Ratomaquia

(Leandro Reis)

Ele me deu um nome, Rato, porque quando eu era bebê eles me acharam num buraco no armário depois de dias me procurando, procuraram até debaixo da pia e no forro no sofá, onde eu podia ter caído enquanto eles tentavam existir na luz rala do único lampião da casa, escalpelando o chacal dependurado pela pata antes de pregar o couro na tábua por três ou quatro dias – eu assistia ao processo do meu buraco, da gaveta do armário, a casa tinha dois quartos mas uma gaveta era tudo o que eu precisava, foi assistindo à rotina do casal que tive minha epifania de Rato, eu enxergava os movimentos sinuosos dos membros do Homem-Rato, seu dorso peludo e arrepiado, da Mulher-Rata barriguda parecendo pronta pra dar uma ninhada, e também dei nomes pra eles: se sou o Rato eles são meus iguais, são a Rata e o Rato no covil dos Ratos.

Devia ter idade quando comecei a distinguir os sons pela madeira, a Rata tinha grunhido pra ele se eu não devia pelo menos limpar as baias dos bichos ou recolher a lenha que inclusive já estava cortada, mover minhas mãozinhas de Rato que já estavam meio curvadas, mas o Rato era peremptório, “Não serve pra porra de caralho nenhum.” Meu corpo parou de crescer e até se reduziu um pouco pra caber na gaveta, o tempo me dava pelos grossos e orelhas capazes de filtrar totalmente o som mediado pela madeira: percebi num inverno que os Ratos estavam felizes, andavam com as patinhas ordenadas pelas tábuas da casa, patinhas rotineiras mas com alguma solenidade, patinhas ritmadas: porque estavam felizes os Ratos acocoravam-se nas cadeiras de vime e ligavam o rádio na estação de música clássica, esquentando o avesso da pelagem com repetidos goles numa garrafa, soltando as pregas dos olhos à medida que o céu escurecia. A música devia fazer algo com o Rato, ele passava a dizer frases articuladas – talvez tentando copular com a Rata, que sorria entorpecida –, dizia o Rato que o céu no crepúsculo tinha a cor dourada dos mares noturnos quando iluminados furtivamente pelas embarcações; que os chacais de dorso negro roçavam o sangue nos arbustos pra mandar recados; que quando erguia os braços como fazia agora, ele, o Rato, regia a orquestra e também desafiava os bichos a atravessarem a névoa e a mostrarem o magma amarelo dos olhos, como faziam os caçadores do extremo Sul; e então lembrávamos que um dia o Rato teve uma vida no mundo de lá, e agora devia esfregar as patas entediadas vendo as fileiras de árvores replicadas. Nessas noites de trégua eu saía da gaveta, a Rata avistava minha cabecinha peluda e, com a voz terna e a anuência do Rato, me chamava pra agachar junto da cadeira, os meus olhos pequenos acolhidos pela noite.

Mas no verão o Padre subia a montanha e o odor da carne flagelada invadia a gaveta. Eu saía correndo pelo assoalho das garrinhas insepultas do Padre, das maçãs côncavas esticando as perebas da cara, do andar hesitante de pombo. Do meu buraco eu ouvia a voz póstuma, ouvia-o benzer a casa arrastando as saias na sala; debaixo do telhado da baia ele pedia um banco de madeira pra sentar, sempre perdia o ar e espirrava com o cheiro dos animais, cuspia um cuspe seco na palha ou mesmo na xícara de metal que o Rato dava pra ele beber água. O Rato andava uns metros pelo corredor das árvores até o penhasco pro insulto se perder no vento e empunhava a arma caso atraísse os chacais. E voltava andando devagar porque não podia com um Padre moribundo. Da baia, os ratos acompanhavam o Padre até o quarto deles, e quando passava pelo rádio o Rato aumentava a música, eu chegava a lacrimejar ao perceber que o Rato me considerava, aumentando o volume pra que eu escutasse ou sentisse a vibração da madeira, como a mão de alguém balançando um berço. Depois o quarto se abria e o Padre saía com as peles e deixava um saquinho pardo que fazia barulho de moedas.

Um dia não cheguei a sentir o odor do Padre mas ouvi sua voz fora da casa: a terra tinha novos donos, os chacais começavam a rarear porque atacavam o rebanho e precisavam ser mortos. “Até os chacais têm destino”, a Rata guinchava tentando consolar o Rato. “Puta, porca. Excrescência”, ele respondia e virava a garrafa entre os dentes. A Rata ajoelhava diante do altar da santa e pedia que os chacais voltassem a povoar a mata, mas não se viu mais sinal nem se ouviu a voz deles. E algo estranho começou a se passar com o Rato, que andava coagulado pela casa, mancando e se arrastando como o Padre, “A tua reza fodida, mulher”, cuspia o Rato, “E aquele maldito eunuco descaralhado”. As garrinhas falhavam, os dedos finos do Rato esfarelavam na tampa da garrafa fechada. Aos poucos fui notando um cheiro vindo da baia dos bichos, um rastro que o Rato deixava ao carregar uns potes cheios de um líquido rançoso, logo impregnado na casa, o Rato deixava aquilo curtir no sol um dia inteiro antes de banhar a pelagem seca com a pasta. As garrafas que entulhavam o armário deram lugar aos potes que salvariam o Rato, ele acreditava, e nem minha gaveta pude mais ocupar. Precisei cavar um buraco na direção da parede, na direção do quarto dos ratos, mas é claro que a ira do Rato não ia me poupar, ainda que seu corpo já estivesse reduzido e curvado como as minhas patas: o Rato resolveu que eu valia alguma porra de um caralho, mandou a Rata arrastar o armário e me tirar do buraco, e com a falanginha quase esticada apontou para os potes e depois pra baia dos bichos, no estertor do corpo reiterava o rato que era, rato predador de chacais e agora um morto-vivo como o Padre.

Carreguei os potes do Rato por dias a fio ferindo os olhos na luz branca do inverno. A Rata vigiava meus passos ouvindo sem parar a estação preferida do Rato, agachada na varanda com as garrafas. O Padre já não levava as peles dos chacais nem deixava moedas, mas ainda recolhia o Rato e a Rata para o quarto depois de amaldiçoar a casa com sua água satânica. A Rata também já não fazia questão de aumentar o volume do rádio ou verificar os buracos da casa, então eu continuava a cavar a parede pra longe do armário e cada vez mais perto do quarto dos ratos, atraído pelos guinchos da Rata. De tanto cavar cheguei do outro lado, a luz que vinha da janela do quarto dos Ratos e penetrava o buraco já não feria meus olhos – na verdade ajudava a amealhar os vultos no quarto, tomando as formas que antes eu reconhecia pelas frestas da gaveta: empurrei o resto dos farelos da parede pra chegar bem no precipício e avistar primeiro a nuca do Rato, sentado na cadeira-de-rodas, de frente pra janela, e a princípio não entendi o que ele encarava já que em todos os cantos só se podia ver árvores enfileiradas: então compreendi o que o Rato deixava de olhar, virado de costas pra cama, e não consegui segurar o guincho: por que caralhos o Rato se negava a olhar pra cama se já tinha os olhos vazios, roubados pela doença? Não sei se chegaram a ouvir meu guincho, movi rapidamente as patinhas pelo túnel de volta pro armário, prendendo a respiração pra me embrenhar no meio dos potes do Rato e escolher o mais cheio, o verde mais vívido, uma forma de honrar o Rato, honrar a cabeça de pombo do Padre enterrada na virilha da Rata, e disparei com o pote equilibrado nas costas guiado pela beleza do som emitido pelo rádio do Rato, esquecido na varanda, embebido agora no líquido rançoso, mudo, incapaz de relatar minha fuga do covil dos ratos pra mata livre de chacais.

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