Ruído no motor

por Américo Paim

Estamos eu, Pedrão, Cesinha e Fred no salão principal do 5º andar da Politécnica, pouco antes da aula de Sistemas Térmicos. Conversamos sobre os acontecimentos recentes. Não pode continuar assim. O professor Eduardo, reconhecido como autoridade em seu campo, é um dos mais antigos e intocável no Departamento de Engenharia Mecânica. Acontece que ele é péssimo e nem dá aula direito, só fala sobre seus prêmios, viagens e tolices. Se um aluno se manifesta é repreendido, como foi Orlando outro dia. Ele só quis participar, mas sua gagueira estragou tudo e ele sofreu com humilhações na frente do desgraçado.

– Velho, a gente vai fazer que porra?

– Nada, ué.

– Não pode. Viram a cara de Orlando? Ele até quer largar a matéria.

– Não adianta. Só tem turma com o coisa ruim.

– E hoje no sorteio dos temas dos trabalhos?

– Porra, será que ele vai aprontar com o gaguinho?

– Oxe, o que é que cê acha?

Na aula, acontece o previsto e nosso infortunado colega pega o tema carburação, área de especialidade do mestre, que explica o que quer de nós. Um trabalho com no mínimo quarenta páginas, manuscritas ou datilografadas e uma apresentação de cada um sobre seu assunto, com no máximo dez minutos.

– Mestre, não é pouco tempo?

– As regras são minhas. Nunca mudam.

– É que é muito assunto…

– Você tem mais alguma coisa idiota para falar na minha sala?

Depois dessa pancada, saio retado. O meu tema é transmissão e já imagino que essa minha fala vai custar caro. Estou dividido desde o início do semestre. O professor é amigo de meu pai e chegou a ir lá em casa algumas vezes quando eu era menino. Era legal, mas depois sumiu. Ele não me reconhece. Por eu ter dois nomes, Francisco Marcelo, e sobrenome comum, ele não juntou as peças. Para os colegas sou Chico, mas lá em casa sempre foi Marcelinho, como minha mãe preferia.

Inconformado, procuro veteranos, até quem já saiu da faculdade, para saber o que fazer e saio com uma ideia arriscada. Compartilho com os colegas, que acham que estou louco.

–  Que morrão cê fumou, véi? Vai se foder…

– Porra, não vão colar?

– Vai dar problema!

– Ele não lê os trabalhos!

– Quem lhe disse?

– Ele risca todas as páginas com hidrocor só para não usarem no semestre seguinte.

– Você quer escrever um monte de merda no meio do texto porque acha que ele não vai ler?

– Merda não, insultos, verdades, se preferem assim.

– Porra, tá doido…

– Bora, véi, vai ser massa. Tamo na boca de sair daqui. Vamo deixar a marca!

– Não, tu vai só nessa doideira…

Minha outra ideia todo mundo topa: distribuir perguntas já combinadas entre os colegas para o palestrante responder como se feitas na hora. O mestre vai gostar da participação e quem sabe não vai sacanear com perguntas escrotas.

Chega o dia. Mostro meu trabalho aos amigos, que riem chamando a atenção de quem passa:

“… um conjunto de engrenagens combinadas entre si dividem a potência do motor entre as rodas, além de garantir que o professor é um filho da puta preconceituoso que todos detestam, para que nas curvas, elas possam girar em velocidades diferentes. Isso é possível porque essa divisão de potência não é igual. O controle disso acontece no mecanismo do diferencial, o que…”

– Cara você é louco. Se der certo, vamos lhe pagar uma grade.

– Vai tranquilo, você vai ver. Olhem esse outro trecho:

“… componente onde ficam as polias responsáveis por cada marcha do veículo. Em transmissões manuais, também é onde fica localizada a alavanca de câmbio. É responsável por mudar a relação entre o torque e a velocidade transferida às rodas e manda o professor para a casa do caralho, para vingar orlando. Quanto menor for a velocidade gerada na saída da caixa de câmbio, maior é o torque, ou seja…”

Tenso, entrego o documento cheio de recados, faço minha palestra e respondo às “perguntas”. Assisto às outras, vejo o sufoco de alguns colegas.

Na última semana de aulas, conferimos os resultados no quadro de avisos. Tiro o 5 máximo na apresentação e todos tiramos 4 nos trabalhos, que pegamos na Secretaria e comprovamos: um risco amarelo diagonal em cada página. E só. Nenhum comentário. Saímos para comemorar. Tenho direito a um engradado.

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