Silvia Argenta
Assim que abri a porta, minha cunhada Solange e seus dois filhos entraram esbaforidos na casa. Estavam ansiosos pelo jantar de aniversário de Cláudio, com quem eu havia casado há apenas dois meses. Prometi servir camarão na moranga. Eles jamais recusariam um convite desses. Foquei na reação de Sol, que chegou com a pele brilhosa radiante com aparência de botox recém-feito. Nem tudo que reluz é ouro, pensei. Ao ver a mesa de jantar, o sorriso iluminado pela faceta de cerâmica nos dentes branquíssimos ficou fosco. Já o olhar se perdeu, sem foco em lugar algum por uns segundos.
Como minha casa não estava pronta antes do casamento, coloquei o endereço de Sol para que ela recebesse os presentes dos meus convidados. Depois da festa, ela encheu o carro dela de caixas e mais caixas de cristais, réchauds e jogos de lençóis para me entregar. Minha sala ficou entulhada por dois dias até que eu conseguisse organizar tudo. Fiz uma lista do nome do amigo mais o presente para ter um controle. Consegui anotar todos os itens e só faltou um faqueiro. Não era um faqueiro qualquer. Era um faqueiro de Dubai. Pura ostentação. Procurei por todos os lugares, até embaixo do sofá, e não encontrei. Liguei para Kátia, a amiga aeromoça de quem ganhei o presente, que confirmou a entrega pessoalmente para a Sol. A cunhada, por sua vez, me garantiu que me deu todas as caixas e que minha amiga devia ter se confundido. Não me conformei, mas não queria incomodar o Cláudio com esses problemas familiares. Com tantas outras coisas para ajeitar na casa nova, deixei o capítulo do faqueiro inshalá de lado por um tempo.
Semanas depois, Sol precisou fazer uma viagem urgente a trabalho e pediu que eu buscasse os filhos dela para dormir na minha casa. Aproveitei a deixa para bisbilhotar. Abri todas as gavetas do armário da cozinha, mas só havia talheres normais. Depois fui para os quartos. Procurei em cada cantinho e, no guarda-roupas do quarto de visitas, bem escondido lá na parte de cima, encontrei a caixa do faqueiro, com o logotipo da marca famosa de flamingo. Maldita mentirosa. Era tanto ouro que quando abri a caixa o brilho das peças iluminou o meu rosto. Para não levantar suspeitas, guardei todos os talheres dourados numa sacola e deixei a caixa intacta, no mesmo lugar. Passei no buffet da sala de jantar e peguei também uma travessa maravilhosa de cerâmica branca, com fios de ouro nas bordas, um dos presentes de casamento de Sol que ela mais gostou. Pelo jeito, ela nem deu falta.
Sentamos para comer o camarão e disse a ela que enfim tinha encontrado o faqueiro. Fiz questão de colocar na mesa quase todos os talheres. Para cada prato, três garfos, três facas e três colheres. “Veja só a qualidade dessas peças. Não me perdoaria jamais por perder um jogo desse. É para durar a vida toda”, comentei. Ela levantou o garfo do flamingo e concordou com a cabeça. Pouco falou durante o jantar. A cunhada mal conseguia engolir os camarões. Será que estava com algum problema nas facetas de cerâmica? Na hora da sobremesa, para o gran finale, eu trouxe a travessa de cerâmica cheia de sagu de pérolas de tapioca com vinho tinto Cabernet Sauvignon. “Olha quem está chegando!”. Os meninos chegaram a aplaudir.
– Quem deu pra gente essa travessa bonita? – perguntou Cláudio.
– Não lembro, querido. Só sei que é muito inshalá! Estava ansiosa para usar numa ocasião especial. Esses detalhes dourados combinam demais com os talheres de Dubai, não é, Sol?
– É sim, cunha.
– Sol, você está muito apagadinha hoje. Está bicudinha igual flamingo. Deixa eu te servir o sagu para te animar. Só toma cuidado para não manchar os dentes.
