Há um homem. Ele me ama. Me ama pelo simples fato que eu o odeio. Ele me persegue o tempo todo. Quando me viro de madrugada dentro do cobertor, lá está ele, querendo entrar dentro da blusa do meu pijama e lamber a minha barriga. Meu mau humor noturno dá um chute na canela dele. Em vez de se afastar, se aproxima mais, não tenho outra opção a não ser a cotovelada. Um dente já se foi e por esse buraquinho ele assobia. É muito irritante quando ele me chama como se tivesse um apito entre os dentes. Se dá dois assobios, ligo a televisão, três, abro a geladeira. Eu o odeio também porque quando vou pra rua, ao olhar pro lado, vejo com o rabo do olho que ele está atrás do poste com a cabeça espichada me procurando. Não causaria surpresa se levantasse a perna.
Há um homem. Eu o amo com algumas falhas. Ele tem um tique nervoso: a mania de se cutucar. Se abre uma ferida, já não tem mais casca. Se brota uma espinha, nem espera ficar amarela. Os únicos que se mantêm intactos são os cravos das costas. Quando deixa o bigode crescer, me arrepio dos pés à cabeça. Ele passa a língua incessantemente nos pelos, como se fosse um limpador de para-brisa de uma motocicleta, e nesse vai e vem vou ficando tonta. Os lábios chegam a assar. Em algum momento os músculos da língua se cansam, então a ponta do dedo anular vai pro bigode e dá várias voltinhas por lá. É sempre o mesmo ritual. Ele aproxima o polegar desse outro dedo e com a unha, numa mistura de fúria e demência, arranca um único pelo numa puxada só. Seu braço voa no ar. Eu tremo e ele ri.
Há um homem. Eu o amo com loucura. Ele só me ama depois do terceiro dry martini. Isto faz com que eu tenha sempre uma garrafa de gim e de vermute no meu apartamento. Tanto eu como a taça, esperamos por ele sempre prontas, ela gelada, eu com um roupão vermelho de seda. Ele chega arrastando o avental, coloca a pasta na cadeira e se joga no sofá. Depois que está com o drinque na mão, sento no tapete e apoio meus cotovelos em seus joelhos. Enquanto bebe, me conta como foi seu dia. A menina manca que tinha a perna tão curta que foi preciso colocar uma barra de platina de vinte centímetros na tíbia e também na fíbula. Fico imaginando o pezinho dela balançando no ar antes da cirurgia e estremeço. Minha mão vai até o cós de sua calça e eu abro o botão, ele me afasta. Toda vez que age assim, acho que ele me vê como uma montanha de ossos, que pode montar e brincar na hora que bem entender. Nestes momentos, eu o odeio e ele sabe disso. Pra me acalmar, ele coloca a azeitona que está lá no fundo da taça na minha boca acariciando a minha gengiva, eu derreto um pouco, mastigo e tiro o carroço por entre os lábios bem devagar. Preparo o segundo drinque e volto a sentar a seus pés, mas desta vez com as mãos em suas coxas. Ele continua impassível, e me conta mais um caso do plantão. A senhora que colocou os dedos dentro do espremedor de frutas. A máquina puxou com tanta força, que todas as falanges foram trituradas, só o metacarpo permaneceu ileso. Aperto nervosa a sua virilha, e com as sobrancelhas espremendo a testa vou em sua direção. Como a lâmina de uma guilhotina que cai, abro o zíper, mas ele engancha nos dentes que estão tortos, coloco a minha língua entre eles. Uma das razões de eu amar esse homem mais do que os outros é o simples fato de não usar nada além da calça. Nesse momento, o fecho do zíper, como num refluxo, sobe um pouco e prende a pelinha debaixo da minha língua. Dou um gemido alto. Ele passa a mão nos meus cabelos e empurra a minha cabeça com força pra trás. Grito ao mesmo tempo que meus olhos se enchem de lágrima. Vou buscar uma agulha. Antes que dê o ponto, tomo um gole de gim. Finco as unhas em seu braço. Ele, ao colocar a azeitona na minha boca, verifica se a linha ficou bem presa. Cuspo a saliva com sangue e o caroço na pia. Ele me pede o terceiro drinque e já emenda outra história, do motoboy, que de tão doido, entrou na traseira de uma ônibus achando que era um túnel, perdeu as articulações dos joelhos, dos punhos e também o osso nasal e todas as cartilagens do nariz. Achando que não vou respirar de tanta ansiedade começo a ter uma taquicardia. O drinque se esvazia mais depressa do que os outros. Solto a faixa do meu roupão e me entrelaço em suas pernas como uma raposa que volta pra toca. O zíper desce até o final. Ele vira a taça em minha direção e com a língua capturo a azeitona. Por entre as abas abertas da calça, os lábios, a língua e a azeitona não param de se mexer. Quando ele treme a fossa ilíaca tenho certeza de que ele me ama e eu o amo ainda mais. Engulo o caroço.
Há um homem. Eu o amo mas não o conheço. Quando está cansado coloca pedaços de pepino nas costas. Não são rodelas e sim pedaços grandes. Ele tira uma foto e envia pra mim. Na última vez, os pepinos estavam mordidos. Não sabia se por ele ou por outra pessoa, uma mulher, por exemplo. Tentei ver o tamanho dos dentes nas cascas do pepino, não consegui. Tive pesadelos a noite. De manhã, o interfone toca, salto da cama e o porteiro diz que tem uma encomenda pra mim. É um embrulho pequeno. Ao abrir, um pote de iogurte natural e um bilhete: bom dia, venha me visitar.
