Carro de mulher

_ Você está me oferecendo 23 mil por um carro semi-novo que está valendo 30?

_ Veja bem, carro anda desvalorizando mais rápido. E aqui você sabe como é, tem a serra e tudo, você está subindo sempre para São Paulo. Carro de mulher sempre tem a embreagem mais desgastada. Pegando estrada, então. O valor que estou lhe oferecendo é melhor do que se você colocar ele em garagem.

_ A embreagem está perfeita. O carro está todo revisado. Não tem um arranhão sequer na lataria. Faço 28 e é o máximo, porque quero vender logo.

_ Bom, nesse caso então vamos pensar, porque eu daria 24 só para te ajudar.

_ Você tem meu número.

Entrei no carro e voltei para casa. Eu já tinha tentado vender o meu Honda em anúncios fofos e pessoais do Instagram, cogitei colocar numa Garagem, que cobra uma porcentagem altíssima, tentei o Mercado Livre e hesitei com a OLX, nunca vi um site com mais cara de trambique. O tal do Adalberto apareceu, uma semana e meia depois, pelo comentário de um conhecido do meu ex-marido no meu post do Facebook.

Lavo a louça do café da manhã enquanto escuto um podcast que resume, segundo eles, as notícias mais importantes do seu dia. Como nenhum apito de mensagem interrompeu o áudio, da pia segui para a máquina de lavar. Tinha dois cestos de roupa suja, com roupa de cama e os uniformes da Gabi. Estendi minhas calças que já tinham batido, olhei o tempo e decidi por colocar primeiro os lençóis. Sentei na cadeira de plástico entre a área de serviço e a cozinha, tirei o tabaco do bolso do meu casaco, fumei até chegar no filtro

Pensei em começar a mandar mensagem para as pessoas, mas poderia parecer desespero. Enquanto ponderava uma e outra ação, só vinha na minha cabeça que eu seria: 1) chata; 2) louca, tipo o meme da vacina, “o gerente enlouqueceu”, “olha a oferta que ninguém pediu”. Imaginei o Carlos me mandando mensagem: “Virou PJ, é?”.  

Em mais uma madrugada em claro e três dias da Gabi perguntando “Mãe, o que você tem?”, “Mãe, você não dormiu?”, procurei o Adalberto.

_ Adalberto? Maria, do Honda.

_ Oi querida, tudo bem?

_ Tudo certo. Olha, andei pesquisando aqui o mercado, tá desaquecido mesmo, se ainda tiver interesse no meu carro, 25 e é seu.

_ Posso olhar de novo ele?

_ Pode. Quando?

_ Hoje depois do almoço.

_ Tá bem, fico no aguardo.

Adalberto chega, me cumprimenta com um aperto de mão, não consigo ver muito bem seu rosto porque usamos máscaras. Da sua, sai uma barba loira, quase branca. Deve ter o que, uns 52, 55 anos?

_ Você costumava lavar ele de quanto em quanto tempo?

_ Olha, lá no meu trabalho tem um menino que fica no pátio dos carros, ele lavava toda terça e quinta.

_ Duas vezes por semana? Você sabe que o ideal seria três, né? Pro salitre não corroer essas bordinhas aqui das janelas. Oh, vem cá ver.

_ Hum.

_ Bom, não está ideal, mas vou ficar com ele. Que dia podemos acertar os documentos?

_ Hoje é terça, né, pode ser amanhã ou quinta.

_ Na quinta, pego minha esposa e vamos juntos, assim você a conhece e mostro as aceleradas para ela entender como não desgastar a embreagem.

Fiquei debruçada sobre os vidros, reparando cada possível canto carcomido pela oxidação. Em 40 minutos, buscaria Gabi na escola e não tinha nada para a janta. Fui ao verdurão do centro e decidi dar uma volta na orla antes de voltar à vida a pé. Era um dia nublado de junho, mais melancólico do que bom para ler um livro. Desci em frente à praça dos pescadores, que estavam sentados em roda, conversando e desfiando qualquer coisa com o canivete.

_ Vai querer peixe ou camarão hoje, Dona?

_ Não, não, só estou dando uma volta mesmo.

_ E veio até aqui pra voltar de mão vazia? Aproveita que foi dia chuvoso, nóis vendeu pouco, tá tudo na faixa.

Um deles se levantou, pegou o balde e me mostrou:

_ Olha só o camarão, que belezinha, faço $30 o kilo pra Dona.

Eu odiava ter que limpar o camarão e ficar com o tanque cheirando a peixe 3 dias. Olhei o camarão de novo e sua cor me lembrou a da ferrugem.

_ Me dá um kilo, então, vai. Quer dizer, pode ser dois, quem limpa um, limpa dois, né?

Em casa, botei os bichos para escorrererem no tanque. Descasquei um por um depois do jantar, fiz quatro porções e congelei. Botei as cascas em cima de um pano de prato velho estendido no quintal. No dia seguinte, levei a Gabi na escola e, na volta, abri o capô do carro, dentro da garagem, procurei a saída de ar e fui atochando as cascas. Na quinta, elas ainda estariam frescas para o seu Adalberto. Daqui uma semana, eu jamais saberia como é que homem cuida de carro para deixar ele assim, com cheiro de peixe podre.

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