O filho e o monstro

(Angélica)

Mamãe está sentada na poltrona verde de veludo com a chinchila no colo. Sem se dar conta da altura da sua voz por estar quase surda, me chama aos gritos. Paro o que estou fazendo e vou até a sala. Me pede goiabinha. Levo depressa pra que se acalme. Volto ao escritório e de lá vejo a dentadura, que sai da sua boca, devorar o pacote. Os olhos permanecem fixos na televisão. A chinchila pula e só depois de várias tentativas abocanha, por entre os dedos de mamãe, o doce de goiaba que se desprende da massa, em seguida ganha um carinho.

Não dá tempo nem de acabar o e-mail que estou escrevendo e ouço Luiz Augusto, Luiz Augusto! Mamãe tem a mania de repetir meu nome como se eu fosse duas pessoas e tivesse quatro pernas. Ela quer mais. Entrego a segunda goiabinha. Numa tentativa de que se distraia e desista de comer o pacote todo, sento ao seu lado e tento puxar conversa. A minha voz se mistura ao som altíssimo do programa de fofocas. Não desiste e também não responde. A chinchila também me ignora e desta vez está com um biscoito inteiro entre as patas. O barulho da língua estalando no céu da boca quando mamãe come me irrita profundamente, fujo de perto. Quando vou anexar o meu currículo, ela me chama de novo, aos berros. Nem preciso ver o que ela quer, levo a terceira goiabinha e me tranco no banheiro.

Ao me olhar no espelho, levo um susto tão grande que dou um passo pra trás. Um emaranhado de pelos saltam do meu rosto. Além da barba comprida e arrepiada, as sobrancelhas descem pelas pálpebras como se fossem o cabelo dos meus olhos, tufos pretos saem do nariz e das orelhas. Depois de passar o pincel com o creme de barbear azul, começo a raspar a barba com a gilete, mamãe grita, grita não, urra, porque sabe que a porta está fechada. Levo as mãos ao rosto tampando os ouvidos com o polegar. Do mesmo jeito que um débil não controla seus dedos e como quem desembaça um vidro, espalho o creme pelo rosto inteiro, vou até lá. Mamãe olha pra mim e ri. Filho, você não me parece nada bem, quero ir ao banheiro, diz. Num puxão, sai da poltrona e fica de pé. A chinchila a essa altura já desapareceu. Ela agarra o andador e se arrasta pela sala como uma lesma, deixando um rastro de farelos pelo caminho.

Demora tanto tempo, que deixo a barba de lado e retiro o creme azul, já meio seco, na pia do lavabo. Luiz Augusto, Luiz Augusto! É pra que eu a tire do vaso. Toda vez que faço isso, fecho os olhos, ver mamãe pelada é uma das piores visões que se pode ter na vida. Mesmo que seja apenas com a calça abaixada. Mamãe usa fralda, mas apenas pra incontinência urinária, caso contrário iríamos fazer o Tour de France a cada meia hora. O cheiro que sobe me leva a rezar um pouco. Ajudo mamãe a não escorregar nos azulejos, quando está saindo do banheiro, meu celular toca, fico preso lá dentro pois as pernas do andador se enroscaram no batente da porta. Conto até dez, até trinta, até cinquenta. Só aí mamãe se desprende e vai em direção à poltrona. A chinchila passa correndo e se joga nas paredes como se tivesse um skate nos pés. Faz dias que aguardo a resposta pra uma entrevista de emprego e pra mim é quase certo de que sejam eles, já que quase ninguém me liga. Ajudo mamãe a se sentar e corro pro telefone.

É Marinalva. A cuidadora de mamãe, deixou uma mensagem de voz falando que não vem amanhã, enquanto eu não pagar, está indo pra casa de outra pessoa. Há quatro dias não aparece e isso quer dizer que mamãe vai continuar sem banho. Já reparei que se coça um pouco. Ela me chama porque quer que eu pegue o maço de cigarro que está em seu quarto e me pede também que traga a chinchila, gosta de esquentar as mãos nela, não me surpreenderia se a chinchila fumasse também.

Só aí me dou conta que faz um tempinho que não a vejo, nem escuto ela pular. Ao entrar no escritório e olhar pra baixo, me deparo com uma aberração dentuça e um fio destroçado caindo de sua boca. Minha mão tenta agarrar o seu pescoço, a monstrenga é mais rápida e sentindo que corre perigo de vida, vai em disparada pra perto de mamãe, que a pega e acaricia sua barriga. Meu computador está com a tela preta e não liga mais. A raiva é tão grande que sinto a parte de cima das minhas orelhas ficarem pontudas. E pra piorar, lembro que alguém roeu a haste dos meus óculos e o bico do meu tênis novo, isso faz o meu rabo crescer. Não dá nem dois segundos e a chinchila se joga da poltrona, sai correndo e saltando como se estivesse numa pista de obstáculos e some logo em seguida.

Luiz Augusto, Luiz Augusto! Mamãe quer que eu troque a fralda, está encharcada e isso faz com que sinta frio. Vamos até a sua cama e outra vez tenho que encarar seu corpo. Fecho os olhos, se eu ficasse cego conseguiria cuidar dos velhinhos muito bem. Ao virar mamãe de lado, ela diz que a chinchila é a filha que nunca teve e que a ama apesar de ser histérica. Concordo balançando a cabeça. E assim que fixo a aba com a fita adesiva, chego à conclusão de que a morte, se tratando de estados caquéticos, também usa fralda.

A volta pra poltrona é ainda mais complicada, mamãe se cansa com facilidade. Depois que já se sentou, sumo por algum tempo mas antes deixando o quarto pacote de goiabinha ao seu lado. Ao retornar, trago em minhas mãos, como se levasse uma bandeja, a chinchila morta. Nada que uma saída de duzentos e vinte do quadro de luz e um fio desencapado não pudessem resolver. Quando a eletrocutei, depois de tremelicar, as pernas se esticaram como quem se espreguiça e depois se encolheram num V, as patinhas dianteiras caíram pra frente com as unhas de fora.

Encontrei morta na área de serviço, não sei o que aconteceu, falo em tom grave. Os olhos de mamãe se enchem de lágrimas ao mesmo tempo que minhas orelhas pontudas e meu rabo balançam freneticamente. Ela pede que eu coloque a chinchila em sou colo. Depois de passar os dedos em seu pelo e sentir o último calor que se desprende do corpo antes que enrijeça, mamãe puxa os lábios pra cima, e num sorriso leve e quase infantil diz: empalha pra mim, filho?

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