por Américo Paim
Sanfona
Chegou quarta-feira. Tudo foi providenciado. À sua maneira, você se preparou muito bem para enfrentar o desafio de as provas das disciplinas mais difíceis do semestre acontecerem no mesmo dia, em intervalo de minutos entre o fim de uma e o começo de outra. Você está trancado em seu quarto, a minutos de sair para o ponto de ônibus. Os pequeníssimos textos com escrita perfeita na mesa à sua frente. Dobra os dois papéis com método e embute um na Texas. Você é um mestre. Ocorre que no meio da prova de Sistemas Mecânicos, ouve a voz baixa e inconfundível atrás de si: “posso ver sua calculadora?”. Você sai com um zero e a decepção de ter sido apanhado. Sua técnica tão vitoriosa falhou. Nem dá para refletir, pois você agora só pensa sobre Cálculo IV. Não tem mais tempo ou plano B. Você checa mais uma vez a pesca micro sanfonada no bolso da calça. Confiante que um raio não cairá no mesmo lugar de novo, já consultou seu material duas vezes. Na terceira, vem um som: “o que tem na mão, jovem?”.
Porta aberta
Você é a autoridade máxima na obra, a instância final. Nunca questionam seus atos e ordens. Há algum respeito, mas você se impõe muito mais pelo medo, por gestos e falas. Natural do Rio de Janeiro, mas você já viajou tanto que está muito seguro sobre tal metodologia, que usou muito pelo Brasil, em especial com as equipes de linha de frente. Mecânicos, soldadores, carpinteiros, caldeireiros, todos tremem à sua presença. É um serviço na Refinaria, na temida Baixada Fluminense. A peãozada é barra pesada, dizem. Você mal conhece o lugar, mas todos acham que está à vontade. Recebe queixa do trabalho de um montador de andaime. O encarregado pode resolver o assunto, mas você quer deixar logo sua marca. Identifica o sujeito e lhe chama a atenção com crueldade e humilhações, diante de toda a equipe. Você despede o trabalhador, mas espera que ele apele ou se desculpe. À sua volta, estão todos em silêncio. O rapaz se aproxima de você e diz em voz alta: “ô meu considerado, é bom o senhor saber que eu moro aqui em Caxias, mas durmo de porta aberta”.
Polícia
Você vive com a família na casa que demorou muito a comprar. Há dez anos você deixou o aluguel e passou a morar nesse bairro que nunca havia frequentado, lugar que sempre foi de paz e segurança. Há três meses você tem um vizinho novo. Desde o início o incômodo é interminável, graças às frequentes festas com música alta. Você já reclamou mais de uma vez. Ele ignora e até debocha. Sua mulher pressiona que tome providências. Enfim, cheio de tudo aquilo, você resolve prestar queixa. Fala direto ao delegado, na sala dele. Passa todos os detalhes. Na noite do mesmo dia, começa nova barulheira. Você liga para a polícia. Em menos de meia hora, ouve a sirene da viatura. Sua campainha toca e você vai rápido à porta. Lá estão o vizinho e o delegado, num abraço parceiro. Um dos dois policiais que os acompanham lhe pergunta o que está lhe incomodando.
Negócio de risco
Você conhece uma criatura. Ela lhe deixa maluco de tesão. Você é casado. Você inventa uma viagem a trabalho. Ficará fora de Salvador por três dias. Sua mulher não estranha. É uma situação conhecida, embora pouco frequente. Você vai ao aeroporto sozinho, onde ela imagina que deixará o carro, como sempre faz. Você planejou tudo e vai para a casa de Interlagos, que têm há cinco anos, mas não frequentam nessa época, por causa das chuvas. Quando chega ao enorme condomínio e passa pela portaria, não dá muita importância ao carro que vem alguns metros atrás do seu, mas nele está sua mulher, que veio ali a pedido de uma amiga que está ao volante, para que desse opiniões sobre a decoração da casa que está reformando. Sua esposa reconhece seu turbinado zero e pede à amiga que o siga à distância. Você estaciona na garagem e a fecha. Entra na casa com a garota. Sua esposa vai embora com a amiga, mas na madrugada seguinte, ela volta. Pela manhã, você vai abrir a garagem, mas encontra no chão da porta uma tesoura grande bem danificada e uma garrafa com etiqueta escrito “ácido”. Há também um bilhete bem pequeno. O texto é curto e você reconhece a caligrafia: “Faltou papel na garagem, então improvisei em outro lugar”.
Familiar
Você está entregue ao vício. Teve tudo na vida, educação, conforto, carinho, mas agora a conversa é com os traficantes. Você pensa se lutou o suficiente para sair dessa, mas precisa resolver a dívida ou vai morrer. Eles não estão para brincadeira. Você lembra de valores escondidos que seu pai mantém na fazenda. É sua última saída. Você sabe o local, pois o velho já lhe mostrou uma vez. Combina o assalto com os dois marginais, que dizem que você vai junto, porque se for mentira vão lhe apagar lá mesmo. Você planeja tudo. No dia certo seguem para o local. Esperam escurecer, colocam os capuzes e na hora combinada entram na casa grande. Na última hora, você os convence que vai esperar no carro. No momento em que estão desmontando o fundo falso onde está uma caixa metálica com os itens de valor, são surpreendidos por seu pai, que não deveria estar lá. Chegou um dia antes do previsto. Não hesitam e atiram no velho. O barulho faz você correr para dentro da casa. Vê o corpo do pai no chão e é levado pelos outros para fora. Estão de saída na sala, quando você ouve uma voz feminina que achou seu jeito de andar familiar: “filho?”.
Questão de honra
Você conhece a moça em uma festa com amigos e fica logo encantado. Os dias passam e só pensa nela. Faz de tudo para se aproximar, mas nada acontece. Até que ela cede e aceita encontrar com você, mas o programa é um tanto diferente. Ela é torcedora do Vitória e sabe que você é Bahia. Querendo testar até que ponto você é capaz de se empenhar, convida para irem juntos ao BA-VI decisivo do campeonato de 1994. O Bahia joga pelo empate e o rival precisa ganhar. Até aí, tudo bem, mas ela quer ficar na torcida rubro-negra. Você faz de tudo para que mude de ideia, mas ela está irredutível. Pegar ou largar. Louco pela menina, você topa, deixando claro que não vai de vermelho e preto. Ela aceita, mas você não pode ir de azul, vermelho e branco. Também, isso seria loucura. Você vai de camisa verde, mas por baixo está com uma camiseta vermelha, com detalhes em azul. A cueca é branca. Questão de honra. Acaba o primeiro tempo com 1×0 para o Vitória. A torcida canta, ela também e você sofre calado. O primeiro beijo acontece ali mesmo, momento de empolgação, mas isso não faz esquecer o jogo. Segundo tempo se arrasta e nada de gol. Você vai inchando com a festa da torcida rival no seu pé de ouvido. Aos 46’, o Bahia empata. Cercado por centenas de torcedores rivais e a desejada, todos em silêncio de morte, você nem pensa direito e liberta o grito: “Gooooool, poooorra!”.
Um nome
Você tem um caso com uma ex-colega de trabalho não faz muito tempo. Considera sua ficha limpa, tem certeza de que sua esposa não desconfia. Você usa repertório criativo de desculpas e contorna até momentos mais difíceis, como programações tradicionais. Quando você percebe que ela pode estar insatisfeita com algo, reduz a frequência das saídas, traz fatos novos, presenteia, administra para que as coisas fiquem sob controle. Acontece que a demanda aumenta e sua amante exige sua presença no dia do aniversário dela. Mesmo com o compromisso de um jantar com seus irmãos na casa dos pais na mesma noite, quando se espera que o mais novo anuncie seu noivado, você banca o risco, mas não fala nada à esposa, que o espera chegar do trabalho para seguirem. A caminho da casa da toda maravilhosa, você toma uma fechada de uma pick-up de onde saem dois sujeitos armados e o levam no seu carro mesmo, seguidos pela caminhonete, onde ficou um terceiro marginal. Durante o sequestro relâmpago, você é obrigado a sacar dinheiro em caixa eletrônico. Passadas duas horas sem notícias, sua esposa cancela a participação no jantar. Ela, que relutava em aceitar, agora conclui que você tem mesmo uma amante, sem desconfiar de outras razões. Por telefone é informada do seu paradeiro e orientada a levar sozinha dinheiro e joias que tem em casa para local específico, o que faz, agora assustada. Quando ela chega, os bandidos recebem o que ordenaram, apontam o seu carro metros à frente e fogem do local. Ela encontra você amarrado e com uma mordaça no banco de trás. Vai lhe abraçar, mas antes vê a seu lado um buquê de flores, um presente e um cartão com um nome escrito. Não é o dela.
Opção
Você e sua namorada decidem que aquele sábado à tarde é o limite para enfim entregarem os donativos no orfanato, comprados há semanas. Já adiaram várias vezes pelos motivos mais fúteis. Sentem até vergonha pelo atraso na programação. Planejam sair pouco antes do almoço. É um lugar distante, com acesso fora da estrada principal, e não querem voltar à noite. Acontece que você se atrasa no trabalho e só conseguem sair por volta das três da tarde. Chegam ao local às quatro horas, fazem as entregas, conversam um pouco com as crianças, participam de contações de histórias. Ficam para o café com bolo, feito para vocês em agradecimento à generosa contribuição. Você está preocupado com a segurança, mas o zelador lhe diz que a região é tranquila, que pode ficar em paz. Quando saem já é noite e você, mesmo com a informação de que não tem perigo, acelera forte para saírem logo da vicinal. Em uma curva fechada da estrada de terra batida, passam por cima de alguma coisa, ganhando um pneu furado. No meio do breu, você salta para conferir a situação, vai até a curva e encontra diversos pedaços de madeira com pregos. Se apavora e volta rápido ao carro, que alcança ao mesmo tempo que três homens, saídos do meio do mato em volta. Você tenta entrar no carro, mas é contido e empurrado contra o capô por dois deles. O terceiro controla a moça, impedindo que grite. Vendo a situação complicada e prevendo o pior, você implora que não façam mal à sua namorada, ao que ouve de volta: “a gente não quer nada com ela, não. A gente quer você”.
