotos quanto na semana passada. Antes do jogo o aquecimento lhe dá a medida das coisas. Os garotos tocam a bola entre si, compõem círculos, aquecem-se, driblam-se; mas não são como você. Você se contenta com uma bola perto da bandeirinha de escanteio, sozinho, fingindo praticar algumas embaixadas. Você pensa ou sente que é como ocupar uma espécie de silêncio. Os garotos cintilam com os músculos embotados pelo sol. Você se lembra daquele que lhe deu um tapa no tímpano no último campeonato. Deve haver dezenas deles aqui, caçando moças como você. Você sabe que é verdade quando lhe dizem que qualquer um deles dá dois de você. Na verdade não precisam lhe dizer, você tem olhos, consegue sentir as mangas da camisa cobrindo seus braços, os calções cobrindo as meias, a caneleira grande demais que impede os movimentos da perna. Você rapidamente vê que são mais de vinte e dois garotos e se retrai para o banco na esperança de ficar para o segundo tempo – e tem o pedido atendido. Mas o primeiro tempo passa num segundo. E, como este é o dia da sua história comum, algo a mais acontece na arquibancada. A mulher – sua mãe –, antes sozinha, agora olha para o vulto que se descortina num homem de chapéu carregando um jornal debaixo do braço. Você o reconhece pelo detalhe do jornal, pois nunca o viu de chapéu, mas rapidamente pensa que talvez agora ele use um chapéu – você não saberia. Seu pai se senta ao lado de sua mãe – ela, impassível, ajeitando os óculos-escuros – e lhe diz alguma coisa, talvez pergunte por você dentro da sombra do chapéu. (Mais tarde, você interpretará esse cochicho como uma conspiração). Quando você é chamado para entrar, suas pernas pesam como se tivessem corrido horas sob o sol. Você evita olhar para cima, mas sabe que seu pai sobrevoa o campo com asas de albatroz. A bola toca nos seus pés e você já não os controla. Você dorme acordado.
2.
Você gosta de imaginar seu pai com as roupas da sua mãe. Seu pai é um cara grande, com os vestidos estampados da sua mãe ele ficaria como um sofá, como o sofá da casa da sua avó, vermelho, estampado com araras verdes e azuis. Não fosse o jornal que sempre carregava debaixo do braço podia mesmo se transfigurar em sua mãe. Numa noite ele falou sobre seu lado feminino. Na mesma noite contou intimidades de sua mãe, bêbado, e de outras com quem tinha trepado enquanto estava com ela. Você entendeu que isto era um homem. O que não lhe impediu de imaginar, pelo tempo em que ele detalhava as aventuras, arrancar-lhe os dentes com o abridor pendurado na bermuda do garçom, para quem seu pai estalava os dedos ordenando cervejas e tira-gostos.
3.
Pode ter sido neste dia, ou noutro qualquer, que você reconheceu no episódio do teste um molde para a sua desonra, uma imagem viciada: você andava pela rua deserta do bairro com o seu primo, tarde da noite, depois de se embebedarem em segredo na calçada do posto de gasolina. Antes de virar a esquina que dá para a casa de seus avós, onde vocês se hospedam nas férias, um homem sem camisa desafia o vento noturno. Quando você e seu primo já começam a reprimir os passos, a imagem do homem se recompõe na sua retina e você o reconhece, não como o fantasma anônimo que caminhava sem rumo pelo asfalto, não como um homem dotado de idade e sobrenome – a figura exibe os dentes rompidos de um recreio antigo, de uma briga no pátio entre tantas e, embora você nada tenha a ver com esses eventos, talvez comece a entender que o acaso sobrepõe as motivações. Seu primo não vê que você dispara pelo asfalto até a casa de sua avó, não vê que você aproveitou a brecha de um olho piscado do garoto que se inclina para acertar o queixo infantil daquele que te acompanha. O resto dos socos e dos chutes você apenas imagina, tenta fazê-los mais breves e até mais lúdicos, como numa luta encenada dos filmes que você assiste, porque você já estava longe, correndo; quer dizer, não imagina apenas, você recria o passado a partir dos sintomas visíveis no dia seguinte, pois é dia de praia, como sempre é nos verões na casa de sua avó, e no rosto de seu primo se iluminam as feridas que você não pode sentir como suas.
4.
Quem cai de um emprego em outro eventualmente desiste. É o que você pensa quando o tempo passou. Começa a fumar, precisa fumar, precisa ocupar o tempo. Apresenta-se como um homem de hábitos às mulheres que tenta conhecer. E passa a ver – a tentar ver, a elaborar – o mundo como um mal hereditário. Você também passa a beber com afinco no bar do Turco, por descuido. Talvez queira imitar seu avô, bebendo conhaque antes do primeiro cigarro; lembra de ouvir sobre os pedaços vermelhos e informes cuspidos por seu avô pelo chão da casa (segundo sua avó, porque você nunca viu os tais pedaços, mas é provável que ela os recolhesse com as luvas coloridas de cozinha, antes ou depois de retirar o assado do forno). Claro que não é só assim que se lembra de seu avô – por exemplo, lembra de suas mãos de cobre por cima das suas enquanto viam o jogo na televisão, os pés reumáticos subindo as escadas do terraço para buscar a bola que você teimava em chutar muito alto –, mas há muito compreendeu que certas imagens duram mais do que outras. Você enche um copo atrás do outro em frente à televisão, vendo homens se rasgarem numa jaula. Faz isso até se esquecer como dormiu. É particularmente dessa parte que você gosta, esquecer.
5.
Quando sua mãe morre, você precisa de alguma renda para fumar seus cigarros. Como você já frequenta o bar do Turco durante o dia, acaba indo para trás do balcão. Depois acaba alugando o quarto de cima, abrindo e fechando o bar, decorando o nome dos bêbados como um professor numa classe. Isso pode ter acontecido durante meses ou anos. Então, numa noite, você havia acabado de levantar as portas; você não reparou a princípio, pois se ocupava com assuntos importantes (pratos e talheres), mas ele se sentou com o queixo agressivo pendendo da cara, mirando o balcão. Fez isso por alguns segundos. Ou não fez? Você nunca viu aquele sujeito no bar; nunca viu seus olhos abissais. Mas há algo nele que não parece gratuito. Algo lhe causa a vontade súbita de acender o resto das luzes do bar, uma delas bem acima da cabeça do homem, como um sol. É claro que, em dado momento, talvez antes que o homem entrasse no bar, talvez antes de abrir as portas e ver seu vulto anônimo na calçada, você se entregou a ilações. Você se engana de propósito e se diverte com isso, distorce os traços do homem até inventar-lhe uma infância, e dentro dela um episódio específico, conduzido por um sujeito imberbe e sem medo do frio. Ainda atrás do balcão – como fincado no piso –, você não tira os olhos do sujeito nem quando as mesas gritam seu nome, nem quando ele caminha até a porta sem olhar para sua cara ambígua.
6.
Talvez a inércia, por fim, acabe gerando algum movimento. Você começa a se exercitar. Não tem outras ambições, então passa a viver um regime estoico, trabalha durante a noite e se exercita pela manhã. Chega a cento e cinquenta flexões por dia, e quando conta sua marca ao Turco, ele cai na gargalhada. Você ri também, mais do que ele, muito mais alto do que ele. Ninguém deve ter ouvido sua afronta dentro da névoa de arrotos e berros. Nessa altura da noite todos os bêbados são absolutamente únicos, você já os esquadrinhou enquanto eles bebiam. Pode escolher um que esteja dando sopa. Porque agora seus trejeitos mudaram. Você bate os copos no balcão e quase quebra as garrafas com os braços inchados – e deixa-se ver, exibe sua performance para ninguém. Não importa, você está satisfeito e pode assistir ao seu corpo se movimentar, áspero, de todos os cantos do bar. Você sempre quis ter um modo de andar.
7.
Você espera que o homem que espancou seu primo apareça e ele o faz. Três semanas seguidas – seriam duas? uma semana? – não podem ser simplesmente um hábito adquirido, um gosto peculiar, uma necessidade de repetição ou medo. O sujeito tem contas a acertar com você. Como se tivessem combinado, ele se senta apenas depois da última mesa esvaziar. O Turco caminha entre as mesas com um pano, virando as cadeiras de ponta-cabeça. Abre a porta do freezer e pega uma garrafa de cerveja para o algoz de seu primo. Volta para o balcão, lhe entrega as chaves do caixa e sai pelos fundos. Tão logo vê a figura do Turco desaparecer, o homem se levanta, e você percebe, abaixo do lábio superior, a ponta de um dente quebrado. Não sabe dizer se o homem sorri ou apenas lhe mostra quem é. Você se assusta com sua calma, mas não deixa de usá-la a seu favor: abre o caixa e tira algumas notas de cinquenta, na intenção de colocar no bolso do homem quando o derrubar.
