Vacilo de polaca

Silvia Argenta

Você está de férias ~ merecidas férias ~ numa praia deserta. Para se proteger do sol do meio-dia, resolve se abrigar embaixo das únicas três árvores que brotam da areia. A pele dos ombros já está vermelha, quase no ponto de aparecer as bolhas. Vacilo de polaca, mas segue o jogo, afinal são ~ merecidas férias ~. Se senta numa pedra achatada bem rente ao chão e tira um sanduíche da bolsa. Sua pele sensível castigada do sol e da areia merece um caladryl nesse exato momento, mas a fome é maior. Quando dá a primeira bocada, escuta um barulho. Atrás de você, há um monte de folhas secas amontoadas. Se vira e não vê nada. Deve ser o vento. Na segunda mordida, sente que alguém te observa. Procura por algo e nada de novo. Devem ser os macaquinhos. Na terceira dentada, o barulho das folhas se mexendo aumenta progressivamente. Dessa vez, não dá nem tempo de você se virar. Alguma coisa bate nas suas costas, o sanduíche cai no chão e você despenca de quatro em seguida. Ao seu lado, você vê uma cauda de lagarto quase do seu tamanho que abana a areia muito rápido, impregnando de grãos finos o seu rosto e cabelos. Você literalmente come areia. Sua reação imediata é se levantar e correr para qualquer lado, mas o lagarto é mais veloz e passa na sua frente antes que você consiga sair dali. Em pânico nas ~ merecidas férias ~, você se equilibra na ponta dos pés e evoca aos céus para fugir voando. De preferência, rápido. O lagarto faz a volta em torno de você e encontra outro lagarto maior ainda. Os dois levantam as patas dianteiras e se atracam, se embolando nas folhas secas em meio a mordidas, arranhões e rabadas. Você nem pega sua bolsa e corre direto para o mar. Só quando está dentro da água repara na cor prateada dos bichos. Devem estar trocando de pele.

A água calma e morna alivia as queimaduras dos ombros. Você mergulha para tirar a areia do rosto e tentar se recompor enquanto os lagartos estão em disputa. Quando volta à superfície, vê de longe, nas ~ merecidas férias ~, um surfista remando em cima de uma prancha. Você se vira para trás e percebe que o mar está flat. Lisinho, lisinho. Não entende o que o jovem está fazendo ali até que ele grita: pula! E exatamente quando ele fala, você percebe que o mar dá uma leve mexida e pula. Alguns segundos depois, ele grita de novo: pula! E mais uma vez ele acerta o tempo certinho do balanço da água e você pula. Para você, o mar continua uma piscina, mas é impressionante como ele percebe as ondulações. Passa mais um tempinho e pela terceira vez ele grita: pula! E você, já confiando no amigo marítimo, acena, dá um sorriso, afinal são ~ merecidas férias ~, e pula, agora com mais impulso. Não demora muito e ele grita: corre! Você ri e espera a ondulação chegar, mas ela não vem. Procura o surfista e ele está remando alucinadamente. Só então você se vira para trás e percebe o tamanho da onda. Dois metrão fácil. Não dá mais tempo de correr, de nadar nem de pegar jacaré. Pronto. É agora que você vai tomar a maior vaca da vida. O mar vai se atracar e se embolar em você de um jeito inédito nas ~ merecidas férias ~. Você evoca aos céus para fugir voando. De preferência, rápido. Mas a onda é mais veloz. Você então tapa o nariz com a mão e mergulha o mais fundo possível de frente para a onda. Lá embaixo, sente o empuxo circular, que te carrega para fora da água. Você literalmente é cuspida do mar. O corpo está tão duro que você chega à areia cheia de espuma, mas exatamente do mesmo jeito que mergulhou: sentada e de nariz tapado. Os lagartos não estão mais por perto. Você entende o recado da natureza, pega sua bolsa e decide passar o resto do dia na sombra da piscina da pousada. Se passar caladryl, consegue aproveitar o resto das ~ merecidas férias ~. Iemanjá não perdoa vacilo de polaca.

MELADO SUÍNO

Você desiste das ~ merecidas férias ~ na praia e resolve ir para o campo. Seu avô faz questão de te hospedar no sítio, distante uma hora da cidade. O convite é irrecusável, mas tem uma condição: ele não deixa ninguém dirigir o possante Celta azul 2012. Problema nenhum se considerar que seu avô tem 82 anos e subornou o rapaz do Detran para renovar a carteira de motorista. Para que criar caso, não é mesmo? Bora lá. Vocês madrugam num dia de inverno para abastecer o carro e já seguir caminho. No posto, o frentista alerta: “Seria bom calibrar os pneus”. Seu avô responde: “Não precisa. Nunca tive problema”. Você se intromete e retruca: “Precisa sim, vô. O aro está quase colando no chão”. Ele te olha com cara de não-me-enche-o-saco, mas aceita. O possante nunca havia sido tão bem tratado. Com o carro cheio de ar e gasolina, partimos. A estrada é praticamente plana e com muitas curvas. Em menos de dez minutos de viagem, a neblina baixa e não dá nem para ver o capô direito. Seu avô tira o cinto de segurança e se senta bem na ponta do banco, quase encostando o rosto no para-brisa. Você pergunta se ele quer que você dirija e ele prontamente nega. “A viagem é rápida. Logo chegamos”, diz ele, tentando tranquilizar. Digamos que a direção dele não é exatamente o que você espera nas ~ merecidas férias ~. Ele mira na faixa pontilhada central e posiciona a roda esquerda bem em cima, assim não tem perigo de sair da estrada. A estratégia funciona até que vocês escutam uma buzina e seu avô vira o volante para a direita e vai para o acostamento. Um caminhão passa no sentido contrário e só dá para ouvir que o cara não para de buzinar. Deve estar xingando pouco. Você abre a janela para respirar melhor, mas o frio congelante está de lascar, e volta a fechar. Seu avô pede paciência. Agora ele mira a roda direita para passar na faixa lateral da pista, o que não adianta muito porque a pintura não é das melhores e seu avô vai para o acostamento várias vezes. Parte boa é que não tem barranco na estrada. Você abre o porta-luvas e encontra o terço da sua avó. Pega e começa a rezar o pai nosso de olhos fechados. Sem ver o que se passa na estrada, só sentindo os solavancos, você consegue aguentar o resto da viagem. Seu avô e o possante que se entendam.

O sonho encantado das ~ merecidas férias ~ é passar alguns dias almoçando e jantando quirera e pinhão no quentinho do fogão a lenha. Mas assim que chegam ao sítio, seu avô te chama para conhecer o chiqueiro da propriedade. Coisa grande, profissional, afinal é fornecedor de um grande frigorífico. Você aceita o convite. O galpão tem um corredor no meio e várias baias com uns cem porcos enjaulados para engorda. Você não é vegetariana, mas mesmo assim a cena é chocante. Filhotes choram porque estão longe das mães, que, sem opção, passam horas no cercadinho sem poder se movimentar. Você decide sair dali. Seu avô quer te mostrar para onde são levados os dejetos do galpão. Atrás de cada baia, o xixi e as fezes dos animais escorrem para uma vala que despeja toda a imundice numa grande piscina, chamada de esterqueira. O cheiro é indescritível e como o passeio não é dos mais agradáveis você começa a se questionar por que gosta tanto de bacon e salame. Nas ~ merecidas férias ~, você quer ficar longe dos dilemas que não pode solucionar. Para aliviar os pensamentos, tira a máquina fotográfica da mochila e começa a registrar as coisas bonitas do caminho. Uma flor, uma borboleta, um passarinho. Mas precisa prestar atenção porque a grama está repleta de bosta de vaca. Para não sujar sua Timberland, opta por seguir pela calçada rente ao chiqueiro. Acontece que, ao encostar sua bota na lâmina cinza supostamente limpa, você percebe que não se trata de uma calçada. Seu avô grita algo, mas é tarde demais. Sua perna é engolida pela imundice das baias, que, paradinha, parece um piso cimentado. A Timberland mergulha uns setenta centímetros, encosta no fundo da vala e no impulso mais rápido do universo sai daquela nojeira em menos de um segundo. A perna toda fica banhada de um melado suíno que você vai se lembrar pelos próximos três meses. Bota, meia e calça vão direto para o lixo nas ~ merecidas férias ~. Durante o banho de mangueira no frio congelante, seu avô te consola: “quem fede a porco cheira a dinheiro”.

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